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4 ARTIGO DE OPINIÃO: RESSIGNIFICANDO PRÁTICAS DE LEITURA E

4.3 A ARGUMENTAÇÃO COMO EIXO BÁSICO DO ARTIGO DE OPINIÃO

4.3.3 Pressupostos e implícitos na argumentação

É impossível haver textos totalmente explícitos, então, para que um texto seja bem compreendido, faz-se necessário haver um equilíbrio entre informação explícita e informação implícita, pois muito do que se diz em um texto está implícito nas suas entrelinhas. Koch e

Elias (2016) dizem que para que ocorra esse equilíbrio, o produtor do texto deve levar em consideração em seu leitor/ouvinte os seus conhecimentos, interesses, opiniões, enfim, a sua maneira de ver o mundo.

Toda argumentação é constituída de premissas explícitas (pontos ou ideias de que se partem para armar um raciocínio) ou não. Então, para se chegar à conclusão é preciso relacionar essas premissas e elucidar os pressupostos e implícitos.

Conforme o dicionário Houais da Língua Portuguesa, pressuposto é a circunstância ou fato em que se considera um antecedente necessário de outro. Para se entender o que significa considerar algo como “antecedente necessário” de alguma outra coisa dita, consideremos o seguinte exemplo: “João parou de fumar”. Para se aceitar o que foi afirmado no exemplo (o fato de João ter deixado de fumar), é preciso que tomemos como certa outra informação que, embora não dita na frase, é necessária para que seu conteúdo seja verdadeiro. Essa informação é o pressuposto de que partimos no momento de elaborar nosso raciocínio. E qual seria o pressuposto desse exemplo? Só há uma possibilidade: se João parou de fumar, tenho de partir do pressuposto de que João fumava. Note que, se João nunca fumou, a firmação deixa de ser válida, É por esse motivo que o pressuposto deve ser considerado como um “antecedente necessário” de algo que é dito.

Os pressupostos fazem parte de muitas das conversas que temos até porque explicitá- los significaria, muitas vezes, informar o óbvio, o esperado em um dado contexto. O importante é perceber que, em algumas situações, o pressuposto não é tão óbvio e conhecê-lo nos auxilia a ter uma melhor compreensão do que está sendo realmente dito. É o caso do exemplo a seguir.

AS COBRAS/Luis Fernando Veríssimo

(Fonte: O Estado de S. Paulo) O primeiro quadrinho nos apresenta uma pergunta aparentemente simples: “Flecha, você é machista?”. Veja que nessa situação o pressuposto não é tão óbvio, pois tal pergunta

pode levar o leitor a entender que Shirlei tinha dúvidas quanto ao machismo de Flecha ou querer confirmar que Flecha era, de fato, machista. O curioso é que, no segundo quadrinho, a personagem afirma que não existe diferença entre os sexos para logo em seguida, no terceiro quadrinho, revelar que crer na superioridade masculina. Na expressão “Aliás, (pergunta) típica”, do terceiro quadrinho, “aliás” introduz uma retificação, fazendo com que o leitor perceba que a expressão “(pergunta) típica (de mulher) seja interpretada como contradizendo a opinião anterior de que não há diferença entre os sexos. Perceber o jogo de pressuposições existente na tirinha é necessário para a sua compreensão.

Agora passemos a analisar a ideia de implícito que também se apresenta nas situações argumentativas quando lidamos com uma informação que não foi dita, mas que se pode identificá-la. Em tais situações estamos diante de algo subentendido ou implícito. No dicionário Houais da Língua Portuguesa, implícito consiste em algo que está envolvido naquele contexto, mas não é revelado, é deixado subentendido, é apenas sugerido.

A compreensão de implícitos é essencial para se garantir um bom nível de leitura. Em várias ocasiões, aquilo que não é dito, mas apenas sugerido, importa muito mais do que aquilo que é dito abertamente. A incapacidade de compreensão dos implícitos faz com o leitor fique preso no nível literal do texto, aquele em que as palavras valem apenas pelo que são, não pelo que sugerem ou podem dar a entender.

Segundo Koch e Elias (2016), as relações entre informação explícita no texto e a informação inferível (aqueles conhecimentos que o produtor do texto pressupõe como compartilhados com seu interlocutor sem que esse tenha muitas dificuldades para acessá-los) estabelecem mediante estratégias de sinalização textual. É por meio de pistas textuais que o autor ao processar o texto, procura levar o leitor a ativar conhecimentos necessários à produção de inferências e sentidos. Vejamos, mais uma vez, uma tirinha humorística para exemplificar.

HELGA – DIK BROWNE

Observe a pergunta que a filha de Helga faz no primeiro quadrinho. Nele, a personagem faz uma pergunta, porque deseja saber qual o segredo para a felicidade no casamento. Ao ouvir que “case com um homem que não coma muito, não beba ou jogue, nem fique na rua até tarde da noite ou faça bagunça na casa, e terá um casamento perfeito”, a personagem Helga, a que fala no último quadrinho, parte do pressuposto de que só um homem morto não faz nenhuma dessas coisas, ficando implícito em sua fala que não existe casamento perfeito.

Pressupostos e implícitos são recursos frequentemente utilizados por autores no momento da elaboração de seus textos. Para garantir uma boa leitura, o leitor precisa estar atendo a situações em que apenas a apreensão do sentido literal não é o suficiente para a compreensão do texto.

Ao contrário das informações pressupostas, as informações implícitas não são marcadas no próprio enunciado, são apenas sugeridas, ou seja, podem ser entendidas como insinuações.

O uso de subentendidos faz com que o enunciador se esconda atrás de uma afirmação, pois não quer se comprometer com ela. Por isso, dizemos que os implícitos são de responsabilidade do receptor, enquanto os pressupostos são partilhados por enunciadores e receptores. Em nosso cotidiano, somos cercados por informações subentendidas, mas cabe ao receptor atentar para essas ideias que se encontram nas entre linhas do texto para que assim possa compreender o que foi dito, mesmo que não venha explícito.