Tipos Família
4. Pressupostos e Modelos de Institucionalização
A colocação institucional da criança ou do jovem deve obedecer a determinados pressupostos legais que legitimam e justificam a adoção desta medida: ser considerada uma criança em perigo ou ter cometido um facto qualificado pela lei penal como crime.
No entanto, quando se considera que uma criança ou jovem foi vítima de maus- tratos, pode aplicar-se, entre outras, a medida de promoção e proteção designada por acolhimento em instituição, que consiste (Lei de Proteção de Crianças e Jovens em Perigo, art. 49°):
“Na colocação da criança e/ou jovem aos cuidados de uma entidade que disponha de instalações e equipamento de acolhimento permanente e de uma equipa técnica que lhe garanta os cuidados adequados às suas necessidades e lhe proporcione condições que permitam a sua educação, bem-estar e desenvolvimento integral”.
Para isso é pertinente que a equipa técnica garante os cuidados adequados às necessidades das crianças e jovens na colocação de equipamento de acolhimento.
Como tal, a Comissão Nacional de Proteção de Crianças e Jovens em Risco, considera que o acolhimento institucional inclui (CNPCJR, 2000, p.21):
“A assunção das responsabilidades educativas (ao nível jurídico, moral, social e escolar) cometidas normativamente aos progenitores biológicos, por parte dos lares de crianças e/ou jovens que acolhem. Estas responsabilidades, implicando a substituição das famílias de origem, incluem o acompanhamento das crianças e dos jovens quer ao nível do seu desenvolvimento físico (alimentação, cuidados de saúde) quer ao nível psicológico (equilíbrio emocional, desenvolvimento cognitivo e afetivo), tendo em conta a adequação à sua idade, género de pertença, origens sociais, percursos de vida e caraterísticas de personalidade”.
Quando uma criança ou jovem cometeu um facto qualificado como crime, pode, entre outras, aplicar-se uma medida tutelar educativa designada de internamento, que tem como finalidade (art. °17, Lei n° 166/99):
“Proporcionar ao menor, por via de afastamento temporário
do seu meio habitual e da utilização de programas e métodos pedagógicos, a interiorização de valores conformes ao direito e a aquisição de recursos que lhe permitam, no futuro, conduzir a sua vida de modo social e juridicamente responsável”, “sem no entanto lhe retirar a sua qualidade de titular de direitos e deveres” (art.2°, n°1, RGDCE).
Para Mosteirin (2000), considera que os objetivos de uma instituição são “mandatos” sociais (e.g., atender a infância em risco). Estes mandatos correspondem à antecipação de um estado futuro desejável, para obtenção do qual se dirigem os meios e enunciam metas que a organização deve alcançar mediante ações planificadas dirigidas ao objetivo.
Acrescenta ainda que a diferença entre os agregados sociais tradicionais conhecidos como sociedade, comunidade ou família é que estes são, as organizações que produzem, ou seja, ao contrário de uma família, uma organização é feita para cumprir um propósito, é especializada numa tarefa e define-se pela sua especialidade. Para compararmos entre a função e razão de existência das organizações e dos especialistas é que “os especialistas sejam eficazes e as organizações sejam eficientes” Idem (2000). Todos os especialistas que são especializados nas áreas vertentes devem ser eficientes.
Para tal, a organização institucional deve ter uma missão clara e um propósito único, caso contrário os seus membros confundem-se e dedicam-se à sua especialidade, ditando os seus próprios valores à tarefa comum, avaliando os resultados apenas pela sua área de intervenção.
No que respeita às crianças e jovens, compete às instituições:
A prestação de cuidados. Parker (1998) considera que a convicção de que o contexto próprio para estes tipos de cuidados é a família, pois, para além da associação entre institucionalização e definição de objetivos instrumentais (escolarização, disciplina, etc.), as próprias dinâmicas institucionais, caraterização por várias crianças, cuidadas por vários adultos, não facilitam o estabelecimento de relações de proximidade afetiva.
Para Parker (1988), existem investigadores que consideram que a assunção das tarefas usualmente cometidas à responsabilidade parental é uma caraterística essencial destes serviços, designadamente, cuidar, confortar e conter, desenvolver competências físicas, sociais culturais e encorajar e preservar a integridade dos menores. Podemos mencionar, segundo os estudos de Casas (1993), Department of Health (1998) e Raymond (1996 e 1988):
A educação no sentido em que as crianças e jovens institucionalizadas tendem a manifestar dificuldades ao nível do desempenho escolar,
explicadas pelo meio de origem, pelas ruturas, mudanças sucessivas e traumas emocionais vividos, entre outros fatores;
A preservação da integridade e o desenvolvimento da identidade cultural, étnica, linguística e do património simbólico da criança, promoveu a reconstrução das suas perceções relativamente ao seu passado, à sua família, à sua personalidade e ao seu futuro, criando, deste modo, expetativas positivas em relação a si, aos outros e à vida. As memórias e as pessoas significativas são essenciais neste processo;
A preparação para a independência dos jovens, na qual o trabalho de apoio ao processo de saída e eventual retorno a casa da criança/adolescente se reveste de extrema importância;
A reinserção social dos adolescentes é resultado do trabalho institucional, apesar de não o ser único, pois, sendo a inadaptação o resultado da convergência de vários fatores, a readaptação na sociedade também dependerá de numerosos fatores, exigindo a colaboração de todos os que trabalham para a educação do jovem.
Em relação a estes objetivos referidos anteriormente, integram claramente uma dimensão de ação psicoterapêutica junto das crianças/jovens. Esta é, contudo, uma questão controversa. A crescente complexidade do perfil dos beneficiários destes serviços conduziu – sobretudo em países como o Reino Unido, a Dinamarca, a Alemanha, a Irlanda e Itália, quanto à criação de unidades especializadas para crianças e jovens com perturbações mentais – as instituições terapêuticas ou de tratamento.
Todavia, a maior parte destas instituições, apesar de integrar equipas profissionais especializadas para o efeito, não oferece respostas terapêuticas definidas e sistematicamente aplicadas, sendo a modificação do comportamento – objetivo mais ou menos explícito de grande parte das instituições que acolhem crianças – limitada às interações sociais ocorridas nos centros e à qualidade dos cuidados diários dispensados (Parker, 1998).
Estes centros têm sido objeto de extensas críticas, que contestam a validade das intervenções desenvolvidas em contexto artificial, argumentando a favor da intervenção no âmbito da família.
O tipo de trabalho que os profissionais de saúde mental infantil costumam desenvolver defronta, por outro lado, dificuldades acrescidas nas unidades residenciais, caraterizadas por sistemas complexos de comunicação e pela rotatividade dos responsáveis pela prestação dos cuidados às crianças (Martins, 2004).
Apesar destas dificuldades, no entender destes autores Calheiros, Fornelos e Dinis (1993), a colocação institucional tem uma dimensão educacional e terapêutica inerente. A orientação terapêutica é importante para a compreensão da experiência subjetiva das crianças face à separação, à rutura, à perda e à distorção que marcam as
suas trajetórias de vida, condicionando o sucesso da sua adaptação ao contexto residencial. Contende a estes estabelecimentos promover a experiência de acolhimento residencial como uma oportunidade positiva de desenvolvimento.
Nesta linha, Berger (1998) defende a internacionalização terapêutica da gestão do quotidiano da criança, numa intervenção concertada, coerente e contínua, das vertentes social, clínica, administrativa, educacional e pedagógica, que compreenda o acompanhamento da família no mesmo plano global de ação. Concetualizar a prestação de cuidados extrafamiliares a crianças e jovens – tenha como pressuposto a “proteção” ou a “educação para o direito” – envolve reconhecer que as suas necessidades e problemas não se resolvem pela mera transferência e colocação num contexto sócio relacional mais organizado.
Bullock, Little e Millham, (1993, cit. por Martins, 2004) notam que no que respeita aos modelos que enquadram as instituições que acolhem estas crianças e jovens, os serviços residenciais não têm sido objeto de teorização explícita, sendo as conceções subjacentes inferidas a partir das práticas adotadas. Como também Leandro (2002) considera que os serviços residenciais não têm modelos de funcionamento definidos, pelo que devem organizar a prestação dos seus serviços no quadro das disposições legais relevantes e dos conhecimentos científicos atuais, nomeadamente na área das ciências humanas. Assim, para Hill (2000, cit. por Martins, 2004), em contraponto, declara três modelos fundamentais ou perspetivas do funcionamento dos serviços residenciais:
a) Os modelos focados na instituição
Estes modelos assentam no pressuposto de que a modificação do comportamento e reestruturação das crianças, necessárias ao seu funcionamento adaptativo, decorrem das suas experiências relacionais com a equipa de profissionais e com os pares da instituição. O contexto exterior é apenas integrado na dinâmica interna do centro, competindo à instituição capacitar a criança para lidar com as exigências colocadas pelo meio.
b) Os modelos focados na perspetiva das crianças/jovens acolhidos
Estes modelos focados podem conciliar-se com o modelo anterior, porém, procuram situar a criança no seu contexto temporal e sociocultural mais amplo, analisando o seu funcionamento e desenvolvimento em vários domínios. A família é objeto de atenção, na medida em que contribui para a definição da criança ao longo do seu ciclo de vida. Entende-se que as decisões sobre a colocação da criança ou do jovem devem obedecer a uma perspetiva longitudinal, tendo em consideração o seu historial de perdas, mudanças e separações, os seus sucessos e dificuldades e as suas possibilidades futuras.
c) Os modelos sistémicos
Assentam no pressuposto de que os serviços residenciais constituem uma das respostas sociais do sistema de proteção infantil, que, em última análise, os delimita e configura.
Deste modo, vários fatores influenciam o funcionamento das instituições que acolhem crianças e jovens, (Ainsworth & Fulcher, 1981, cit. por Martins, 2004):
As políticas sociais;
A localização e arquitetura do centro; Clima social;
Relações com a família, a escola e a comunidade; Critérios de avaliação do desempenho;
Determinações teóricas e ideológicas; Custos do serviço prestado;
Dinâmicas organizacionais exteriores ao centro.
Por conseguinte, a eficiência da instituição articula-se e é interdependente dos sistemas mais vastos na qual se integra e com os quais interage.
Considera-se, assim, a história de vida da criança, integrada nos diversos sistemas, designadamente, o meio familiar, social e cultural, a instituição que a acolhe, unificada na diversidade de recursos de que dispõe e nos sistemas na qual se integra e a própria sociedade, tendo presente a complexa interação de fatores nos diferentes níveis de análise, numa determinada sociedade, num determinado tempo e numa determinada relação.