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Pressupostos em que assentam os trabalhos propostos

No documento A luz como material plástico (páginas 148-152)

5.Propostas de Objectos Criativos

5.1 Pressupostos em que assentam os trabalhos propostos

«No silêncio dos jardins tradicionais japoneses, somos surpreendidos, de quinze em quinze minutos, por uma pancada sonora, como o som feito por dois blocos de madeira que batem um no outro. Tal som é provocado pelo sozu, que consiste num grosso tubo de bambu, fechado numa extremidade e equilibrado em duas hastes de modo a que possa mover-se. (…) Os budistas zen, afirmam que os suzu ou shishi-o-doshi foram introduzidos por Rikkyu, primeiro mentor zen, há cerca de seiscentos anos, “a fim de emitir uma ‘pancada’ súbita algumas vezes durante cada hora para que se pudesse ouvir mais nitidamente o silêncio”».119

De uma maneira geral, não costumamos ver a luz, utilizamo-la para ver e muitas vezes até nos esquecemos da sua presença, de tal maneira vivemos imersos nela.

Nas propostas que vão ser aqui apresentadas, pretende-se mostrar um percurso da luz, desde a sua função servil de “iluminar a observação”, até ao seu protagonismo de principal elemento plástico da obra.

Segundo Umberto Eco120, a Optical Art é aberta num sentido duplo, em que a abertura de 1º grau – comum a toda a obra, é ocasionada pela ambiguidade e o

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Papanek, Victor, Arquitectura e Design, Ecologia e Ética, Edições 70, 1997.

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polissentido; pela possibilidade de ser interpretada de diferentes modos numa série virtual, quase infinita de leituras históricas.

Mas, enquanto a obra clássica se organizava de um modo definitivo e concluso, a moderna, sobretudo desde a Optical Art, não é uma forma acabada de um modo unívoco, mas oferece a “possibilidade de várias organizações confiadas à iniciativa do espectador”. Nisto consiste a “abertura de 2º grau”. A obra como processo aberto, permite individualizar novos perfis e possibilidades de forma, determinando a instabilidade e desaparecimento de tema único.

A obra óptica encontra-se no ponto de intersecção entre as duas aberturas. Ainda que imóvel, acabada, os efeitos ópticos permitem diferentes leituras perceptivas, abandonadas à iniciativa do espectador. A provocação visual é decisiva perante o espectador, porque lhe exige uma “participação activa”, seja mudando a sua posição ou manipulando a obra. O espectador dispõe ante si de um estímulo visual, da obra, cujas modalidades existenciais dependerão: “do interesse, atenção e tempo que lhes dedique”.

Portanto, o espectador torna-se num observador, participando activamente na formação da obra.

O “minimalismo” insinuava a 2ª abertura trazendo-a para o processo da concepção. O observador é forçado a dirigir a sua reflexão a “realidades extraartísticas” e a obra nega o prazer acostumado de uma estrutura imanente, satisfeita em si mesma.

O artista apresenta nas obras uma imagem parcial de uma ordem e deixa ao observador a tarefa de a completar. As formas penetram no espaço circundante, convidam o observador (sobretudo as estruturas de repetição) a confrontar a sua implicação de movimento e desenvolvimento por meios visuais. Possibilita-se assim uma continuação virtual.

A obra começa a insinuar um mero carácter instrumental que serve para activar o observador; ecoando assim um novo género de arte “conceptual”: produz-se uma desmaterialização da arte como objecto, a favor das fases da sua constituição121.

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Com a arte minimal, a intrusão das formas no espaço circundante, a relação objecto – sujeito, obra de arte – observador, através do espaço que os separa, levam à preocupação do contexto, em que se situam a obra de arte, e o observador.

Muitas das “Estruturas Primárias” ou “Objectos Específicos” da arte minimal, foram concebidas para envolver o observador, convidado a entrar ou a passear dentro delas.

É esta função de articular o espaço que distingue as “Estruturas Primárias” de toda a escultura anterior e as relaciona com a arquitectura. Por vezes é a escultura que invade o espaço do observador, outras é o observador que é introduzido no espaço escultórico.

A utilização artística da óptica e luz laser, nestes casos que vão ser apresentados, permitiu a construção de “Objectos Específicos de Luz”, propostos como artísticos, que se completam com a presença do observador.

São colocados num espaço com um percurso definido. Nos objectos encontram-se situações de luz, que o observador é convidado a explorar. A experiência neles, encaminha no sentido da confirmação da luz, como o material plástico essencial, nestes casos, fazendo secundarizar os aspectos escultórico e de instalação, dos referidos objectos.

O deslocamento dessa plasticidade é um elemento constitutivo na sua relação com o observador, e por isso, é fundamental que as pessoas estejam nos sítios e se disponham a “experiênciar” o que lá se apresenta. São propostas para serem vivenciadas.

Pretende-se que cada um consciencialize a sua implicação, ao tornar-se observador, na intimidade física com as peças.

A luz ao longo do “percurso proposto” vai-se tornando, de maneira cada vez mais evidente, o material plástico essencial, porque se implica em situações progressivamente encaminhadoras para o simples e absoluto da sua essência lumínica, abandonando posturas mais clássicas dos conceitos ligados ao objecto e à forma.

Muitos artistas trataram de induzir a sensação de ver o efeito da luz na atmosfera, existe uma tradição rica em pinturas de obras sobre a luz, mas isso é o registo da visão, e não a luz em si mesma.

Noutros trabalhos de artistas, como Mark Rothko ou Barnett Newman, a luz parece sair das suas pinturas. Em trabalhos meus, anteriores a esta tese, realizados com tintas acrílicas sobre tela, a minha investigação também era no sentido de sugerir que “a luz saísse deles”, pretendia “agarrar” a luz, por isso delineou-se-me como um percurso natural a adopção da luz como material plástico.

A adopção da luz como material plástico requeria o desenvolvimento de determinados modos de realização. Foi peciso desenvolver instrumentos que permitissem controlar a luz, colocá-la em espaços fechados, limitá-la na sua intensidade, combiná-la na proporção adequada, deixando progressivamente de acentuar a percepção dos diferentes “habitáculos” em relação à percepção da luz.

Neste trabalho pretende-se materializar a luz nos seus aspectos físicos, de modo a ser fruída como tal.

A luz é o principal elemento plástico deste estudo, porque cria as situações. Está sempre presente, quer seja na feitura das peças, quando se utiliza (projecção em espelhos, projecção vídeo, projecção laser ou hologramas, por sua vez produzidos com luz), quer quando se vê. Utiliza-se também o som, como auxiliar de cada situação de luz que se propõe.

Os objectos que constituem este estudo intitulam-se respectivamente: “Entre duas imagens”, “Espreitar duas vezes”, “Observador observado”, “Observador como elemento estético”, “Observador cinestésico” e “Observador incorporado”.

Pretende-se envolver o observador física e psicologicamente, enfatizando a privacidade do acto da percepção. Este, por sua vez, poder-se-á aperceber da especificidade do seu acto perceptivo, e compreender que a visão se encontra condicionada pelos limites, tanto apreendidos como físicos, da percepção.

No documento A luz como material plástico (páginas 148-152)