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Pressupostos teóricos e perspetivas analíticas

Canta-me uma cantiguinha, Não digas que não sabes.

(Viana, op.cit.11). Sendo este trabalho uma continuação da investigação desenvolvida durante o Mestrado, naturalmente algumas fontes bibliográficas serão as mesmas. Citaremos, nomeadamente, Viegas Guerreiro (1978;1992), Vuk Karadžić (2006), Aleksandar Fotić (2005). Os nossos conhecimentos serão aprofundados através da leitura das obras de autores portugueses e sérvios especializados na área como Leite de Vasconcellos (1890), Teófilo Braga (1902), Vojislav Jovanović (1922) entre outros. Recorreremo a autores conceituados de várias disciplinas: Jacques Le Goff (1987), Margaret Labarge (1986), José Mattoso (1992). Relativamente a obras sobre os com os motivos a analisar, consultamos Umberto Eco (2004) ou C. S. Lewis (1985). Nesta análise, serão inevitáveis obras de literatura comparada da autoria de Helena Carvalhão Buescu (1998), Claudio Guillén (1985) e outros.

Embora a poesia popular lírica de temática amorosa tenha sido muito estudada nos dois países em questão, nomeadamente por Leite de Vasconcellos (1890) Jaime Cortesão (1914), Vuk Karadžić (2006), Nada Milošević-Đorđević (2006), este estudo é inovador por ser o primeiro a observar esta temática do ponto de vista comparatista, introduzindo novas perspetivas e formas de ver a problemática.

A beleza nunca é apenas física, compreendendo também virtude, juventude, saúde, forma de andar, gesticular, comportar-se em determinadas situações. Embora o aspeto físico não seja o fator principal no surgimento do amor, as duas culturas apreciam-no no âmbito de uma imagem mais geral da pessoa amada. Identificaremos alguns estereótipos universais relativos à beleza (“cabelos doirados”, “pé pequenino”), distinguindo-os dos padrões locais e específicos de uma comunidade (a altura, a não- apreciação dos cabelos ruivos).

No que se refere ao amor, será inevitável discutir as ideias de alma portuguesa, presentes em Teixeira Pascoaes (2007) e alma eslava, defendidos por Marić (1998). Veremos até que ponto estas ideias hoje em dia são ultrapassadas ou ainda persistem nos imaginários populares português e sérvio, e de que forma isso se reflete na poesia lírica amorosa. Outro tópico imprescindível será a análise do

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termo saudade, e a (im)possibilidade de tradução deste conceito e palavra. No âmbito de beleza e amor, verificaremos o significado e carga simbólica deste sentimento na poesia. Pretendemos demonstrar a equivalência linguística e concetual da palavra sérvia čežnja e o seu peso no espaço cultural sérvio.

Ao definirmos os corpora deste trabalho, não nos mantivemos rigorosamente no domínio dos poemas amorosos, podendo os motivos de beleza e amor encontrar-se também noutros tipos de cantigas, nomeadamente nas cantigas ao desafio, de despique, de trabalho, ou até nas cantigas de caráter mitológico e religioso. Estes grupos de poemas são estudados para darmos uma visão o mais completa possível dos fenómenos de beleza e amor. Na seguinte cantiga amorosa portuguesa (in: Braga, op.cit.26), o sol que promete à lua “uma fita de mil cores”,serve apenas para reforçar a ideia de “que fará quem tem amores?”, (idem).

No cancioneiro popular sérvio, por sua vez, existem fadas que casam os filhos, o Sol que deseja desposar uma estrela, e outros motivos “verdadeiramente” mitológicos, para se defender a ideia da universalidade do sentimento amoroso e do direito de todas as criações no mundo a amar e ser amadas. O papel de Deus, Virgem Maria, santos populares e destino no universo dos afetos serádiscutido mais adiante, por influenciar a mundividência das comunidades culturais em questão.

Enquanto a tradição popular portuguesa apresenta Santo António como “santo casamenteiro”, que “inscreve as moças no livro do matrimónio” e São João como “santo namoradeiro,” que “todo se mata” quando as meninas não vão à sua fonte de prata, veremos que na Igreja ortodoxa não existe nenhum santo particular que interfere na esfera afetiva, sendo esse assunto confiado diretamente a Deus. Porém, na religiosidade popular portuguesa e sérvia, persistem muitas crenças em forças superiores, união do homem com todo o universo, ou poder das flores na “magia amorosa”.

Inserindo estas duas variantes de mundividência religiosa no contexto de beleza e amor, observaremos a relação destes motivos com a virtude e pecado. A Igreja, nas sociedades portuguesa e sérvia, censurava relacionamentos entre representantes de diferentes religiões (sobretudo a cristã e a muçulmana), considerando-os pecaminosos e prejudiciais para as almas cristãs. Estes amores eram abençoados apenas se a parte muçulmana aceitava a verdade da fé cristã. Nas cantigas, são inúmeros exemplos de amores trágicos ou contrariados por causa da diferença religiosa, como também são elogiados os jovens que rejeitam o amor dada a firmeza das convicções e a fé, o que posteriormente será observado com mais atenção.

A posição da Igreja relativamente à beleza e ao amor aparenta ser rigorosa, para, na verdade, aprovar e ser benevolente com estes fenómenos. Desta forma, a sabedoria popular sérvia afirma ser

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pior separar dois namorados que destruir um mosteiro, e nas cantigas portuguesas, vemos um confessor rigoroso que “condena” uma menina a (in: Braga, op.cit.) “trinta dias de cadeia” nos braços do seu amado.

Apesar frequente representação da natureza como um locus amoenus poético, ela nunca é neutra perante as manifestações de beleza ou do sentimento amoroso. As partes do corpo, nos dois imaginários populares, podem ser representadas como elementos de flora e fauna, deste modo, o peito feminino nas duas culturas é visto como “duas pombinhas”, os dentes são identificáveis com pérolas, os braços com lírios ou videiras finas. Na problemática amorosa, a natureza é testemunha, amiga e cúmplice dos apaixonados, por vezes também traidora: o vento, o luar, as estrelas ou flores podem delatar uma paixão escondida. A natureza ouve as confissões dos enamorados, consola-os, personifica- se para responder às suas perguntas ou queixas, acompanhando a tristeza dos namorados, transformada em locus horrendus (lugar horrível).

Como já foi referido, o conceito de beleza nas culturas em questão, nunca se reduz a características físicas. Para acompanhar a beleza, as duas tradições populares têm em conta o modo de andar, falar, gesticular, comportar-se em determinadas circunstâncias. Embora as aparências possam iludir, como o insinua o provérbio português, nos poemas populares as imagens são usadas para se descrever a admiração pela pessoa amada (olhos, boca, cabelos, sobrancelhas, pestanas, cor do rosto, elegância do corpo). As duas tradições não deixam de sublinhar que a higiene e alguns cuidados (adornos, fitas, flores no cabelo, joias) são necessários para completar a ideia de beleza, sendo inevitáveis os lugares-comuns, em grande medida semelhantes, nos dois espaços culturais.

O motivo de amor será abordado de várias perspetivas: do platónico, ao contrariado, o primeiro, a ausência da pessoa amada e as saudades, os ciúmes, os arrufos, as zangas de namorados, as cartas de amor, o amor feliz, a dor amorosa, a tristeza, a morte do amado, a paixão e o desejo e, por último, amor e casamento. Dispensaremos, neste momento, o amor maternal e filial, o amor por Deus ou pelo mundo para não nos alargarmos demasiado nesta temática.

Consideramos pertinente focar aspetos de linguagem, nomeadamente os recursos estilísticos: comparação, metáfora, gradação ou hipérbole, completando as ideias sobre a beleza e o sentimento amoroso.

Relativamente ao uso de provérbios no cancioneiro popular português, deveremos mencionar que eles fazem parte integrante das quadras. No caso da poesia sérvia, é possível encontrar ditados populares nos títulos, e sobretudo nas coletâneas editadas por Vuk Karadžić. Daqui, concluímos que o

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provérbio ligado a uma determinada cantiga inicialmente não fazia parte dela, sendo acrescentado pelo compilador consoante o conteúdo do poema.

As formas de tratamento (diminutivos, nomes carinhosos e palavras para designar beleza e amor) serão motivos de uma atenção mais concentrada como reflexos de aspetos culturais e sociais. Enquanto na lírica galaico-portuguesa a pessoa amada é quase sempre apostrofada como “amigo”, a poesia popular tem formas de “neutralizar” as referências ao sentimento amoroso. Isto deve-se, provavelmente, a condicionamentos impostos pela sociedade patriarcal e regras da moralidade pública.

Devido a distintos tipos de “censura”, nomeadamente a religiosa, a familiar a social, e a pessoal (no caso de timidez ou desejo de preservar a privacidade), a linguagem da poesia popular também modifica o campo semântico nitidamente amoroso, transformando as formas de tratamento em “meu bem”, “meu benzinho”, “minha beleza”, “minha menina”… Em alguns casos. na poesia portuguesa, a palavra “namorado” é substituída por “conversado”. Em primeiro lugar, o facto de dois jovens apenas conversarem, não deveria despertar atenção nem excessiva curiosidade de outras pessoas. Salienta-se a palavra “conversar” por se pretender transmitir a mensagem de que os namorados devem conhecer-se bem, trocar opiniões e ideias antes de casarem, para estarem seguros da sua escolha. Leite de Vasconcellos (1883) sublinha que a palavra “conversados” como sinónima de “namorados” é muito característica das cantigas recolhidas na zona da Madeira. Esta pode ser uma especificidade das ilhas, como um espaço mais fechado, em que a privacidade é muito respeitada. No arquipélago açoriano também se notam algumas características particulares da poesia lírica popular. Trata-se, nomeadamente, das formas de tratamento e comunicação com a pessoa amada, que exigem um determinado grau de formalidade, distanciamento e respeito ao mesmo tempo. Uma destas formas é o pronome da segunda pessoa do plural “vós”, usada muitas vezes em vez do pronome “tu”.

No caso sérvio, uma menina dirige-se ao seu namorado com palavras “olhar primeiro”, em vez de “amor primeiro”. Nesta situação, pode pensar-se no amor à primeira vista, ou no facto de uma pessoa poder apaixonar-se por outra graças àquilo que vê. Mais uma vez verifica-se a interdependência dos motivos de beleza e amor, que será analisada mais adiante nas formas de tratamento dragi e draga literalmente traduzidos por “querido/a”. Porém, devido a uma certa conotação banal destas palavras no contexto português, optamos por usar “amado/a”. A terceira forma carinhosa entre namorados é moje drago, intraduzível corretamente para português devido à ausência do género neutro nesta língua. Utilizando o neutro, atribui-se um sentido mais geral e, por sua vez, mais carinhoso, já que o neutro é usado também para crianças e crias dos animais, inspiradoras de ternura. Por vezes, é usada a palavra

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turca dilber, que significa “querido”, podendo indicar a localidade em que a cantiga surgiu. Outras formas carinhosas usadas na poesia popular sérvia são dobro moje (meu bem), srce i dušo (“coração e alma”, usados, nesta situação, no caso vocativo que serve para apostrofar as pessoas ou coisas). Para a esposa ou amada, a linguagem popular reserva as designações ljuba ou ljubovca. O segundo termo é muito mais frequente na poesia épica, e o primeiro na lírica. Estes substantivos são derivados de ljubav (amor). Devemos salientar ainda que nas línguas eslavas, e entre elas a sérvia, o substantivo “amor” é do género feminino. Pode tratar-se de uma mera coincidência, podendo por seu turno. revelar pistas importantes a visão do amor no universo eslavo. Sendo este sentimento composto por ternura, carinho, paciência, um pouco de “loucura”, sedução, fatalidade e por vezes inconstância, justifica-se facilmente porque é que cabe dentro da categoria do género feminino.

A necessidade de proteger a privacidade surge especialmente no meio pequeno, rural, em que todas as pessoas se conhecem. Um outro “perigo” para as relações amorosas são os pais e familiares dos namorados, perante os quais parece melhor não revelar a identidade da pessoa amada.

Os nomes próprios dos protagonistas, quando mencionados, são muito comuns nas duas culturas, o que na realidade pode entender-se como um estratagema para esconder o nome do amado/a. O significado dos nomes pode ser simbólico: se o protagonista de um poema popular português se chama António, é muito provável que seja invocado Santo António para ajudar a rapariga apaixonada no seu relacionamento.

Na tradição popular sérvia, Milica deve ser querida (como indica a raiz do nome, o adjetivo mila, significando “querida”). Anđa ou Anđelija deve possuir características de um anjo. Alguns nomes são dados apenas por motivos da rima, (“João do meu coração”) ou identificam pertenças culturais (étnicas ou religiosas). Desta forma, quando a bela Mara (variante de Marija) escreve ao Ali-Paxá, (no poema “Ali-Paxá em Herzegovina”, in: Milošević-Đorđević, 2006:174), está-nos mais do que claro que ela é sérvia e cristã ortodoxa, e ele turco e muçulmano, implicando divergências culturais e um amor impossível

Quando Mehmed-agá e Fata menina (variante de Fátima, nome no imaginário popular sérvio sempre estreitamente ligado apenas ao islão), dormem juntos debaixo de uma amendoeira, (no poema “A cabeceira mais bonita” da antologia de Karadžić) tem-se a ideia de um teor exótico e oriental de uma história de amor feliz. Quando nos é apresentado o nome completo, não necessariamente identifica uma pessoa concreta, sendo frequente na sua comunidade. Deste modo, em José Leite de Vasconcellos

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(1975) apresenta-se-nos um “senhor Francisco Fernandes,” e em Abel Viana (1956) duas cantigas referem um certo José Marques.

A atribuição de nomes significativos a personagens da literatura popular é mais visível nos contos, porque, nesse contexto, parece natural um rapaz de enorme força física chamar-se “Arrasa- Montanhas” ou “Come-Bois”, uma rapariga “Bela Menina”, salientando o seu visual atraente, ou “Preguiçosa” ou ainda “Faladeira”, caso se pretendam sublinhar determinados traços de caráter. A poesia popular não opta por estas soluções, limitando-se aos nomes reais existentes nas duas tradições, interpretando-os de acordo com a etimologia.

Um dos pontos relevantes do nosso trabalho será analisar o papel da família na escolha e aprovação dos esposos/as dos filhos. Pela bibliografia consultada até agora, parece-nos que a poesia popular portuguesa dá mais liberdade à rapariga para escolher o futuro esposo, enquanto no espaço cultural balcânico essa escolha, à primeira vista, é mais difícil, contudo, não absolutamente impossível. O rigor dos pais nas duas culturas pode ser uma imagem dissimulada, acentuando apenas a livre vontade e a força dos sentimentos dos namorados. As medidas disciplinares violentas não funcionam o suficientemente bem para afastar os apaixonados, resultando a cantiga num desfecho feliz.

Nos amores correspondidos, a opinião dos pais serve de bênção e aprovação. Por vezes, o consentimento esconde-se detrás das palavras de sentido contrário, apenas para pòr á prrova a reação dos namorados. Num poema português, o pretendente da rapariga falou com o pai dela sem a ter consultado, sabendo da vontade do “rigoroso pai”, seu amigo, que iria “ordenar“ o encontro (in: Leite de Vasconcellos op.cit.100):

Ó, Ana, vem-te comigo, Pede licença ao teu pai, Que o teu pai é meu amigo Logo diz: Ó, Ana, vai!

Na cantiga sérvia “Maldição após maldição“ (Kletva za kletvom, in: Đurić, op.cit.107), a rapariga supostamente amaldiçoa o pastor que lhe tinha roubado a camisa, desejando-lhe apenas prosperidade e bem. Em resposta, ouve outra “maldição“ por parte da futura sogra, que lhe deseja que venha viver em sua casa e que tenha um filho.

Após a menção de alguns pressupostos teóricos gerais, vale abordar questões práticas mais pormenorizadas relativas a este trabalho, o que se fará na seguinte secção.

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