NOMEAR E RENOMEAR 1
1. PRESSUPOSTOS TEÓRICOS
Pelo ato de nomear, constroem-se legados e histórias, de modo que a memória social de uma comunidade é perpetuada. No campo da Onomástica, nos estudos da Toponímia, faz-se possível conhecer, pelo levantamento e análise dos topônimos, como a cultura influencia a to-ponímia de determinada região. Para Duranti (2000), o estudo da língua, quando inserido no universo cultural, abarca o amplo campo da
antropo-logia, uma vez que a linguagem é examinada pelo prisma dos interesses desta ciência, que abarca a reprodução e a transmissão da cultura, bem como sua relação com diferentes formas de organização social.
Em Sapir (1969), como defendido também por Dick em diversos de seus estudos (1990a; 1990b; 1998; 1999; 2004), tem-se que essa relação do homem com seu ambiente, cultura e língua apresenta-se como rico repositório no qual se descortina, muitas vezes, a própria panorâmica re-gional, em seus diversos aspectos; o estudo antropológico da língua con-duz ao estudo da cultura e da sua relação com questões linguísticas. Sobre a mesma temática, Seabra (2004, p. 29) postula que,
[...] considerando a dimensão social da língua, pode-mos ver, no léxico, o patrimônio cultural de uma co-munidade. Transmitidos de geração em geração como signos operacionais, é através dos nomes que o ho-mem exerce sua capacidade de exprimir sentimentos e ideias, de cristalizar conceitos. Assim, o patrimônio lexical de uma língua constitui um arquivo que arma-zena e acumula as aquisições culturais representativas de uma sociedade, refletindo reflexões e experiências multisseculares de um povo, podendo, por isso, ser considerada como testemunho de uma época.
Os estudos toponímicos têm como foco, ademais, a motivação dos nomes, que pode estar relacionada a aspectos antropolinguísticos, geo--históricos ou socioeconômicos. Segundo Dick (1998), a análise toponí-mica deve levar em conta diversas particularidades, como as mudanças dos nomes, sua evolução fonética e os inúmeros tipos de alterações pelas quais passa. Para o desenvolvimento da investigação cujos resultados são aqui apresentados, tomou-se como base a perspectiva diacrônica, par-tindo do presente, na observação do nome, voltando ao passado, para buscar sua motivação e voltando ao presente novamente, para verifi-car como os atuais frequentadores/moradores veem o local nomeado e como com ele se relacionam.
Dauzat (1926) considera que a pesquisa etimológica sobre o nome de determinado lugar não deve ser feita apenas levando-se em conside-ração a sua forma atual, pois é necessário voltar ao passado e estabelecer relações com as várias formas até encontrar a mais antiga a que se tem menção. Além disso, o autor acredita que as diferentes formas do nome permitirão ao pesquisador rastrear as alterações que, frequentemente, ocorrem ao longo dos anos.
No desenvolvimento deste estudo, considerou-se ainda a questão da motivação toponímica, tendo como principal característica os tra-ços semânticos, baseando-se em Dick (1990b) e em Souza (2007). Dick (1990b) explicita que o elemento linguístico, na nomeação, de comum passa a ter função identificadora de lugares, integrando um processo in-dissociável de motivação. Para essa autora, embora existam várias teorias que procurem estabelecer e/ou fixar a natureza dos motivos, esses, são, de modo geral, influenciados por fatores biológicos, sociológicos, psíquicos, sobrenaturais e racionais; parece existir um consenso a respeito da subs-tância motivadora desses elementos.
Por seu turno, Souza (2007) defende que a motivação apresenta duplo aspecto, sendo o primeiro relativo à intenção do denominador na escolha do nome, influenciado por fatores objetivos e subjetivos e, num segundo aspecto, há de se considerar que a nomeação pode estar rela-cionada à etimologia das palavras, às questões semânticas relarela-cionadas ao termo, revelando, assim, transparência ou opacidade, o que dificulta a identificação de sua origem. Por isso, o estudo toponímico reveste-se de grande valia para a recuperação de diversos fenômenos relacionados à língua de uma comunidade e ao seu lugar de ocupação.
1.1 A toponímia paralela
A toponímia paralela, como o próprio nome indica, é a designação atribuída a um topônimo que “caminha” ao lado dos nomes oficiais dos acidentes. Segundo Vieira (2000), muitas vezes as denominações parale-las, ou não oficiais, estão presentes apenas no cotidiano popular, sendo ig-noradas pela administração pública. Por esse motivo, os nomes paralelos sofrem ameaça constante de desaparecimento, caso caiam em desuso. São muitas as razões para que isso aconteça, como o distanciamento temporal dos fatos que podem ter gerado a motivação do signo toponímico, uma vez que permanecem apenas na memória de alguns usuários.
Ainda para Vieira (2000), no nome não oficial, ou seja, nos casos de toponímia paralela, pode ocorrer um fenômeno capaz de “padronizar”
um comportamento linguístico social, mesmo que sem intenção. Além disso, nem sempre haverá a completa transparência de alguns topônimos paralelos pelo fato de atenderem um grupo específico de usuários. “Os topônimos paralelos, portanto, necessitam de registro [...] por trazerem em suas formas, inúmeras vezes, evidências claras do cotidiano, tornan-do-se valiosos fundos de memória social” (VIEIRA, 2000, p. 02).
O estudo no qual se pauta este trabalho não teve como objetivo a classificação de cada topônimo paralelo, segundo o faz Vieira (2000).
O corpus, na pesquisa aqui exposta, se compôs de um conjunto restrito de topônimos e a proposição foi catalogar os nomes oficiais desse corpus, bem como os seus paralelos e ainda observar a existência e a espontanei-dade desses junto aos usuários. Busca-se ainda propor uma diferenciação entre a adoção de nomes de forma oficial e formal pela administração pú-blica e por outros órgãos, como a imprensa e outros tipos de pupú-blicações.
Nesta investigação, considerou-se como oficial o uso dos nomes dentro das publicações feitas pela Prefeitura Municipal, que é a representante legal dos documentos no município, nas áreas pesquisadas; já como não oficial definiu-se o uso dos nomes em documentos impressos oriundos de
outros órgãos, como listas telefônicas, notícias, entre outros; documentos aos quais se atribuiu a denominação de formal, neste trabalho.
Foram observados, conforme postulam Faria, Nascimento e Nas-cimento (2008), os aspectos mais gerais do topônimo paralelo, listados a seguir: a) sua existência não oficial; b) seu caráter espontâneo; c) sua fácil aceitação e, d) o fato de o nome paralelo ter seu uso mais restrito do que o topônimo oficial. No caso específico deste trabalho, observou-se a ocor-rência e o uso oficial ou não oficial dos nomes, bem como o uso formal, conforme já postulado. Têm-se, como base de análise, os dados oferecidos pelos entrevistados, apresentados na próxima sessão, acerca de cada um dos topônimos examinados, além de outros documentos.
Não se pode deixar de observar ainda que este estudo busca rela-cionar os nomes estudados à cultura, à história e à memória do município, pois, “[...] tanto na Toponímia como na Antroponímia, melhor dizendo, na Onomástica em geral, ocorrem os interditos de marcas, cujas causas originam-se nos próprios costumes e hábitos do grupo, definidores da macrovisão de sua cultura” (DICK, 1998, p. 99).