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3. DO REQUERIMENTO ADMINISTRATIVO

3.3 PRETENSÃO E LIDE

O homem necessita possuir meios que garantam a sua sobrevivência, principalmente, quando habita em uma civilização. Neste ínterim, fez-se necessário que aprendesse a lutar para garantir a continuidade do que já possui ou para conquistar aquilo que almeja. Ocorre que por não viver sozinho, compartilha o espaço entre outros homens que possuem natureza e necessidades semelhantes, tornando o ambiente competitivo.

Essas circunstâncias são comparáveis a um percurso em que dois sujeitos em lados opostos tentam atravessar uma ponte estreita, cedo ou tarde ambos se encontrarão, certamente uma colisão ocorrerá e do resultado do choque a controvérsia. Cada um impregnará forças para vencer a barreira e alcançar o outro lado da ponte.

Inevitavelmente, a convivência em sociedade gera a existência de conflitos, em virtude da convergência de anseios em ser, ter ou possuir algo e por consequência a divergências de pretensões. Neste sentido, faz-se necessário compreender inicialmente o fundamento jurídico da pretensão.

Pretensão é a faculdade que possui o sujeito de direito de exigir, através da jurisdição, que outrem, positiva ou negativamente, satisfaça seu interesse ou cumpra uma obrigação. Conforme alude Miranda (1998, p. 49-50):

As pretensões contêm exigibilidade (...) Se ainda é exigível a prestação, ou a satisfa- ção do direito, sem já se ter ação, ainda há pretensão: porque, se bem que possam ser separadas as exigibilidades, elas compõem a pretensão, e, enquanto há uma, há pre- tensão. Não há exigibilidade sem pretensão. Há direitos sem pretensão porque há di- reitos que não podem ser exigidos. Há direito só sem ação porque há direitos que somente podem ser exigidos fora da ação. Há direitos que somente podem ser exigi- dos pela ação: a pretensão deles e, pois, eles mesmos, em sua eficácia, foram canali- zados.

Desta forma, o doutrinador ora citado traz uma relevante relação entre a exigibilidade e a pretensão. A exigibilidade como um fator intrínseco da pretensão, por conseguinte, se há um, há o outro. Entrementes, mesma semelhança não pode ser constatada entre as pretensões, o direito e a ação.

Calha a transcrição do entendimento de Miranda (1998, p. 49-50):

Se o direito subjetivo tende à prestação, surgem a pretensão e a ação. A ação, que supõe haver-se transgredido a norma, constitui outro plus e tende, não à prestação, mas a efeito jurídico específico. O credor tem direito subjetivo ao que se lhe atribui: tem-no, desde que a relação nasceu. A exigibilidade faz-lhe a pretensão. Se o deve- dor não paga como e quando deve pagar, cabe-lhe então a ação. Não se diga que a coação caracterize os dois, a ação e o direito subjetivo; porque o que existe de coati- vo no direito é comum ao direito objetivo não-subjetivado e aos direitos subjetivos.

Como se vê a exigibilidade é uma característica marcante da pretensão que tem origem desde a ameaça ou ofensa do direito. Corroborando a tese e acrescentando o fator da subordi- nação de um interesse de um sujeito por o do outro, assevera Santos (2010, p. 09):

Entretanto, ocorre comumente que as partes conflitantes não acomodam espontane- amente seus interesses, na conformidade da sua regulamentação jurídica. Ou, mais precisamente, o conflito pode dar lugar à manifestação da vontade de um dos sujei- tos, de exigir a subordinação do interesse do outro ao próprio. A essa atitude da von- tade dá-se o nome de pretensão. Pretensão é, pois, a exigência da subordinação de um interesse de outrem ao próprio.

Constituída a pretensão um sujeito pode exigir do outro a satisfação do seu interesse, daí dois resultados podem ser alcançados. O primeiro seria a concordância, ou seja, a confor- mação com o exigido, o conflito seria solucionado pelo meio pacífico, na via extrajudicial. Já no segundo dar-se-ia início a uma nova dinâmica, uma vez que a pretensão exigida por um dos sujeitos não é aceita, sofre resistência (Santos, 2010).

A lide caracteriza-se, justamente, pela formação de uma pretensão resistida, onde um sujeito tem o escopo de submeter o outro ao seu crivo. Notadamente, neste momento, faz-se necessário o desenvolvimento do exercício da jurisdição a fim de solucionar o conflito con- forme a vontade da lei.

Assim aduz Kelsen (2005, p. 391):

A função judiciária consiste, essencialmente, em dois atos. Em cada caso concreto, 1) o tribunal estabelece a presença de um fato qualificado como delito civil ou cri- minal por uma norma geral a ser aplicada ao caso dado; 2) o tribunal ordena uma

O processo judiciário geralmente tem a forma de controvérsia entre duas partes. Uma parte afirma que a lei foi violada pela outra parte, ou que a outra parte é res- ponsável por uma violação da lei cometida por outro individuo, e a outra parte nega que seja esse o caso. A decisão judiciária é a decisão de uma controvérsia.

A lide, portanto, será submetida à apreciação dos órgãos do Poder Judiciário, onde a parte autora solicita um provimento, sendo os sujeitos substituídos pela figura do Estado na tentativa de dirimir o conflito. No enfoque do Poder Judiciário, veja-se o que Cintra, Grino- ver e Dinamarco (2010, p. 152) dizem a respeito:

A existência da lide é uma característica constante na atividade jurisdicional, quando se trata de pretensões insatisfeitas que poderiam ter sido satisfeitas pelo obrigado. Afinal, é a existência do conflito de interesses que leva o interessado a dirigir-se ao juiz e a pedir-lhe uma solução; e é precisamente a contraposição dos interesses em conflito que exige a substituição dos sujeitos em conflito pelo Estado.

A jurisdição tem o papel de identificar se a situação posta para julgamento está subme- tida aos ditames previstos em lei, sendo positivo a jurisdição substituirá as partes para dirimir o conflito de interesses e adotar uma medida. No mesmo sentido afirma Santos (2010, p. 09):

A lide perturba a paz social, que reclama se restabeleça a ordem jurídica. Donde, aos interesses em lide- ditos interesses internos- sobreleva-se o interesse público, inte- resse externo, consistente na composição da lide. Compor a lide é resolver o conflito segundo a ordem jurídica, restabelecendo-a. Assim, o conflito de interesses em lide compor-se-á pela atuação do direito objetivo, que o regula, Isto é, pela atuação da vontade da lei ao caso concreto. A lei reguladora da espécie do conflito, e que é uma norma geral e abstrata, se manifestará, no caso concreto, através de operações e de órgãos adequados, sob a forma de lei especial e concreta, resolvendo a lide.

Fixadas essas premissas, vê-se que a grande maioria das ações movidas são assim mo- tivadas em virtude de uma insatisfação, de um desentendimento ou litígio e até mesmo de uma revolta entre as partes, em menor número e quase como exceção constituem-se aquelas ações meramente declaratórias, averbativas ou homologatórias de vontade livre e expressa das partes.