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PRETO E BRANCO

No documento Efeito do real (páginas 36-40)

O cinema inicia com o processo de captação da imagem em material preto e branco, tal qual foi com a fotografia. Mas a mudança para o colorido foi uma busca de evolução rumo a transparência cinematográfica, tal apresentada por Xavier (2005). Ou seja, o processo de mudança tecnológica era para se conseguir aproximar o cinema cada

vez mais a um visual de realidade. O ideal de apresentação era a transparência, onde o espectador se conduzisse a um universo de fascínio de realidade. E o preto e branco conduzia a uma opacidade, uma quebra com a realidade visual, pois o mundo é colorido e não preto e branco (COSTA, 2009). Porém, segundo Costa (2009, p.3) “para além da simples obviedade dessa constatação, pode-se pensar em como o filme preto-e-branco, hoje tão claramente destacado em sua opacidade, já foi bem mais transparente”. Em um período que era o único recurso e tecnologia disponível.

Com isso podemos refletir que o começo das realizações do cinema foram limitadas tecnicamente, o cinema colorido surgiu mais de vinte anos depois da primeira exibição (NEVES, 2015). Segundo Neves (2015, p.3):

Os anos 30 trouxeram a cor ao cinema. A monocromia que então imperava constituía a grande frustração dos pioneiros do cinema. A introdução da cor haveria de estimular, mais ainda, a curiosidade de um público que só há pouco mais de três décadas havia sido confrontado com o grande espetáculo das imagens em movimento. Em 1935 surge o tão aguardado Becky Sharp, realizado pelo americano Rouben Mamoulian – o primeiro filme a cores.

Depois do advento da tecnologia do cinema colorido, o filme em branco e preto se liberta da imposição da técnica e ganha caráter de linguagem, de preferência estilística. A escolha de gravar em monocromático passa ser um estilo que cria um envolvimento marcante com o espectador, pois diminuem fatores que podem distrair nas cores, e aumentar a concentração no tema abordado. Além de ter um espectador que estará disponível ao filme, pois a cor passou a imperar nas telas de cinema e na televisão, a escolha em produzir e assistir a um filme em branco e preto é algo cultural e gera motivações específicas. Ou seja, a estética do preto e branco é algo especial, que muitas vezes terá sua motivação afetiva reforçada (NEVES, 2015). Assim, no cinema a escolha do preto e branco passa ser algo importante, com um objetivo claro:

O P&B na imagem contemporânea vai ser como vai ser sempre. Ele tem esse objetivo de ir direto na essência das coisas, então a gente foca muito mais nos conceitos e na comunicação com o espectador. Uma coisa curiosa é que o preto e branco é diferente da realidade das pessoas, porque ninguém enxerga em P&B, mas mesmo assim ele consegue ser mais direto no sentido (NORONHA, 2015, online).

A escolha da cor passa a ser ponto de narrativa e linguagem, “a estética da cor no cinema confunde-se, praticamente, com a constatação de estilos pessoais ou de efeitos de gênero” (AUMONT; MARIE, 2006 [2003], p. 64). Durante a história do cinema, alguns movimentos estéticos tinham a escolha do preto e branco como forma de linguagem. O Expressionismo Alemão, o Cinema Noir, a Novelle Vague, o Neo-realismo Italiano. Era um uso do preto e branco por opção de escolha e não por uma

limitação técnica. A Novelle Vague, usava do preto e branco como forma de protestar, de ir contra a visão colorida cinematográfica de mundo, era assim que os novos cineastas mostravam sua rebeldi contra os padrões do cinema. Já o Expressionismo Alemão, usava do preto e branco para ressaltar a forma subjetiva, emocional e psicológica de seus filmes. Além de enfatizar as linhas através do contraste entre os claros e escuros provocados pelo filme monocromático. Nos anos 40, o Cinema Noir trouxe os filmes policiais e novamente o contraste forte entre o preto e branco aparece como característica marcante. E na Itália, o Neo-realismo marcou o cinema usando do preto e branco para passar uma realidade crua dos anos 50 e 60 do século 20. Era uma forma de não embelezar a realidade, além de ser uma maneira de filmar mais econômica (NEVES, 2015).

O que pode ser percebido é que a escolha entre filmar em cores ou preto e branco é uma escolha, e a partir dela se determina um processo de mediação entre a história contada e o espectador, a linguagem cinematográfica (COSTA, 2009). “Quando o realizador opta por, conscientemente, filmar a preto e branco a sua decisão vai também influenciar, como vimos, a percepção do espectador” (NEVES, 2015, p. 8).

Ao pensar em linguagem e sentido para o uso do preto e branco, podemos chegar a um ideal realista, tal qual o neo-realismo, Kracauer (1997 [1960]) apresenta que o uso criativo do cinema está ligado a realidade, a trabalhar o imaginário. O autor (KRACAUER, 1997 [1960]) declara que os filmes preto e branco são uma forma realista de se ver a realidade. Pois já é vista a realidade como algo dramático, então o preto e branco faria com que essa realidade fosse representada de forma dramática. “O filme em preto-e-branco largamente sustentava a representação dramática através de imagens e seus códigos de realismo tornavam-se um modo cada vez mais usado para se reencontrar com o real e com a realidade” (COSTA, 2009, p. 2). O filme preto e branco traz uma carga dramática, um estilo realista, mas que não pretende ser transparente, pois não quer deixar sumir o fato de ser uma representação, e o filme apenas um meio. E assim, deixando evidente a opacidade do cinema (XAVIER, 2005).

Tecnicamente, o preto e branco consegue um jogo de claros e escuros que cria um clima de mistério que faz com que descobrir o que está nas sombras seja algo prazeroso (NEVES, 2015). Assim como nos documentários de busca, a procura pelo que está por acontecer também é algo que causa prazer. Bartolomeu e Veiga (2014) afirmam que o documentário de busca traz “na fusão ou tensão entre um projeto pessoal, um desejo subjetivo de construção de si (e suas formas de ficcionalizações), e o

projeto de um filme, um documentário” (p.1). E Bernardet (2005, p.151) também comenta dizendo que, “não mais uma subjetividade como individualismo, mas uma subjetividade dinâmica, que não sabe em que medida é íntima ou em que medida é produto da sociedade”. Isso faz entender que o documentário autobiográfico fala de uma busca pessoal, mas cria uma tensão que faz com que a busca passe a ser coletiva, da sociedade. E o desvendar desta busca é algo que se mostra não só para quem protagoniza o filme, mas também para quem assiste. Além disso, filmes documentários autobiográficos, onde a vida do diretor é mostrada também é motivo de descoberta, por isso talvez o preto e branco seja a técnica utilizada na filmagem.

Silveira (2005) coloca que o preto e branco, que é visto por alguns como ausência de cor, na verdade é parte da construção perceptiva cromática, e faz relembrar as cores originais e interpretar mais a fundo o sentido dos objetos. É como uma aglutinação de muitas cores subjetivas e particulares a cada um. Quando se estuda a cor, o importante é entender o significado que aquela tem na cultura, qual o efeito de percepção que produz. E estes efeitos podem ser de caráter psicológico, social, afetivo (SILVEIRA, 2015). Silveira (2015) coloca ainda que a ideia de gravar em preto e branco traz também o sentido de algo antigo, que retorna aos primórdios do cinema. Se for relacionado com o documentário autobiográfico pode ainda se referir a ideia de algo que remete ao passado do diretor. Com issoa decisão da produção de uma obra em preto e branco deve ser prioritariamente baseada na necessidade narrativa do filme”

(NORONHA, 2015, s/p, online). Para Tarkovsky (1991, p. 356) “um filme a preto e branco imediatamente cria a impressão de que a sua atenção se concentra no que é mais importante […]. Não há nenhuma sensação de que há algo estranho acontecendo, o público pode assistir ao filme sem se distrair pela ação da cor”. Já em um filme colorido, a tendência seria de neutralizar a subjetividade de interpretação, pois o fato das cores estarem em cena fazem com que não se notem determinadas ações, por semelhança e naturalidade a leitura se passa de forma mais simples e objetiva (COSTA, 2009).

Mas a escolha de se gravar em preto e branco pode ser resultado também comercial, de recursos para a produção do filme. As realizações cinematográficas em filmes monocromáticos trazem a economia não só do material em si, mas também de seu processo de finalização. Em momentos de crise econômica o que se ve é a busca por esse tipo de uso do preto e branco, para sanar a falta de financiamento e recursos monetários (NEVES, 2015). Além disso, alguns filmes ao retratarem períodos onde o

cinema ainda era em preto e branco, uma escolha temporal, o uso do preto e branco também se faz recorrente. A escolha do preto e branco pode:

resultar de uma imposição quer comercial quer de procura de similitude ao contexto imagético da época retratada, quer mesmo de falta de recurso para ocultar deficiências de caráter técnico. Nestes casos retratados poderemos estar a falar de uma estética de pura conveniência e não de uma estética na sua plena acepção. A estética do preto e branco parece estar alicerçada num coerente, assumido e refletido jogo de contrastes, ainda que, com uma diversidade de cinzentos intermédios: o tudo e o nada, o sim e o não, a luz e a sombra (NEVES, 2015, p.11).

E com estas definições, podemos relacionar com o documentário autobiográfico todas as questões relativas à cor que estão trabalhadas dentro do filme, desde a ideia de busca do claro no escuro, passando por não embelezamento da realidade apresentada, até como visual que também remeta ao passado da vida do diretor, todos esses significados do uso do preto e branco fazem parte da linguagem do documentário autobiográfico. Além de poder também ser uma opção por conta de recursos gastos na produção de documentários nacionais. O que também remete a busca por produções mais econômicas, típicas dos documentários.

No documento Efeito do real (páginas 36-40)