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Prevenção de decretação de prisões preventivas desnecessárias

3.2 Atual redação do PLS Nº 554/2011: alterações e inovações por ele trazidas 49

3.2.5 Prevenção de decretação de prisões preventivas desnecessárias

Apesar de ainda não haver previsão legal exigindo a realização da audiência de custódia, há projeto do Conselho Nacional de Justiça –CNJ que prevê a realização das referidas audiências nos estados que quiserem aderir ao projeto. Assim, São Paulo, Espírito Santo, Maranhão, Minas Gerais, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Paraná, Amazonas, Tocantins, Goiás, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Ceará, Santa Catarina e Bahia são estados que, juntamente com o Distrito Federal, já aderiram à realização de audiências de custódia.

O impacto da realização dessas audiências já foi bastante positivo. Há estimativa de que, nesses estados, 50% das pessoas detidas foram liberadas para responder o processo em liberdade.81 Este dado indica que, no momento das audiências de custódia, foi possível identificar que a decretação da prisão preventiva para metade das pessoas detidas seria completamente desnecessária e poderia –como de fato foi- ser substituída por outras medidas cautelares ou mesmo pela liberdade provisória sem qualquer restrição. Percebe-se, assim, que as audiências de custódia têm potencial para reduzir pela metade o número de prisões preventivas decretadas. A título de exemplo, cita-se o estado do Maranhão no qual, em quatro meses e meio de realização de audiências de custódia, houve a concessão de liberdade provisória a 60% dos casos analisados, sendo que, quando as decisões eram tomadas somente pela mera análise do Auto de Prisão em Flagrante, a concessão da liberdade provisória

81 Dado apresentado pelo Ministro Ricardo Lewandwski no lançamento do projeto audiência de custódia em Roraima.

JUSTIFICANDO. Audiências de custódia já pouparam R$ 400 milhões aos cofres públicos. Disponível em:

<http://www.justificando.com/2015/09/08/audiencias-de-custodia-ja-pouparam-r$-400-milhoes-aos-cofres-publicos/>. Acesso em: 11 set. 2015.

correspondia a apenas 10% dos casos.82 Este número reforça também a necessidade de efetivação da ampla defesa neste momento processual, visto que certamente muitas dessas prisões desnecessárias foram evitadas graças à atuação da Defesa Técnica

Ressalta-se ainda que, nos parâmetros legais, as prisões preventivas deveriam ser medidas excepcionalíssimas, visto que restringem a liberdade do indivíduo sem que haja qualquer condenação contra ele; no entanto, o grande número de presos provisórios no Brasil demonstra que a excepcionalidade desta medida não vem sendo devidamente respeitada.83 Neste contexto, as audiências de custódias revelam mais um fator positivo no asseguramento de direitos aos detidos, já que podem evitar prisões preventivas desnecessárias. Assim, a audiência de custódia não só tem potencial para garantir o direito à integridade física do detido, relativamente à prevenção de torturas, como também é fator fundamental na prevenção de prisões preventivas desnecessárias, arbitrárias e, portanto, ilegais.

A decretação de uma prisão ilegal, por si só, já representa grave violação de direitos. Essa situação se torna ainda mais alarmante quando há reconhecimento, pelo próprio STF, no sentido de que as penitenciárias brasileiras violam diariamente os direitos fundamentais dos presos. Foi isto que expressamente reconheceu o Ministro Marco Aurélio, relator da ADPF 347, que analisa a atual condição carcerária brasileira. Em seu voto, o ministro afirmou que a maior parte dos detentos está sujeita a condições como superlotação, torturas, homicídios, violência sexual, celas imundas e insalubres, proliferação de doenças infectocontagiosas, comida imprestável, falta de água potável, de produtos higiênicos básicos, de acesso à assistência judiciária, à educação, à saúde e ao trabalho, bem como amplo domínio dos cárceres por organizações criminosas, insuficiência do controle quanto ao cumprimento das penas, discriminação social, racial, de gênero e de orientação sexual. Concluiu afirmando que “o quadro é geral, devendo ser reconhecida a inequívoca falência do sistema”.84

82 Dados analisados pela Human Rights Watch.

JUSTIFICANDO. "O Estado Deixou o Mal Tomar Conta": A Crise do Sistema Prisional do Estado de Pernambuco. Disponível em: <https://www.hrw.org/pt-br/report/2015/10/19/282335>. Acesso em: 23 out.

2015.

83 Dentre o total da população carcerária brasileira, 41% corresponde a presos sem condenação.

BRASIL. Departamento Penitenciário Nacional. Ministério da Justiça. Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias - INFOPEN. Brasília: Ministério da Justiça, 2014. Disponível em:

<http://www.justica.gov.br/noticias/mj-divulgara-novo-relatorio-do-infopen-nesta-terca-feira/relatorio-depen-versao-web.pdf>. Acesso em: 9 nov. 2015.

84 SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. STF inicia julgamento de ação que pede providências para crise prisional. Disponível em: <http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=298600>.

Acesso em: 14 set. 2015.

Assim, se referidas violações de direitos fundamentais já são inaceitáveis para os detentos que de fato foram condenados, a situação é ainda pior para aqueles que estão presos sem condenações, devido a prisões preventivas, sendo que muitas dessas prisões preventivas são desnecessárias e, portanto, ilegais. Para esses últimos detentos, a fonte de violação de direitos fundamentais é dupla: uma pela própria prisão ilegal; outra pelas condições precárias dos presídios.

Enquanto a superpopulação dos presídios é uma questão de segurança pública, cuja solução exige medidas a longo prazo, no curto prazo as audiências de custódia ao menos têm o potencial de evitar decretação de prisões ilegais. Isso afeta diretamente o número de detentos e, com a consequente redução da superpopulação carcerária, também uma mudança no ambiente dos presídios já seria verificada. Em São Paulo, por exemplo, no período entre fevereiro a julho de 2014, antes das audiências de custódia, 5.520 pessoas foram presas preventivamente. Em 2015, com a implementação das audiências, o número de decretações de prisões preventivas, nesse mesmo período, caiu para 1.875 casos. Assim, entre fevereiro e julho de 2015, a população carcerária do estado aumentou 1,14%, contra um aumento de 2,99% no mesmo período de 2014, de acordo com levantamento da Secretaria da Administração Prisional de São Paulo (SAP).85 Ressalta-se ainda que a diminuição de decretação de prisões preventivas não ocasionou um necessário aumento da criminalidade no estado. Considerando o delito de furto, por exemplo, nos quatro primeiros meses de audiência de custódia, o número de casos de furto diminuiu 8,7% quando comparado ao mesmo período em 2014.86

Nesse sentido, há estimativa do CNJ de que, com a concessão de liberdade provisória à metade das pessoas detidas em flagrante, já houve economia de 400 milhões de reais aos cofres públicos, quantia esta que seria utilizada para manter referidas pessoas dentro do sistema carcerário. O ministro Lewandowski, no lançamento da audiência de custódia em Roraima, afirmou que:

Implantamos esse projeto e já economizamos para os cofres públicos. Nossa estimativa é que, até o fim do ano, deixemos de prender 120 mil pessoas e, como cada preso custa cerca de R$ 3 mil para o erário, teremos ao final de um ano uma economia anual de R$ 4,3 bilhões que podem ser investidos em

85 CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Aumento da população carcerária de SP desacelera com audiências de custódia. Disponível em: <http://www.cnj.jus.br/noticias/cnj/80672-aumento-da-populacao-carceraria-de-sp-desacelera-apos-audiencias-de-custodia>. Acesso em: 3 nov. 2015.

86 CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Liberdades provisórias a acusados de furto não aumentam tipo de crime em SP. Disponível em: <http://www.cnj.jus.br/noticias/cnj/80453-liberdades-provisorias-a-acusados-de-furto-nao-aumentam-tipo-de-crime-em-sp>. Acesso em: 3 nov. 2015.

educação, saúde e outros serviços públicos. Ademais, teremos a vantagem de abrir vagas para aqueles presos que oferecem perigo à sociedade e precisam ser segregados.87

Ressalta-se que toda economia para os cofres públicos é louvável. Contudo, o foco das audiências de custódia deve ser a garantia dos direitos fundamentais dos presos, evitando a prática de torturas e impedindo a decretação de prisões preventivas ilegais. Assim, a economia ao erário é fator secundário e consequência direta do asseguramento dos direitos dos detidos. Não há como se pensar em economia antes de efetivar os direitos mais básicos daqueles que são detidos em flagrante.

3.3 Problemas observados no PLS Nº 554/2011

O texto do PLS nº 554/2011 apresentado anteriormente diz respeito ao seu estado tal qual se encontra atualmente, na fase de tramitação na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado.88 Assim, este não é o texto definitivo, sendo certo que este pode ainda sofrer modificações no próprio Senado, na Câmara dos Deputados ou ainda por veto do Executivo. Não obstante, já se observam alguns problemas trazidos pelo atual texto do PLS nº 554/2011, que são passíveis de crítica e que se espera que sejam excluídos do texto definitivo.

3.3.1 Consequências da não observação do prazo de apresentação do preso

Atualmente, o art. 306, §2º do projeto de lei em questão dispõe que “o descumprimento do prazo previsto para apresentação do preso perante o juiz competente, por si só, não enseja o relaxamento da prisão”.89

Referido dispositivo constitui verdadeira margem para que o objetivo maior da reforma processual proposta não seja efetivado. Ora, o estabelecimento de um prazo para apresentação do preso ao juiz tem um motivo de ser. Este prazo assegura que a apresentação seja feita de forma imediata para que as circunstâncias de realização da prisão em flagrante

87 CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Audiências de custódia já pouparam R$ 400 milhões aos cofres públicos. Disponível em: <http://www.cnj.jus.br/noticias/cnj/80378-audiencias-de-custodia-ja-pouparam-r-400-milhoes-aos-cofres-publicos>. Acesso em: 09 nov. 2015.

88 O texto do PLS 554/2011 aqui trabalhado se refere ao apresentado no parecer final da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado, votado em 10 set. 2015.

BRASIL. Congresso. Senado. Projeto de Lei do Senado nº 554, de 2011. Parecer Final da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado. Disponível em:

<http://www.senado.leg.br/atividade/rotinas/materia/getPDF.asp?t=178143&tp=1>. Acesso em: 14 set. 2015.

89 BRASIL. Congresso. Senado. Projeto de Lei do Senado nº 554, de 2011. PLS 554/2011. Disponível em:

<http://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/102115>. Acesso em: 14 set. 2015.

ainda estejam latentes e claras à percepção do juiz. Sobretudo a efetivação da prevenção de torturas depende do fato de que o detido seja apresentado sem demoras ao juiz.

Nesse sentido, a redação proposta ao art. 306, §1º dispõe que essa apresentação deverá ser feita no prazo de 24 horas. Há o estabelecimento, portanto, de uma regra processual clara e dotada de imperatividade, cuja observação é obrigatória. O descumprimento deste prazo configura violação a uma regra processual e, como em toda sistemática processual, a não observância das regras previstas torna o procedimento ilegal, com o consequente relaxamento da prisão. Nesse contexto, ressalta-se que, conforme estabelece atualmente o Código de Processo Penal, a não lavratura do auto de prisão em flagrante em 24 horas torna a prisão ilegal. Da mesa forma, a não entrega da nota de culpa ao preso no prazo de 24 horas também torna a prisão ilegal. Assim, pode-se questionar porque o tratamento quanto ao prazo para apresentação do preso, estabelecido no art. 306, §1º, haveria de ser diferente.

A redação proposta ao art. 306, §2º é verdadeiramente inconstitucional pois permite que prisões ilegais não sejam relaxadas, ferindo frontalmente o art. 5º, LXV da Constituição Federal. Não há nenhuma base legal que autorize o legislador dizer que o descumprimento de uma regra processual, por si só, não leva ao relaxamento da prisão. As previsões legais do Código de Processo Penal são garantias ao próprio detento e, toda vez que qualquer dessas previsões não é observada, há violação ao devido processo legal, tornando todo o procedimento ilegal. Assim, não cabe ao legislador infraconstitucional dizer quando a prisão será relaxada ou não, pois já há regra constitucional dizendo que toda prisão ilegal será relaxada.

Ademais, não bastasse a inconstitucionalidade do dispositivo citado, há ainda um problema de efetividade na redação proposta. Se o próprio projeto de lei ditou um prazo a ser observado, constitui verdadeiro contrassenso este mesmo projeto dizer que a não observância deste prazo não gera consequência alguma, visto que não gera a ilegalidade da prisão. Abre-se assim margem para que este prazo seja desrespeitado cotidianamente e a lei se torne mera letra morta, sem qualquer efetividade. Logo, ao mesmo tempo que o projeto de lei prevê um prazo a ser cumprindo, já prevê também todas as possibilidades de sua não concretização.

Dessa forma, para a efetivar o objetivo principal das audiências de custódia que é a garantia dos direitos fundamentais do preso, é imprescindível que seja excluído o §2º do artigo 306 citado. Assim, todo procedimento de prisão em flagrante que não observar o prazo

de apresentação do preso à autoridade judiciária estará eivado de ilegalidades, devendo a prisão ser imediatamente relaxada, tal qual prevê a Constituição Federal.