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Prevenção Geral e Especial e a Teoria das Classes

CAPÍTULO IV – CONTEÚDO E ABRANGÊNCIA DA PREVENÇÃO

IV.1. Prevenção Geral e Especial e a Teoria das Classes

Classificar consiste num ato humano, de distribuir objetos em classes (grupos ou

conjuntos) de acordo com semelhanças (e diferenças) que existam entre eles. É reunir

elementos sobre um mesmo conceito. Nas palavras de Guibourg, Chigliani e Guarinoni,

“agrupamos os objetos individuais em conjunto e estabelecemos que um objeto

pertencerá à classe determinada quando reunir tais e quais condições”

173

.

Classificar, na lição de Paulo de Barros Carvalho

174

,

é distribuir em classes, é dividir os termos segundo a ordem da extensão ou, para dizer de modo mais preciso, é separar os objetos em classes de acordo com as semelhanças que entre eles existam, mantendo-os em posições fixas e exatamente determinadas em relação às demais classes. Os diversos grupos de uma classificação recebem o nome de espécies e de gêneros, sendo que espécies designam os grupos contidos em um grupo mais extenso, enquanto gênero é o grupo mais extenso que contém as espécies175.

Com efeito, o gênero compreende a espécie. Disto decorre que o gênero denota

mais que a espécie ou é predicado de um número maior de indivíduos. Em contraponto,

a espécie deve conotar mais que o gênero, pois, além de conotar todos os atributos que o

gênero conota, apresenta um plus de conotação que é, justamente, a diferença ou

diferença específica.

Nessa linha de raciocínio, pode-se inferir que as normas individuais e concretas

consubstanciam espécies de normas jurídicas; todavia, formam o gênero de que são

espécies as normas individuais e concretas veiculadas pelo Poder Judiciário que, por sua

vez, são o gênero com relação às individuais e concretas postas por sentenças. Toda

classe é susceptível, assim, de ser dividida em outras classes. É princípio fundamental

173GUIBOURG, Ricardo, GUIGLIANI, Alejandro e GUARINONI, Ricardo, “Introducción al

conocimiento científico”. Buenos Aires:Eudeba, 1985, pp 38-39.

174CARVALHO, Paulo de Barros, “Direito Tributário, Linguagem e Método”. São Paulo, Editora Noeses,

3a edição, 2009, p. 117.

175Lembre-se, por exemplo, do gênero “números cardinais” aos quais pertencem as espécies de números

pares e ímpares. Assim, por exemplo, os números 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9 e 10 são todos números cardinais, mas, apenas os números 2, 4, 6, 8 e 10 serão pares; os números 1, 3, 5, 7 e 9, ímpares.

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em Lógica que a faculdade de estabelecer classes é ilimitada enquanto existir uma

diferença, pequena que seja, para ensejar a distinção

176

.

A teoria das classes fornece elementos indispensáveis para a compreensão do

processo classificatório que, afinal, depende de uma operação de divisão.

Cumpre advertir que a boa classificação depende não só do processo de bem

dividir o termo, mas, antes disso, de elaborar uma definição adequada de seu conceito. E

definir é operação lógica demarcatória dos limites, das fronteiras, dos lindes que isolam

o campo de irradiação semântica de uma ideia, noção ou conceito. Com a definição,

outorga-se à ideia sua identidade, que há de ser respeitada do início ao fim do discurso.

Partindo do pressuposto de que nossa realidade é constituída pela linguagem;

que o mundo jurídico se estabelece pela linguagem do direito; claro está que as unidades

desses sistemas sígnicos, em grande parte nomes, gerais e próprios, são classes que

exprimem gêneros ou espécies e, como tais, passíveis de distribuição em outras classes,

segundo, evidentemente, as diretrizes do critério escolhido para a divisão. Com os

recursos da classificação, o homem vai reordenando a realidade que o cerca, para

aumentá-la ou para aprofundá-la consoante seus interesses e suas necessidades, numa

atividade sem fim, que jamais alcança o domínio total e a abrangência plena. Esse

caráter reordenador é salientado porque assim como a classificação pressupõe a

existência de classe a ser distribuída em subclasses, o aumento ou aprofundamento da

realidade, como algo constituído pela linguagem, antessupõe também a afirmação da

própria realidade enquanto tal.

Ali onde houver linguagem, natural ou técnica, científica ou filosófica, haverá,

certamente, classes e operações entre classes, com o aparecimento de gêneros, espécies

e subespécies. Isso, em qualquer das regiões ônticas: seja a dos objetos naturais ou dos

ideais; a dos metafísicos ou dos culturais.

Logo, de se notar que as classificações são operações lógicas que existem para

auxiliar o conhecimento dos objetos, mediante a separação de elementos que se

aglutinam sob critérios comuns (em classes). Numa classificação, determinada classe é

tomada como gênero e, por meio de diferenças específicas associadas ao conceito desta

classe, vão se formando suas espécies e subespécies.

176CARVALHO, Paulo de Barros, “Direito Tributário, Linguagem e Método”. São Paulo, Editora Noeses,

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Ora, a Ciência do Direito tem sua própria linguagem e vale-se, em certa medida,

do mesmo processo de divisão em classes para melhor analisar os institutos que lhe

interessam.

Como diz Leônidas Hegenberg

177

, “desde o momento em que reúne as coisas e

as classifica, o ser humano forma conjuntos e adquire as noções de pertencialidade e de

subconjunto”. A classe, ou conjunto, é a extensão de um conceito, é o seu campo de

aplicabilidade ou, nos dizeres de Suzanne K. Langer, é a “coleção de todos aqueles e

somente aqueles termos aos quais certo conceito seja aplicável”.

Feitas essas considerações, verifica-se que o tema relacionado à prevenção no

contexto do Estatuto da Criança e do Adolescente obedeceu à classificação

hierarquizada do assunto, tanto que o legislador intitulou “Da Prevenção”, o Título III,

subdividindo-o em 2 (dois) Capítulos, o primeiro dos quais nominou “Disposições

Gerais” (onde está inserido o princípio da prevenção geral), chamando de “Prevenção

Especial” o segundo deles.

Para logo se vê que, por meio dessa classificação, há uma prevalência e uma

graduação por opção de valores eleitos, de onde a temática da prevenção especial estar,

realmente, impregnada pelo conteúdo valorativo da prevenção geral, podendo concluir-

se que os assuntos tratados naquela obedecem aos ditames estabelecidos nesta.

A Teoria das Classes, por sua vez, está presente, também, em um dos assuntos

mais relevantes relacionados à prevenção especial a que aludem os artigos 74 usque 77

do Estatuto da Criança e do Adolescente: a classificação indicativa. Por meio desta,

como se verá, as diversões, espetáculos públicos e as obras audiovisuais são catalogados

por faixa etária, sendo neles identificada a presença de determinados conteúdos

específicos.

Três são os aspectos mais importantes a serem abordados neste capítulo:

examinar se prevenção é sinônimo de precaução no contexto infantil; qual a abrangência

da prevenção geral e da especial e, nesse ambiente, examinar os critérios restritivos

listados pelo diploma infantil e que revelam tratamento especial.

177HEGENBERG, Leônidas H. Baebler, “Etapas da Investigação Científica”. São Paulo: EDUSP, 1976,

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