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2. IMUNIDADE RECÍPROCA

2.2. PREMISSAS DA IMUNIDADE RECÍPROCA

2.2.3. Previsão constitucional

Eis a previsão da imunidade recíproca, ipsis litteris:

Artigo 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:

VI - instituir impostos sobre:

a) patrimônio, renda ou serviços, uns dos outros;

§ 2º - A vedação do inciso VI, "a", é extensiva às autarquias e às fundações instituídas e mantidas pelo Poder Público, no que se refere ao patrimônio, à renda e aos serviços, vinculados a suas finalidades essenciais ou às delas decorrentes.

45 CARVALHO, Paulo de Barros. Curso de Direito Tributário. 17 Ed, São Paulo: Saraiva, 2005, p. 189.

46 CAMPOS, Francisco. Constituição Federal Brasileira. 2 Ed. Rio de Janeiro: F. Briguiet, 1924, p. 59.

47 ATALIBA, Geraldo. Sistema Constitucional Tributário Brasileiro. 1 Ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1968, p. 54.

§ 3º - As vedações do inciso VI, "a", e do parágrafo anterior não se aplicam ao patrimônio, à renda e aos serviços, relacionados com exploração de atividades econômicas regidas pelas normas aplicáveis a empreendimentos privados, ou em que haja contraprestação ou pagamento de preços ou tarifas pelo usuário, nem exonera o promitente comprador da obrigação de pagar imposto relativamente ao bem imóvel.

Pela clareza do texto legal, poucas dúvidas podem advir de sua leitura.

Trata-se de imunidade genérica, subjetiva e incondicionável, apontada como implícita, haja vista sua prescindibilidade de previsão expressa, que expõe claramente quem serão os titulares de sua fruição e as hipóteses de aplicabilidade.

Veda-se, pois, a instituição de impostos em geral, dos entes tributantes reciprocamente, abrangendo a renda, o patrimônio e serviços que estejam vinculados às suas finalidades essenciais e que não sejam relacionados com exploração de atividades econômicas regidas pelas normas aplicáveis a empreendimentos privados, ou em que haja contraprestação ou pagamento de preços ou tarifas pelo usuário.

Muito embora o Código Tributário Nacional proponha uma classificação dos impostos, que ofereceria uma categoria desafeta à tríade “patrimônio, renda e serviços”, qual seja, os Impostos sobre o Comércio Exterior, nos dizeres de Aliomar Baleeiro, a imunidade recíproca é um instituto jurídico-político expressamente consagrado na Constituição e não pode ser anulado pelas sutilezas e jogos de palavras do legislador ordinário48.

O Supremo, nos mesmos passos, desconsidera, para fins de imunidade tributária, a inócua49 classificação do CTN, pelo que afasta quaisquer impostos que

48 BALEEIRO, Aliomar. Limitações constitucionais ao poder de tributar. 7 Ed., 2006, Rio de Janeiro: Forense. Atualizadora: Mizabel de Abreu Machado Derzi, p. 285.

49 TORRES, Ricardo Lobo. Tratado de direito constitucional financeiro e tributário, v. III, p. 232.

possam onerar economicamente as finanças da entidade albergada pela regra imunizante.

Pelos precedentes da Corte, não há que invocar, para o fim de ser restringida a aplicação da imunidade, critérios de classificação dos impostos adotados por normas infraconstitucionais, mesmo porque não é adequado distinguir entre bens e patrimônio, dado que este se constitui do conjunto daqueles. O que cumpre perquirir, portanto, é se o bem adquirido, no mercado interno ou externo, integra o patrimônio da entidade abrangida pela imunidade50.

Quanto à extensão a autarquias e fundações, a inclusão destas no texto constitucional se deu em datas diferentes: as autarquias foram inseridas com a Emenda Constitucional n. 18/65, enquanto as fundações vieram com a Carta Magna de 1988. Não obstante, as autarquias já desfrutavam de proteção implícita, conforme se lê na vetusta Súmula n. 73 do STF (13-12-1963): “A imunidade das autarquias, implicitamente contida no artigo 31, V, ‘a’, da Constituição Federal, abrange tributos estaduais e municipais”.

Em relação a estas entidades, as autarquias são pessoas jurídicas de direito público interno criadas por meio de lei (arts. 37, XIX, da CF e 41, IV, do CC), e que devem ter por objeto uma atividade determinada, dispondo, em nome próprio, de direitos e obrigações, poderes e deveres, prerrogativas e responsabilidades. Ademais, em razão de sua personalidade, as atividades que lhes são trespassadas, os fins e interesses que perseguem são próprios, assim como são próprios os bens que possuem ou que venham a possuir51, configurando-se verdadeiras extensões das pessoas públicas.

50 RE 203.755/ES, 2a T., rel. Min. Carlos Velloso, j. 17-09-1996; ver, também, o RE n. 193.969. 51 GASPARINI, Diogenes. Direito administrativo. 13. ed. São Paulo: Saraiva, 2008

Em consentâneo, as fundações públicas são pura e simplesmente autarquias, às quais foi dada a designação correspondente à base estrutural que têm52, ou seja, um patrimônio personalizado e afetado a determinado fim.

Concluindo, há previsão expressa determinando ainda a vinculação da tríade “patrimônio, renda e serviços” das autarquias e fundações às finalidades essenciais ou às delas decorrentes. Trata-se de cláusula que vem objetivar essa imunidade tipicamente pessoal, alcançando-se, desta forma, tudo quanto for de caráter instrumental ou funcional53 da autarquia ou fundação.

Muito embora seja a própria lei que venha a criá-las e definir as respectivas áreas de atuação, artigo 37, XIX, CF, válido e percuciente o alerta do Ministro Moreira Alves, expondo que não é a lei que vai dizer quais são as finalidades essenciais. Quem vai dizer quais são as finalidades essenciais é a interpretação da própria Constituição. Porque Constituição não se interpreta por lei infraconstitucional, mas a lei infraconstitucional é que se interpreta pela Constituição54.

Interessante acrescentar ainda que o Brasil, no quesito da imunidade recíproca, é exceção em prevê-la na sua Constituição. A Argentina, por exemplo, assim como os Estados Unidos da América, outorgou tal benesse por decisório de sua Suprema Corte, enquanto a Alemanha a institui na lei de cada imposto (Steuerbefreiung)55.

Com relação à contraprestação ou pagamento de preços e tarifas pelo usuário como hipótese de afastamento da imunidade recíproca, ou mesmo a imposição de vinculação às finalidades essenciais, estas condicionantes têm sido deveras mitigadas.

52 MELLO, Celso Antonio Bandeira de. Curso de direito administrativo. 13. ed. São Paulo: Malheiros, 2001, p. 171.

53 BALEEIRO, Aliomar. Direito Tributário Brasileiro. 11ª ed. Rio de Janeiro; Forense, 2006, p. 170. 54 MARTINS, Ives Gandra. Pesquisas Tributárias – Nova Série n. 5, Processo Administrativo Tributário. 2a ed. São Paulo: co-Ed. CEU/Ed. Revista dos Tribunais, 2002, p. 31-2.

Como se verá nas próximas linhas, o Supremo Tribunal Federal tem afastado essas exigências, em especial para empresas estatais, que, muito embora não estejam também expressamente previstas na Carta como possíveis utentes (ao contrário, estão como impossibilitadas de usufruir tais vantagens (vide artigo 173, § 3º), tiveram, por interpretação ampliativa, o direito lhes estendido.

Elucidado brevemente o conteúdo do texto propriamente dito, passa-se a aprofundar a substância da norma, com atenção à justificativa da norma imunizante.