3.4 Modelo Multifatorial Condicional de Apreçamento
4.1.11 Previsibilidade Condicional e Market Timing no
Um Teste Empírico do Modelo de Asset Pricing Condicional Cochrane (1999) coloca uma série de questões a respeito das impli- cações práticas no mercado americano da previsibilidade condicional dos retornos de ações, modi…cando uma alocação ótima em função de efeitos de horizonte de investimentos, market timing e desejo por hedge (para evitar a variação dos retornos no tempo) . Campbell (1999) analisou para investidores de longo-prazo, implicações de market-timing e hedge na composição de portfolios.
Vamos analisar, no contexto dos mercados emergentes, e em especial, o mercado brasileiro, as implicações de maket timing levantadas pelos retornos condicionais.
As condições para a existência de market-timing são:
Condição 1 : Os retornos são em parte previsíveis por variáveis de estado macroeconômicas
Esta condição contradiz o paradigma do random-walk e retornos iid prevalecente antes do trabalho de Fama e French, e é aceita atualmente como sendo a hipótese mais provável e o novo paradigma.
Condição 2 : O Investidor típico deve possuir o índice de mercado Esta é uma condição fundamental para a existência de market-timing. Se o market-timing for possível, para cada investidor que tirar proveito desta estratégia deve existir outro que abra mão de retorno esperado para se proteger do risco. Esta é a situação ilustrada no grá…co 10. É impossivel todos comprarem por preços baixos e venderem por preços altos. Assim, o market timing só é possível porque existem investidores que atuam como "seguradores" vendendo hedge em troca de um prêmio de retorno, e porque existe o investidor típico, com um grau de aversão ao risco maior que o faz seguir a estratégia contrária, racionalmente pagando um prêmio em troca de hedge. Em essência, o vendedor de hedge deve comprar ações quando ninguém quer e vendê-las quando todos as querem.
Existe no mercado (especialmente no mercado americano) toda uma miríade de estratégias e possibilidades de market-timing utilizadas por investidores, com todos os tipos de indicadores possíveis, incluindo com- binações extremamente so…sticadas com técnicas de stock-picking baseada em critérios fundamentalistas e utilização de diferentes tipos de deriv- ativos para hedge e alavancagem. Damodaran (2003 - cap.12) resume algumas destas estratégias e diversas pesquisas com análises dos resul- tados destas estratégias no mercado americano.
Vamos descrever em seguida um modelo simples de market-timing utilizando os resultados do modelo de apreçamento condicional desen- volvido neste trabalho. Embora não seja o objetivo especí…co deste trabalho construir e testar modelos econômicos e estatísticos de gestão …nanceira no mercado brasileiro, nosso teste veri…ca se a combinação de um modelo VAR e um modelo de equilíbrio multi-fatorial poderia obter resultados superiores ao mercado tanto em retorno absoluto quanto em retorno ajustado ao risco (índice de sharpe), e é mais um parâmetro para se avaliar a aderência do modelo à realidade.
Nossa idéia parte inicialmente das características dos mercados emer- gentes propicias ao market-timing, que são a fragilidade institucional e política, sucetibilidade a diversos tipos de choques, retornos (positivos ou negativos) potencializados por investidores estrangeiros de curto-prazo.
Não assumimos nenhum conhecimento a priori sobre os eventos econômi- cos (por exemplo : avaliando se o modelo teria retornos superiores se con- struído de forma otimizada zerando o fator de risco cambial na véspera da maxi-desvalorização), o que ajuda a proteger a avaliação do teste de um possível viés comportamental de "hindsight bias" - a tendência de observar um resultado ex-post e acreditar que este resultado poderia ter sido previsto ex-ante.
Nosso modelo bastante simples terá apenas três regras :
1 - Isolar os dois fatores de risco que produzem o maior impacto marginal (em termos absolutos) no prêmio de risco de um portfolio com beta igual a um em todos os fatores de risco. Para cada fator de risco selecionado, isolar a variável de estado que produz o maior impacto marginal na variação positiva do prêmio de risco do respectivo fator.
2 - Investir 100% do portfolio no índice ibovespa após um choque não-previsto superior a dois desvios-padrão em qualquer uma destas duas variáveis de estado, equivalente portanto, ao prêmio de risco do portfolio beta um sofrer um choque positivo.
3 - Desinvestir 100% após um choque contrário (positivo), não-previsto, superior a dois desvios-padrão, em qualquer uma das duas variáveis de estado.
Esta estratégia especí…ca não visa otimizar o per…l de riscos nem maximizar o retorno esperado condicionado a realização de um deter- minado cenário (o que seria equivalente a construção de um portfolio visando uma aposta macroeconomica). O objetivo desta estratégia é apenas vender "seguros de catástrofe", ou hedge contra crises esperadas. Realizações pouco prováveis de choques em variáveis de estado signi…ca- tivas, são sinais de crises, cuja dinâmica dos preços de ativos, risco e retorno esperado já foi descrita em seções anteriores deste trabalho.
Resultados FEV-95-1 NOV-2004 -0.85 -0.7 -0.55 -0.4 -0.25 -0.1 0.05 0.2 0.35 0.5 0.65 0.8 0.95 1.1 1.25 1.4 1.55 1.7 1.85 2 % ao m ês
Choques Imprev istos em INF Choques Imprev istos em R
IN
IN
IN IN
IN
OUT OUT OUT
OUT
OUT
Período : Fevereiro de 1995 a Novembro de 2004 Número de Negócios realizados : 5
Tempo total investido (meses) : 53 (45 % do total) Número mínimo de meses investido por negócio : 3 Número máximo de meses investido por negócio : 22 Número médio de meses investido por negócio : 10,8
Retorno médio mensal (média geométrica) durante o investimento no Índice (53 meses) : 2,45%
Retorno médio mensal (média geométrica) do investimento na taxa Selic (65 meses) : 1,54%
Retorno médio total da estratégia : 4,00 % / mês Volatilidade no período (desvio-padrão) : 6,20% Taxa Selic Média no período : 1,86% ao mês ou Índice retorno-risco : 0,34
Retorno médio (média geométrica) da estratégia buy-and-hold em todo o período : 1,59 % mês
Volatilidade (desvio-padrão) : 10,54%
Taxa Selic Média no período : 1,86% ao mês Índice retorno-risco : -0,02
Uma estratégia extremamente simples e mecânica de market-timing vendendo seguros de catástrofe, baseada exclusivamente em sinalizações estatísticas de crises econômicas, superou o índice ibovespa tanto em retorno absoluto quanto em índice que mede a relação retorno-risco. Este teste é uma evidência empírica a favor da previsibilidade condicional de retornos de ativos no mercado brasileiro, no período.
4.2
Modelo com Prêmio de Risco Constante e Betas vari-antes
Para avaliar a signi…cância estatística de nossa segunda especi…cação, corrigimos a estatística t conforme a sugestão de correção dos desvios- padrão de Fama e McBeth,
K = q 1 T2(T1 Tt=1( t )2) pr^emio Y IN F Cambio R M edia 0:001 0:004 0:003 0:016 P value 0; 37 0; 85 0; 19 0; 72
99/4 00/4 01/4 03/4 04/4 -0.5 0 0.5 1 1.5 2 2.5 Y INF CAMB R
A seguir o grá…co mostra como evoluem os betas médios (com pesos iguais) estimados para cada fator de risco, a partir de abril de 1999.
A sensibilidade média dos ativos ao fator de risco Y e CAMB evoluiram em direções opostas e signi…cativamente. Os betas para os fatores R e INF permaneceram aproximadamente constantes. Como os prêmios de risco não foram signi…cativos e não são dinâmicos, não podemos fazer inferências sobre eles.
A limitação de nossa segunda especi…cação, é evidente. A lógica do apreçamento de ativos implica em que os prêmios de risco devam variar no tempo para explicar os retornos. Em uma economia emer- gente, é muito mais factível que esta mudança intertemporal decorra de mudanças nos "preços" do risco, em função de choques e modi…cações conjunturais macroeconômicas, do que de mudanças signi…cativas nos ativos que impliquem em mudanças nos betas.
O risco de um ativo, medido pelo seu beta, decorre de : (1) Risco Setorial, intrínseco ao negócio.
(2) Risco da Alavancagem Operacional (3) Risco da Alavancagem Financeira
Mudanças nos betas em função de (1) são possíveis em mudanças estruturais da economia. A mudança do regime de metas de cambiais para o regime de metas de in‡ação foi uma mudança estrutural. Com a mudança no câmbio real, indústrias exportadoras, por exemplo, pud- eram ganhar mercado e diversi…car sua receita, reduzindo seu risco e marginalmente seu beta.
Mudanças em (2) e (3) são menos prováveis e mais discricionárias. Todo um setor modi…car sua estrutura de custos …xos ou sua relação dívida/patrimônio líquido é pouco provável na ausência de algum choque. Mesmo durante a desvalorização cambial, o efeito sobre o endividamento cambial das empresas foi assimétrico, em função da existência de hedge. Para uma análise dos efeitos da desvalorização cambial na dívida de em- presas brasileiras ver (Bonomo, Martins e Pinto, 2003). Desta forma, na ausência de um choque signi…cativo, amplo e persistente, como uma rev- olução tecnológica que impacte na tecnologia de produção, introdução de um produto substituto inédito ou a descoberta alguma patente, é pouco provável que os betas setoriais mudem dinâmicamente de forma signi…cativa.
5
ConclusãoConstruímos uma metodologia nova e so…sticada para estimarmos prêmios de risco macroeconômicos na economia brasileira recente, desde o início do Plano Real, em função de variáveis que se propõe a capturar dinâmi- camente o estado do ciclo macroeconômico e as expectativas racionais dos agentes.
Nossa análise testa o paradigma central da teoria de …nanças mod- erna, em que um modelo de apreçamento racional deve estar conectado à macroeconomia, e re‡etir apenas os riscos comuns a todo o sistema. Este paradigma é ainda mais relevante em economias emergentes, nas quais prevalece grande volatilidade econômica, baixa credibilidade insti- tucional e política, e grande vulnerabilidade a choques vindos do sistema internacional.
As expectativas para as variáveis de estado macroeconômicas foram construídas em função de um modelo VAR condicional que admite racional- idade dos agentes econômicos, no sentido de não cometerem erros sis- temáticos de previsão. Foram discutidos os possíveis impactos nas esti-
mativas de parâmetros do VAR, advindos de mudanças de regime mon- etário e de variáveis importantes omitidas do modelo para se preservar a parcimônia.
Os aspectos dos prêmios de risco estimados são explicados em função das caracteristicas do mercado brasileiro, das crises e choques ao sistema ocorridos no período, do papel dos ‡uxos de capitais internacionais, de expectativas racionais e "irracionais" conectadas a realidade econômica de mercado, do cross-section de retornos observados, e …nalmente em função das fontes de erros de apreçamento.
Testamos também uma especi…cação alternativa de modelo condi- cional, utilizando múltiplos betas variantes no tempo, e prêmios de risco constantes, estimados no contexto proposto por Fama e McBeth. Esta especi…cação não gerou estimativas de prêmios de risco signi…cativa- mente diferentes de zero. Este resultado con…rma a intuição de que, especialmente em economias voláteis, são os prêmios de risco e não os betas as fontes de previsibilidade dos retornos.
Duas conclusões principais podem ser extraídas a partir do trabalho. Em primeiro lugar, em economias emergentes, a aplicação de mode- los de apreçamento racionais são um desa…o muito maior do que em mercados estáveis e líquidos. Na economia brasileira, os retornos de ativos são menos in‡uenciados pelos fundamentos que determinam os ‡uxos de caixa do que pelas variáveis condicionantes do risco no sis- tema econômico, o que já justi…caria a tentativa de compreensão desta dinâmica por parte dos agentes. A segunda conclusão do modelo é a de que não se pode rejeitar a hipótese de que existe previsibilidade de re- tornos em algum grau, provocada por mudanças dinâmicas nos prêmios de risco. Esta previsibilidade é compatível com o paradigma de racional- idade, e é maior em prazos mais longos do que em prazos curtos, embora a previsibilidade em prazos mais curto-prazo não possa ser considerada de todo desprezível. Sob outro aspecto, a compreensão e estimação dos efeitos da transmissão de inovações nos fatores de risco para os retornos de ativos através dos betas permite simultâneamente a análise de risco e a construção de portfolios consistentes com desempenho macroeconômico esperado.
A ‡exibilidade do modelo VAR possibilita diversos tipos de con- struções econômicas, podendo ser interpretado em conjunto com o mod- elo multifatorial condicional, e também sob a ótica do fator estocástico de desconto - caso se queira assumir a hipótese adicional de que os prêmios de risco são racionais se obedecem a lógica econômica determinada pelo crescimento da utilidade marginal do consumo.
6
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7
Apêndice
Código de MATLAB para implementar a MLE dos Prêmios de Risco Condicionais
A partir das estimativas iniciais dos parâmetros, pode-se implemen- tar o algorítimo para estimar a máxima verossimilhança. A orientação geral para implementar o algorítimo está descrita a seguir
Variáveis :
Price - excesso de retornos realizados
Shock - choques não previstos nas variáveis macroeconômicas lambda - vetor de estimativas para o prêmio de risco do fator D - matriz com a realização dos fatores de risco
No passo 1 após inicializar o algorítimo, calcula-se os betas. O código utilizado está exempli…cado para o caso de um beta. qualquer.
%jj = controle dos rounds