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Primavera no morro

No documento Cinco cronistas da cidade (páginas 194-200)

Ainda que setembro não traga para nós a primavera, a não ser nos slogans que vendem a moda e anunciam os jogos de um colégio da cidade, noto que o morro denuncia, tímido, a nova estação. Vejo que os ipês floram como nunca acontecera e quebram de roxo a visão verde que se desfaz aqui e ali, em semitons.

A mim pouco importa a sua riqueza de nomes, pau- -d’arco ou peroba-dos-campos – ou a sua condição de árvore nacional. Dos ipês dos morros, só conheço os tons amarelos ou violáceos e isto basta para um cronista de província, aprendiz de emoções, descobridor da função contemplativa.

Vou ficando aqui no alpendre, onde gosto de escrever nas primeiras horas da tarde, observado pelas lagarti- xas, perdido entre pensamentos nem sempre muito bons e papoulas floridas o ano inteiro. Vem a vontade enorme de

dormir, mas é preciso espantar o sono porque a vida tem expedientes e tarefas.

Melhor seria ficar como o Concriz que mesmo preso na gaiola, canta todas as manhãs respondendo ao Sabiá como se conversassem sobre a madrugada. O verde dos morros é a terra prometida deles dois, o território da liberdade ainda tão ameaçada pelas grades de arame que impedem o voo e prendem o desejo.

Para nós, viventes dos trópicos, esta é a primavera possível e se de tudo restar alguma coisa mais além do

marketing de uma estação de mentira, nada será aproveitado.

Se mais for preciso, repitam os versos de Zila Mamede que, soberana na sua capacidade de olhar o mundo, fala da paz dos bois dormindo.

É possível que os meus vizinhos nem tenham avistado os ipês florindo e por isso o meu pecado ainda é maior na medida em que fico preso entre os muros e nem lembro que

é preciso avisá-los. Os meus vizinhos certamente não são meus leitores não teriam tempo disponível para os ipês, porque eles são silvestres sem proprietários.

Quiseram, em outros tempos, que a casca do ipê-roxo curasse o câncer e é preciso entender a relação mágica do homem com a natureza, ainda que em nome do relaciona- mento racional todo este século tenha sido construído. Os ipês não curam doenças do corpo, mas pintam de amarelo e roxo as nossas almas, principalmente as parnasianas.

Ainda imaginei subir o morro na trilha das areias brancas e trazer da viagem um galho de ipê roxo e com ele decorar parte da casa. Depois achei melhor olhar os ipês de longe até que esta primavera de faz de conta chegue ao fim. Na sala, o galho de ipê, sem vida, perderia o colorido, contorcendo-se de dor.

O rio

Tenho pena do meu rio que eu vi bonito, correndo manso e se refazendo em remansos de marés de janeiro. Tenho pena do meu rio que eu vi dormindo e embalando seus barcos de nomes que eram verdadeiros poemas: Estrela do Mar, Gaivota, Carapeba, Gamboa do Silêncio, Vento Norte.

Hoje vejo o meu rio triste, desfeito em canais e expe- riências e tenho pena de suas águas sujas e abandonadas pelas Tainhas. Não vejo mais os seus lindíssimos barcos, substituídos que foram por um arremedo de jangada, cha- mado paquete, cheio de isopor no convés.

Agora vejo o meu rio recebendo os detritos impres- táveis da cidade, envolvida pelo progresso que os seus homens teimam em construir. Para que serve o meu rio se a ele reservam a missão de esconder as amebas dos olhos dos nossos homens e mulheres vaidosos?

Para isso ele não foi feito, para ser o bojo sanitário da cidade. Meu rio foi feito para os marinheiros e pescadores da minha cidade e para que os barcos, vindos do mar, ador- mecessem, silenciosos, na sua margem até que a madrugada chegasse outra vez com gosto de farinha e jabá.

Estão matando o meu rio, cortando o seu dorso com longos pontais de pedras, penetrando seu corpo com fun- dações de cimento para um novo cais. Estão matando meu rio em nome do saneamento da cidade com seu progresso de mentira. Por isso, meu rio chora lama e sente falta do seu mangue.

A minha cidade de hoje tem sido tão desumana com o meu rio que depois de matar a sua primeira margem, agora atravessa a ponte e constrói os grandes conjuntos com esgotos despejando tudo nas suas águas de lá. Querem esconder no rio toda a incompetência que a Universidade não foi capaz de exterminar.

E são de uma violência tão desmedida que ainda foto- grafam meu rio para ilustrar os seus catálogos e roteiros como se nada tivessem feito contra ele. E o meu rio que era refúgio dos amantes de minha cidade, de repente se transforma num imenso depósito de lixo onde despejam tudo, até os restos de amor. Tenho pena do meu rio que vi bonito, correndo manso e se refazendo em remansos de marés de janeiro.

Frases

Todo cronista, até pela vil e inculta banalidade com que olha a vida, no fim é também, e apenas, um colecionador de frases. Nada mais. A sua pobre arte consiste em tentar impressionar os mais fáceis, porque assim parecem tocados daquele mistério transcendental, aura dos mestres. E de muito pouco adiantará colecionar palavras se não se for capaz de usá-las na hora certa, dosando o ar grave ou o bom humor, de acordo com os jogos sociais do salão.

O perigo de ser um guardador de frases é cair na vala comum das frases feitas, do lugar batido, do já dito tantas vezes. O que além de abominável para os mestres acadêmicos e cultos, ainda por cima revela e flagra a mesmice mortal. Pensando bem, há uma boa razão para se evitar a frase feita. O que é bom e produz um efeito especial é ter a frase justa no momento exato e tocada de um certo bom humor, que a graça, convenhamos, encanta a alma humana desde a caverna.

No documento Cinco cronistas da cidade (páginas 194-200)