3. Prática de Ensino Supervisionada
3.3 Aulas Lecionadas
3.3.3 Primeira Aula Lecionada
A primeira aula que lecionei (Anexo C, pp. 33-39) foi à turma 6º1 e tornou-se num ponto de partida essencial para todo o trabalho que vim a desenvolver de seguida, não só nesta mas como também nas outras turmas. Reforçou bastante a minha motivação e confiança quanto ao rumo que tinha traçado, pois o balanço foi extremamente positivo, e confesso que excedeu fortemente as minhas expetativas. Senti que tinha conseguido estabelecer uma boa relação entre todo o grupo e que isso, naturalmente, favoreceu todo o empenho e envolvimento dos alunos nas atividades realizadas. Por estes motivos, gostaria de descrever alguns dos pontos que considero essenciais:
1. Comecei a aula com a minha apresentação mas quis também conhecer melhor
27 a música ocupava no seu quotidiano. O retorno foi imediatamente positivo porque tiveram a oportunidade de se expressarem, o que levou a que nos conhecêssemos melhor enquanto grupo. Chegámos à conclusão que a música estava bastante presente no dia-a-dia de cada um e que todos gostávamos de música, exceto dois alunos que insistiam por tudo que não havia nada na música em si que lhes agradasse.
2. Projetei o vídeo da canção ”Stand by me” (projeto Playing for Change), interpretada por pessoas de diferentes etnias e idades em diferentes pontos do mundo e a reação da turma foi inicialmente de surpresa, o que rapidamente se transformou em interesse por algo que nunca tinham assistido até ali e foram imensas as perguntas que colocaram em relação ao que viram. Proporcionou-se naturalmente um segundo debate em que a turma chegou à conclusão de que fazer música em conjunto pode ser uma forma de unir diferentes pessoas, povos e culturas. Rapidamente mostraram interesse em transportar esse espírito para a sala de aula e eu aproveitei, sendo que tinha sido este o meu objetivo principal, para lhes perguntar então o que eles achavam que precisávamos para fazer música juntos. De repente, começaram a surgir muitas palavras e eu, pedi a um voluntário para ir ao quadro apontá-las para que nos pudéssemos guiar. A lista foi a seguinte: silêncio, ouvir, ordem, cooperação, respeito, atenção, concentração. Confesso, fiquei surpresa por afinal eles saberem o que era necessário, embora nunca o tivessem demonstrado até ali. Como já não surgiam mais, eu apenas perguntei “e regras?”, a resposta foi absolutamente deliciosa: “mas isso é tudo o que está no quadro!”. Ao qual respondi “não, tudo o que está no quadro é aquilo que vocês disseram que era preciso para fazer música em conjunto” e eles “ahhhh, então sim, também são precisas regras!”. Obviamente que pesquisei, refleti e planeei muito na construção destas estratégias e foi realmente gratificante observar o resultado esperado: criar as condições necessárias para fazermos música.
3. Passámos outra grande parte do tempo da aula a realizar pequenos jogos que eu
tinha preparado e que tinham como objetivo proporcionar uma aculturação, ainda não identificável pelos alunos, ao material que iria ser trabalhado nas próximas aulas: a aprendizagem da síncopa e também da peça “Another brick in the wall”. Durante esta parte aconteceram várias situações que eu gostaria de realçar:
a. Quando eu pedi que os alunos repetissem os padrões rítmicos, em
28 eles repetiam com a sílaba rítmica respetiva, demonstrando que já conseguiam assimilar esse conteúdo. Como ainda nunca o tinham feito, ao início ficaram um pouco baralhados com o que eu estava a pedir, mas quando exemplifiquei e lhes pedi para experimentarem eles ficaram visivelmente surpreendidos, como se nunca tivessem reparado que o material musical era exatamente o mesmo quando a professora cooperante lhes pedia inicialmente para repetirem em sílaba neutra e depois numa posterior fase em sílaba rítmica. No entanto, eles rapidamente conseguiram demonstrar que já estavam aptos para realizar esta associação no seu pensamento musical.
b. Fizemos um jogo de movimento, inspirado nas aulas de Didáticas II do
Mestrado, no qual juntámos ritmos corporais e lhes foi dada a oportunidade, pela primeira vez, de improvisar. Foi interessantíssimo, porque eles estavam divididos em três grandes grupos: o grupo dos macrotempos, dos microtempos e ainda o da improvisação. O mais importante foi a autonomia que lhes dei para estarem o tempo que quisessem em cada grupo e circular como pretendessem, pelos mesmos. As regras principais foram que tinham de manter a pulsação, que nenhum “posto” podia ficar sem ninguém e que se notassem algum grupo fragilizado, que deveriam estar atentos para irem ajudar, pois o mais importante seria o resultado musical conseguido em conjunto em que seria necessária uma boa coordenação entre todos. O processo foi espantosamente positivo e divertido!
c. Durante uma atividade em que eu estava a tocar piano, houve um
momento em que me enganei e disse calma e propositadamente “desculpem, enganei-me”, retomando naturalmente. Imediatamente notei uma reação geral de perplexidade quanto ao que tinham acabado de ouvir, porém ouviram-se uns risinhos por parte de uns três alunos e eu virei-me para eles e muito serenamente perguntei “aconteceu alguma coisa?“, como não obtive resposta decidi perguntar “estão a rir-se porque me enganei? Estranho! Quando vocês se enganam eu não me rio…”. Claramente não tinham esperado esta minha reação e ficaram repentinamente aflitos e pediram desculpa, o que me espantou bastante face ao que sempre observei deles em aula com a professora cooperante. Respondi então muito calmamente “não faz mal, todos nós erramos” e prossegui normalmente com a aula
29 como se nada tivesse acontecido. Por incrível que pareça, a partir daquele momento senti um maior respeito por parte deles.
d. Durante um dos jogos realizados com o piano eles ficaram entusiasmados
com o facto de poderem aprender melodias de ouvido. Houve uma aluna que disse inclusivamente “professora, assim podemos conseguir tocar em casa músicas que gostamos de ouvir!” à qual respondi “Claro! Todas as aprendizagens são para serem utilizadas no vosso dia-a-dia!”.
4. Deixando-me envolver e levar por toda a energia e entusiasmo dos alunos, na
parte final da aula decidi não avançar para a última atividade que tinha planeado e propus uma atividade (inspirada em Schafer, 2011), que se revelou altamente apreciada: pedi para formarem pequenos grupos e criarem, cada um deles, um ostinato rítmico e/ou melódico (com ou sem movimento). Após o fazerem com grande furor, revelei então como iriam ser utilizados: um aluno iria para a frente da turma para ser o maestro dos grupos e criar uma peça musical com o material musical de cada grupo. Esta atividade teve grande sucesso e muitos queriam ser os maestros, que indicavam entusiasticamente à frente da turma gestos precisos com as mãos, das entradas e saídas de cada grupo, construindo diferentes texturas sonoras. No final de cada peça, pedia uma crítica reflexiva à turma do que achavam ter resultado melhor e o que poderia ser feito para acrescentar novos elementos enriquecedores. Estes debastes permitiram que todos dessem ideias fazendo com que os próximos maestros acrescentassem novas
nuances, de andamento e intensidades, por exemplo.
5. Quando ouvimos o toque de saída, os alunos todos, inclusive aqueles dois que
tinham referido ao início da aula que não havia nada na música de que gostassem, exclamaram “ohhhh” e queriam ficar mais tempo. Eu disse que não fazia mal, pois poderíamos continuar aquele jogo na próxima aula e alguns alunos perguntaram logo se podiam trazer materiais musicais novos e eu respondi que não esperava outra coisa da parte deles, pois estavam de parabéns por todo o trabalho que realizaram.
6. À saída, fiz questão de acompanhar os alunos à porta da sala e despedir-me de
todos, algo que notoriamente estranharam, mas que rapidamente os motivou a simpaticamente me dizerem que tinham gostado muito da aula. Fiquei até surpreendida em ouvir alguns “obrigado professora” e receber alguns beijinhos, pois nem queria acreditar que era exatamente a mesma turma das semanas anteriores.
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