2. CONSTITUIÇÃO E FUNCIONAMENTO DO CONSERVATÓRIO
2.1 Primeira fase: gestão do CMP entre 1971 e 1983
As atividades do CMP foram iniciadas em junho de 1971 em instalação provisória na sede do Clube Cultural Dante Alighieri, à Rua Comendador Miró, nº. 652, no Centro de Ponta Grossa (HISTÓRICO, 1981, 1987, 1993, 1997). Em setembro do mesmo ano, funcionou num prédio de madeira destinado ao CMP e à OSPG anexo ao pátio lateral da Vila Hilda45 situada à Rua Júlia Wanderley, 936, na época, sede da Biblioteca Pública Municipal Professor Bruno Enei (HISTÓRICO, 1981).
A participação do poder público municipal aparece desde esse momento, com a cessão do espaço para o seu funcionamento. Os relatos dos fundadores entrevistados sugerem que havia uma relação de conhecimento pessoal entre alguns integrantes do grupo “Amigos da Música” e o Prefeito Cyro Martins, o que teria impulsionado seu posicionamento em apoio à criação do CMP (KLAS, entrevista 2009; KANAWATE, entrevista 2009; MACHADO, entrevista 2014). A sua fundação oficial ocorreu no ano seguinte, quando passou a funcionar sob a responsabilidade da então Secretaria Municipal de Educação, Esporte e Cultura com a denominação de Escola Municipal de Música Maestro Paulino Martins Alves46(EMM) (PONTA GROSSA, 1972).
No ano de 1972, suas atividades foram iniciadas com 34 alunos e dois professores: Eduardo Strona (violino, viola clássica e violoncelo) e Nádia Politchuk (piano, violino e canto), sob a direção do Maestro Paulino Martins Alves (HISTÓRICO, 1981; KANAWATE, entrevista 2010). Nos dez anos seguintes, a instituição foi organizada e dirigida pelos presidentes e maestros da OSPG em parceria com as Secretarias de Educação do Município sob a responsabilidade direta dos Diretores do Departamento de Cultura. O período compreendeu cinco gestões municipais sob o comando dos prefeitos: Cyro Martins (1969- 1972), Luiz Gonzaga Pinto (1973-1975), Amadeu Puppi (1975-1976), Luiz Carlos Stanislawzuk (1977-1982) e Romeu de Almeida Ribas (1982-1983) (PREFEITOS..., 2014).
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Casarão tombado como patrimônio histórico da cidade, construído em 1926 por Alberto Thielen e que recebe o nome de sua esposa Hilda Thielen. Abriga a Fundação Municipal de Cultura de Ponta Grossa.
46 Esta denominação foi alterada em 1991 para Conservatório Dramático Musical Maestro Paulino Martins Alves. Mais detalhes sobre a mudança de denominação são tratados na página 72. Para fins de padronização de terminologias, no presente texto, optou-se por utilizar a denominação Conservatório Dramático Musical (CMP) sempre que se refere à instituição.
A relação entre o CMP e a administração pública, durante toda essa fase, foi pautada num mecanismo de pressão exercido pelos agentes culturais sobre os agentes políticos em cobrança de apoio e reconhecimento de suas ações. Todas as cinco gestões públicas mantiveram o CMP em funcionamento, entretanto o dotaram de condições de extrema precariedade tanto estruturais físicas quanto em relação à manutenção de instrumentos e remuneração de professores e funcionários.
A precariedade das condições de funcionamento do CMP nessa fase é ratificada em registros documentais e relatos de diretores, professores, funcionários e alunos. Dados pesquisados por Vendrami (2010) demonstram que durante alguns anos as aulas de piano ocorreram na residência da professora Nadia Polistchuk porque o conservatório não possuía um piano. Em 1985, treze anos após sua fundação oficial, o conservatório possuía apenas um exemplar deste instrumento e somente em 1981 a instituição passou a contar com duas funcionárias nos serviços de secretaria e zeladoria(HISTÓRICO, 1987).
Conflitos e dificuldades referentes às instalações do CMP também indicam a sua precariedade estrutural. Nessa fase, o CMP funcionou em quatro diferentes edifícios: primeiramente funcionou de maneira improvisada na sede de um clube social e quando fundado oficialmente, foi instalado numa construção de madeira descrita como inadequada em termos de isolamento acústico, conforme indicado anteriormente (KLAS, entrevista 2009; MACHADO, entrevista 2014). Na sequência, funcionou no porão do prédio que abrigava o Departamento de Esporte e Recreação Orientada, vinculado à Secretaria Municipal de Educação (MAIA, entrevista 2009). Em 1979, o CMP passou a funcionar num prédio de propriedade da Prefeitura Municipal, no qual compartilhava espaço com as sedes da Seicho - Noiê e dos Veteranos da Força Expedicionária Brasileira (RELATÓRIO..., 1983). Apesar de oferecer um espaço mais amplo para as atividades, este prédio possuía graves problemas estruturais a ponto de em 1984 ser interditado devido o risco de desabamento (VENDRAMI, 2010).
No fim da década de 1970 e início da de 1980, os músicos da OSPG buscavam apoio técnico junto a professores e regentes da Escola de Música e Belas Artes do Paraná (EMBAP) - Curitiba. Esses professores – de violino, flauta, clarinete e trompete – eram contratados pela prefeitura municipal para ministrar aulas no CMP e tocar nos ensaios e apresentações da OSPG. Segundo entrevistados, devido ao baixo valor dos honorários recebidos, alguns professores que precisavam pernoitar em Ponta Grossa optavam por dormir em colchões colocados no chão das salas de aula do conservatório para minimizar o custo de estadia em
hotel (FERRONATO, entrevista 2010; KANAWATE, entrevista 2010; SPINASSI, entrevista 2010 citados por VENDRAMI, 2010).
No âmbito pedagógico, o processo de educação musical foi direcionado para a formação técnica47 de músicos, em função da demanda que a OSPG tinha pela formação de instrumentistas de cordas. Era privilegiada a captação de alunos jovens e adultos, visto o objetivo de desenvolver uma formação técnica aligeirada para que estes pudessem integrar a OSPG tão logo adquirissem a capacidade mínima de execução instrumental.
Entretanto, ao fim da primeira década de seu funcionamento, a instituição passou a receber uma nova demanda provinda de outros grupos da sociedade local interessados no aprendizado de música. De acordo com registros encontrados nos Relatórios Anuais do CMP, o número de alunos entre os anos 1975 e 1983 aumentou de 13 para 124 e o número de professores de 2 para 10. O aumento de alunos e professores se deveu à procura do CMP por adultos e adolescentes que pretendiam aprender a executar um instrumento musical (principalmente piano e violão) e que não almejavam tocar na OSPG ou se profissionalizar e, em grande parte, pela busca do aprendizado musical para crianças (FERRONATO, entrevista, 2010; SPINASSI, entrevista, 2010).
A motivação dessa nova demanda para o CMP pode ser atribuída à permanência, entre esses grupos, da noção de valorização do conhecimento musical erudito para a formação social do indivíduo, no caso, almejada especialmente para os filhos. Uma noção que pode ter como referência tanto o desejo de lhes possibilitar uma formação cultural e humana ampla, quanto de desenvolver disposições estéticas e culturais que lhes proporcionem um posicionamento distinto na sociedade. Por se tratar de uma escola de música financiada pelo governo do município, o CMP tornou-se uma opção atrativa, visto que proporcionava acesso gratuito a este mote de conhecimento.
O fator clientela, manifestado como nova demanda para o CMP, acresceu às dificuldades enfrentadas pelo grupo da OSPG em manter o conservatório de música com apoio da administração pública, a necessidade de uma nova conformação pedagógica que não correspondia às suas expectativas de formação musical imediata. Instauraram-se tensões que interferiram no processo educativo que estava estabelecido. Os instituidores do CMP não tinham interesse em formar musicalmente alunos desde a infância e não tinham a necessidade direta de mais do que dois pianistas na orquestra. Em virtude disso, apesar da crescente presença de crianças e adolescentes, além do Coro regido por José Carvalho de Souza a partir
47 O termo formação técnica é utilizado aqui no sentido de aprendizado das técnicas de execução do instrumento musical e não de formação técnica profissionalizante relacionada ao nível médio do sistema nacional de ensino.
de 1981, o CMP não possuía um programa educacional voltado para a musicalização específica a essa faixa etária, oferecendo apenas o ensino do instrumento e aulas de teoria musical48.
Nesse contexto, integrantes do grupo fundador, pais de alunos e professores da EMBAP que prestavam serviços à OSPG e ao CMP, iniciaram um debate sobre a necessidade de uma melhor qualificação de músicos instrumentistas para a orquestra e, ao mesmo tempo, a necessidade de uma formação musical de longo prazo, desenvolvida desde a infância. Esse quadro – aliado à influência de Gerardo Gorosito49, regente e professor da EMBAP com uma concepção de formação musical que integrava o aspecto da execução técnica e também da educação musical desde a infância – desembocou numa nova conjuntura, com a instituição de um novo grupo diretor com uma nova concepção pedagógica.
A ligação de Gerardo Gorosito com a EMBAP, assim como de sua esposa, Haydee Gorosito, graduada em música na instituição, legitimava-os como profissionais respeitados e autorizados no meio musical de Ponta Grossa, bem como frente às autoridades políticas envolvidas, para implantar a nova ordem institucional e pedagógica no CMP. Valendo-se desse prestígio, no ano de 1983 o casal Gorosito articulou a indicação de Thais Ferronato – sua amiga e, na época, frequentadora50 do CMP – e o seu aceite pela Secretaria de Educação e Cultura para o cargo de diretora.
Segundo Ferronato (entrevista, 2010), a mudança no grupo diretor e suas propostas de reformulação estrutural e pedagógica desencadeou uma reação de resistência pelo grupo ligado à OSPG, que julgava ter perdido espaço no conservatório que fundara e com o qual mantivera um vínculo de apoio técnico. O presidente da OSPG à época, em entrevista concedida em 2010, referiu-se a este episódio como “um grande engano que gerou grandes dificuldades para a manutenção técnico-musical da OSPG” (KANAWATE, entrevista 2010). A manifestação de resistência e discordância desse grupo foi marcada pelo afastamento dos
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O Relatório (1983) refere um episódio que ilustra a inadequação da primeira experiência educacional às novas demandas de alunos. No início de 1982, havia 75 alunos inscritos para o curso de teoria musical, sendo a maioria crianças. Foram abertas duas turmas para idades entre 7 e 12 anos e 13 e 18 anos, a disciplina foi chamada de “Iniciação Musical” e foi requerida a contratação de “uma professora”. Como a contratação não ocorreu no decorrer do ano, a disciplina foi assumida por um músico/professor que pertencia ao grupo instituidor do CMP e que se vinculava ao projeto pedagógico inicial. Segundo o Relatório (1983), ao fim do ano letivo, ocorreu uma evasão de cerca de 50% entre os alunos dessas turmas e o motivo registrado foi “não receptividade por parte dos alunos”.
49 O argentino Gerardo Gorosito era regente e organista especializado pela Universidade de Sorbonne (Paris). 50 Taís H. S. Ferronato estudou piano no Conservatório João Batista Julião, em Sorocaba, no Estado de São Paulo. Migrou para Ponta Grossa no ano de 1983 quando passou a frequentar alguns cursos de violoncelo ministrados por professores da EMBAP trazidos pelo grupo da OSPG e que eram abertos para alunos do CMP e demais músicos interessados.
agentes da OSPG das atividades que mantinham no CMP. No quadro de professores do ano de 1984, aparece apenas um dos componentes desse grupo51.