CAPÍTULO 7: CHAPLIN E SEUS FILMES
7.1 Primeira fase, Keystone
Os filmes dessa época ainda não mostravam os aspectos mais sutis de Charlot, ainda que sua personagem já divergisse da de Buster, ele era bem próximo, atuando em peripécias e perseguições pelo cenário.
Serão todos analisados a partir das evidências a respeito da metodologia própria de Chaplin destacada pelo documentário “The Unknown Chaplin”
7.1.1 Charlot tem um Rival (Mabel at The Wheel, 1914)
Chaplin apresenta aqui Charlot em seu estado bruto, parte de seu experimento para testar e refinar sua personagem.
Está mais próximo de um bufão, mas ainda é um clown, vemos ele apanhando e se dando mal tanto quanto na maioria dos filmes, sua forma de brigar e se impor, que se manteria por toda a carreira. O que há de diferente é o figurino. Ele altera entre a saudação com sorriso de sempre e o truque de espetar as pessoas para que abram caminho.
Vale lembrar o que foi mencionado por Dario Fo, o clown não é necessariamente uma criatura dócil e domesticada, ao contrário, ele traz à tona os impulsos mais primários que podem ser agressivos, por que não? Ainda que se trate de comédia, vemos que existe um limite mais elástico do que se supõe normalmente.
Em “O Máscara” (The Mask) com Jim Carrey, no ano de 1994, veríamos no cinema os conceitos de exposição dos desejos ocultos quando usamos a máscara específica do filme. Enquanto a personagem de Jim, Stanley Ipkis buscava justiça, o vilão do filme buscava vingança. Ainda assim, Ipkis roubou um banco para se divertir no clube mais caro da cidade e vingou-se dos mecânicos que o haviam enganado, além de disparar com uma metralhadora em pessoas que tentaram roubá-lo. Como isso é possível em uma comédia? A máscara permite, estabelece um acordo com a plateia e, dentro do universo do filme, a máscara tem o poder
101 de revelar nosso mundo interno, mas também de ser aceita pelos demais. Uma licença poética, é disso que se trata a máscara em geral no teatro, um mecanismo que gera poesia.
Vemos características de Charlot então, que não podem ser negadas, aparecem em maior ou menor intensidade em cada filme e situação. Ele é, antes de tudo, um bêbado; foi assim que tudo começou. Irônico saber que Charles Chaplin raramente bebia, talvez pela consciência que tinha que essa era uma prática de sua personagem e que talvez o fizesse emergir em momentos inoportunos.
Charlot era bom de briga e entrava nelas com maior rapidez e eficiência do que a maioria dos Clowns Augustos do cinema. Era também galanteador, sempre que via uma mulher bonita se apresentava ou insinuava. Era ainda idealista e inconformista, posicionando-se muito ativamente contra injustiças sociais e em aventuras que, muitas vezes, não eram diretamente ligadas a ele. Charlot podia defender causas de alguém que havia apenas conhecido como faz em O Circo ou Tempos Modernos, ou causas ligadas a si mesmo como em O Garoto de Charlot.
No caso desse último, estava bem claramente ligado à sua história particular de vida.
Podemos notar que cada filme feito, com mais ou menos complexidade dramatúrgica, dialoga com questões um tanto difusas entre Charlot e Chaplin, podendo ter grandes acontecimentos e emoções intensas, como também traços de personalidade que, como vimos, são desaconselhados socialmente, mas afloram através do clown.
Nesse filme vemos a atuação clownesca de Mabel, desafiando normas sociais da época, assume o posto como corredora de automóveis quando seu namorado e piloto titular é amarrado pela personagem de Chaplin e seus capangas. Ela briga, morde, distribui tabefes para colocar-se em pé de igualdade com os outras personagens cômicos do filme.
Há também a repetição de temas e situações de maneira aprimorada. No primeiro filme onde a personagem Charlot aparece, ele caminha por uma pista de corrida atrapalhando os pilotos e público, aqui ele novamente está nesse ambiente.
Na época do filme, alguns eventos públicos eram aproveitados pelos realizadores para ambientar seus filmes, poupando com isso muita produção, assim era no início do cinema. Não seria surpresa se a corrida que vemos estivesse de fato ocorrendo, com toda a estrutura tendo sido montada profissionalmente, deixando à Keystone com a única tarefa de levar um carro para suas personagens e encenar sua participação no evento.
102 Teria sido dessa maneira a realização desse filme? Talvez. Em se tratando da época, entretanto, só pode-se supor ou especular, tendo como base alguns relatos resgatados por biógrafos ou membros dos estúdios de cinema. Ao observarmos os filmes munidos dessas descobertas, um processo de engenharia reversa é possível, ainda que não seja simples ou que se possa afirmar com certeza, as hipóteses abrem caminhos muito interessantes para pensar cinema até os dias de hoje.
O filme termina de forma estranhíssima para Charlot, uma derrota total, já que ele em papel de vilão acaba se tornando vítima de suas próprias bombas de fumaça.
A heroína desse filme é Mabel, o que levanta uma questão a mais. Mesmo que, como dito anteriormente, o filme seja de grande importância para investigar a evolução da personagem Charlot que certamente rouba a cena diversas vezes, talvez esse filme seja, na verdade, parte da filmografia da Mabel. Ela teria sido capaz de reconhecer o talento de Chaplin para chamá-lo para ser seu coadjuvante. Em um universo paralelo, isso poderia ter permanecido para sempre, ou talvez, os dois formassem uma dupla fixa como fizeram Oliver e Stanley.
7.1.2 Mabel’s Busy Day (1914)
Charlot y las Salsichas ou Mabel, vendedora ambulante
O filme tem como cenário também corridas de automóveis, levantando a hipótese de que, do ponto de vista de produção, tenha sido realizado no mesmo dia que Charlot tem um Rival.
Era comum na época aproveitar as oportunidades em eventos como esse para minimizar os custos de produção e maximizar o dinheiro ganho com bilheteria.
Nesse capítulo da parceria de Chaplin e Mabel, Charlot não é um vilão e, no início do filme, há imediatamente um paralelo entre eles. Mabel é uma vendedora de
“cachorros-quentes” que ganha a oportunidade de vendê-los na corrida após presentear um policial com um deles. Ao entrar no ambiente da corrida, Mabel começa a ter problemas com os homens ali presentes e a distribuir tabefes. Charlot chega à entrada, fura a fila e ao ser repreendido por um guarda, também desfere tabefes e pontapés.
Enquanto se esforça para fazer vendas, Mabel antecipa a imagem de Gelsomina, de Fellinni, em sua pouca sorte e constante lamento. Charlot, por outro, lado vai experimentando as nuances de seu temperamento. Nesses filmes iniciais é mais possível perceber os seus impulsos mais primários, que o ligam à concepção de
103 clown feita por Dario Fo ou, talvez, até a um bufão. Ele continua importunando as pessoas gratuitamente, guiado por uma ponte direta entre intenção e ação, como vimos em Buster, com a diferença de que Charlot normalmente era sujeito ativo em cena, enquanto Buster era reativo.
Ainda que seja essa uma aparição mais indefinida de sua personagem, pode-se ver Chaplin em exercício e pesquisa sendo um lugar mais confortável de observação para poder entender seu temperamento. Desde o início, Chaplin trazia um misto de importunação pública com as trapalhadas, dava o ritmo da ação ao mesmo tempo que era vítima de situações inesperadas. Esse contraste revela o clown Branco e o Augusto dentro dele, expressando-se através de Charlot.
O encontro com Mabel se dá quando ele, abandonando a atitude do filme anterior, enfrenta um freguês abusivo de Mabel, surrando-o e sendo aplaudido por várias testemunhas, no entanto, ele aproveita a distração dela, rouba um sanduíche e foge.
Bufões e Clowns estão separados por vários séculos na história da humanidade, na Escola de Lecoq, a distância pedagógica entre eles é condensada nos três anos que dura o processo de formação, no trabalho de Chaplin ocorria filme a filme, uma verdadeira jornada de descoberta dos impulsos e refinamento do caráter.
Como se nota aqui, Charlot não é um herói romântico ou que tenha uma atitude irrepreensível. Encontra-se mais com as ideias levantadas por Dario Fo, uma manifestação selvagem e incontrolável, como um sátiro ou um saci, que diverte-se saciando seus desejos, mesmo que causando o infortúnio alheio.
O filme se desenrola com uma confusão generalizada que não respeita autoridade e nem gênero, bem no estilo slapstick, onde Charlot, Mabel e o policial lutam, cada um com suas armas para defender os próprios interesses em uma cena que apesar de envolver muita técnica corporal, não era uma luta coreografada, mas improvisada dentro das convenções de estilo.
Pode-se perceber que cada personagem busca cumprir seu objetivo enquanto reagia às ações dos outros. Uma improvisação que como visto, depende da capacidade técnica e de construção de personagens de tal forma que só poderia na época ser realizada por atores treinados pelo Vaudeville.
Charlot vai até o final do filme transitando rapidamente pelas diferentes emoções, chegando ao choro em certo ponto, fortalecendo a ideia de que esse é um bom filme para notar a experimentação e o estudo de personagem em cena que ele
104 fazia. Um filme de processo criativo que ao ser colocado em perspectiva com os tempos de hoje, pode assumir um caráter documental.
7.1.3 Mabel’s Married Life
O desenvolvimento de Charlot com sua parceira mais próxima em temperamento.
Dois clowns em cena, um homem e uma mulher, em uma época onde isso não ocorria no circo.
Mabel é uma presença notável, por ter por si só uma extensa filmografia como roteirista, diretora e atriz, tendo colaborado com Roscoe Fatty Warbucke, Stan Laurel e Oliver Hardy.
Uma pesquisa detalhada sobre Mabel e sua marca na história do cinema pode servir muito a novas gerações de realizadores, em busca de encontrar mulheres pertencentes à história do cinema.
É evidente que um olhar detalhado também deve ser feito sobre a obra de diversos nomes aqui citados, mas acredito que um trabalho sobre Mabel seria altamente ligado a ideia de antropologia ou arqueologia do cinema.
Ela foi também de vital importância no início da carreira cinematográfica de Chaplin. Ocorre que ela era casada com Mack Sennet, e após a primeira experiência de Chaplin no cinema, vista com desagrado pelo dono do estúdio, foi Mabel quem insistiu a dar uma nova oportunidade a ele, estreando seu pequeno vagabundo em “Corrida de Carros para Meninos”.