2 ESBOÇO HISTÓRICO DO DAOISMO NO BRASIL
2.1 Primeira onda do Daoismo no Brasil: elementos implícitos e difusos do
Sabemos que há a presença de atores sociais chineses ou elementos culturais chineses no Brasil há alguns séculos. Existem chineses no Brasil desde a época colonial de forma dispersa, já que, pode-se falar da relação entre Portugal, Macao e Brasil através da rede colonial formada pelos lusitanos. Desde 1812 há presença chinesa como um grupo oficial de imigrantes à comando do rei de Portugal (Leite, 1999; Apolloni, 2004). Já um dos primeiros sociólogos brasileiros, Gilberto Freyre (1951, 2013), apontava certa influência “oriental” no Brasil desde o período colonial, sobretudo por objetos chineses. Inspirado também em Freyre (1951, 2013), o historiador da arte José Leite (1999) fez uma tese em que cataloga e explica a presença de culturas chinesas por aqui. Neste trabalho, Leite (1999) dá ênfase no momento colonial no Brasil. Isso se deu porque ele acredita que a influência chinesa na cultura brasileira vai do início da colonização até por volta da metade do século XIX, abrangendo costumes, farmacopeia, objetos, influência na arquitetura, entre muitos outros elementos. No século XIX a fonte cultural chinesa começa a perder força aqui, e culturas europeias, como da Inglaterra, se tornam nosso ponto de referência.
Ainda que, segundo Robinet (1997, p. 184, tradução minha), o “Daoismo é um repositório precioso da cultura chinesa”27, nem Freyre (1951, 2013) nem Leite (1999) apontaram presença significativa de elementos propriamente daoistas. No que concerne a referências institucionais ao Daoismo entre a comunidade chinesa, não encontramos registros em trabalhos acadêmicos brasileiros. Contudo, uma ressonância dessa influência “oriental” no Brasil colonial pode ser uma curiosidade orientalista por um “Oriente” exótico e atrativo
vindo de parte de escritores da literatura brasileira, desde o final da Monarquia (1822-1889), onde elementos chineses estão inclusos (Coelho, 1981, p. 770-772).
No Brasil, como os cientistas da religião Murray e Miller (2013, p. 97) lembram, não encontramos histórico de grupos de estudo acadêmicos orientalistas brasileiros. Todavia, segundo o antropólogo José Guilherme Magnani (2000, p. 16), grupos ocultistas e esotéricos “já existiam por aqui, de longa data: [...] pode-se com certeza afirmar que algumas sociedades iniciáticas estão presentes no Brasil desde pelo menos o século XVIII”, como a maçonaria. Para Bizerril (2007, p. 38) foram estes movimentos esotéricos – como a Teosofia – que “pavimentaram o caminho para a posterior vinda de mestres e difusão de seus ensinamentos” de origem asiática. Bizerril (idem) chega a afirmar que a difusão de elementos com origem em tradições religiosas asiáticas “na cultura religiosa brasileira já tem quase um século”. Esse espaço aberto pelos grupos esotéricos para a entrada de tradições chinesas no Brasil se deu através de um interesse orientalista num vago e exótico “Oriente” (Said, 1990).
Dentre essas primeiras formas de difusão de elementos daoistas no Brasil, ainda não foi citada a influência e/ou inspiração daoista na obra do escritor João Guimarães Rosa. Como fonte primaria há a entrevista concedida a Günter Lorenz (1983, grifo nosso) onde Guimarães Rosa diz: “Eu não sei o que sou. Posso bem ser cristão de confissão sertanista, mas também pode ser que eu seja taoísta à maneira de Cordisburgo, ou um pagão crente à la Tolstoi”. Tal comentário, no mínimo, sugere que ele teve contato indireto com o Daoismo! Sabendo da fluência desse escritor em muitas línguas – como o alemão, numa época de orientalismo efervescente da primeira metade do século XX – e do seu ofício de diplomata, pode-se inferir que ele deve ter lido o Dàodé jīng ou o Yìjīng. Essas obras, tidas pelos daoistas como sagradas, foram traduzidas para idiomas europeus desde o século XIX pelos chamados orientalistas, que muitas vezes eram cientistas da religião28.
A relação de Guimarães Rosa com o Daoismo, e, na verdade, com toda uma mística cristã, zen budista e daoista foi estudada no livro João Guimarães Rosa: Metafísica no Grande Sertão de Francis Uteza (1994). Neste livro, evidencia-se a relação que o escritor sertanejo tem com uma “mística daoista”, mais estritamente dos clássicos proto daoistas. Outros autores têm apontado o impacto de leituras de textos espirituais e esotéricos advindos de grupos Rosa Cruz, Maçonaria (Santos, 2007), e, sobretudo do Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento ou esoterismo paulista (Pereira, 2008) neste escritor. É notável a
28 Interessante notar que Max Müller, fundador da Ciência da Religião, ficou mundialmente conhecido por ter
traduzido pela primeira vez os Vedas indianos. Tais empreitadas foram comuns no início da história da dessa disciplina na Europa do século XIX, bem como por outros intelectuais europeus.
possível metáfora poética presente em um título de uma das suas grandes obras: Grande sertão: veredas, escrito em 1956. Sendo que o termo veredas pode ser usado para traduzir o termo tao (Dào), esse jogo de palavras é no mínimo curioso, apontando várias possibilidades interpretativas.
Nesse sentido, já nos anos de 1950 pode-se dizer que, de forma bastante indireta, temos registros de reverberações ou ecos do Daoismo no Brasil na literatura rosiana, com influências esotéricas. Sobre as influências esotéricas, uma questão deve ser trazida à tona: a relação entre esoterismo e a formação dos estudos científicos sobre religiões, com ênfase em religiões asiáticas. Hanegraaff (1996, p. 442-462) chama a atenção para o impacto do esoterismo “ocidental” para o surgimento dos estudos sobre religiões. Ele acredita que a crítica iluminista ao cristianismo, e o relativismo histórico associado a reação contra- iluminista, são fatores fortemente relacionados à emergência e autonomia do estudo acadêmico e comparado das religiões.
Um dos grupos europeus esotéricos/ocultistas do século XIX tem como marca, justamente, atitudes de crítica ao cristianismo oficial e a busca pelo estudo de outras religiões: a Teosofia, sobretudo a partir de H. Blavatski. Hanegraaff (1996) mostra, então, como há influências diretas do pensamento esotérico moderno (ocultismo) nas primeiras obras da Ciência da Religião. Nesse sentido, ainda que no Brasil realmente não houvessem grupos orientalistas acadêmicos, e até hoje há poucos, os grupos esotéricos aqui presentes há séculos – os que foram citados acima, – podem ser vistos como uma forma de grupo de estudos orientalistas no Brasil. Concordamos com a visão do antropólogo Jorge de Carvalho (1994, p.75), quando afirma: “já há uma leitura aí, por mais precária que ela seja, de uma diversidade que não é mais aquela diversidade da matriz primeira, mas uma expansão da religiosidade local a mundos, especial e temporalmente, extremamente distantes”, como as das religiões asiáticas, sejam hindus, chinesas, etc.
O último elemento que levantamos dentro dessa primeira onda de contato cultural entre Daoismo e cultura brasileira, é a presença de elementos daoistas avulsos entre a cultura trazida pelos imigrantes japoneses no Brasil. Apesar de ser pouco expressiva a existência de Daoismo institucional ou missões daoistas no Japão, o cientista da religião Yin Zhihua (2005, p. 175-176) afirma existir livros, técnicas de longevidade, e templos para divindades daoistas como Māzǔ, Guān Yǔ (= Guān Dì) e deuses da cozinha em várias ilhas hoje pertencentes ao
Japão, como Okinawa, desde o século VII. Independente da presença mais distinta e institucional é notável a influência dessa tradição na cultura japonesa29 (Bokenkamp, 2005).
O início da imigração japonesa no Brasil ocorreu oficialmente em junho de 1908. O processo dessa imigração passou por várias ondas até uma assimilação e comodificação mais concreta dos imigrantes e seus descendentes na cultura brasileira (Shoji e Usarski, 2009). Elementos daoistas, como símbolos ou cosmovisões avulsas, estão presentes em religiões japonesas – Budismo, Xintoísmo e manifestações populares – e em outros fenômenos, como artes marciais. Destarte, assim como os grupos esotéricos, acreditamos que a presença significativa de japoneses, seus descendentes, e sua cultura, ajudaram a abrir espaço para o Daoismo ao público brasileiro.
2.2 – Segunda onda do Daoismo no Brasil: difusão informal e indireta a partir da década