Breve introdução à Teoria de Gaia 2
PRIMEIRA PARTE: A CONTEMPLAÇÃO DA NATUREZA 8
Comecemos então tão árdua tarefa, não sem antes anotar este critério:
Fazemos nossas as palavras de Kirk, Raven e Scofield9, ao dizerem, acertadamente que:
8 Ao fim e ao cabo, o que se pretende, nas palavras de THOREAU, pode definir-se, essencialmente como: “Quero dizer algumas palavras em nome da Natureza, da liberdade absoluta e do estado selvagem, por contraste com a cultura meramente civilizadas, no intuito de ver no Homem um habitante, uma parte ou uma parcela da Natureza, e não um mero membro da sociedade. Pretendo fazer declarações muito duras, senão mesmo categóricas, pois já há muitos paladinos da civilização: os padres, as congregações escolares e todos vós se encarregareis da tarefa.” (Henry David THOREAU, Caminhada, Lisboa: Antígona, 1012).
9 G. S. KIRK, J. E. RAVEN e M. SCOFIELD, Los Filósofos Presocráticos – Historia Crítica com Selección de Textos, Versión Española de Jesús GARCÍA FERNÁNDEZ, Edición Revisada, Editorial Gredos S.A., Madrid, 1987, pág. 287 e ss., que se citará sempre como KIRK et al, op. cit., págs …;
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“Os primeiros intentos completamente racionais por descrever a Natureza do mundo tiveram lugar na Jónia (…). Enquanto estes (Os Milésios) sentiram-se impulsionados por uma curiosidade intelectual e a insatisfação com as velhas versões mitológicas, num intento por procurar uma sistemática explicação física dos fenómenos físicos, o impulso subjacente ao pitagorismo foi de ordem religiosa e os eleáticos Parménides e Zenón propuseram paradoxos metafísicos que destruíram, de raiz, a crença na existência mesma do mundo natural. O único pensador importante que continuou no ocidente a tradição jónia de investigação sobre a natureza, de um modo similar ao seu espírito foi o filósofo siciliano Empédocles. Apesar de tudo, experimentou uma poderosa influência tanto do pensamento pitagórico como do de Parménides. O seu sistema está mascarado por preocupações metafísicas e religiosas, assim como por uma imaginação audaz (para não dizer fantástica), extraordinariamente pessoal. (…) Por sua vez, Pitágoras é o arquétipo do filósofo considerado como sábio, que ensina aos homens o significado da vida e da morte, e Parménides é o fundador da Filosofia, entendida não como investigação de primeira ordem sobre a natureza das coisas (o que actualmente constitui a parcela da ciências naturais”.
Embora seja Filosofia, já não é pura e simples contemplação (qua tale) da Natureza, tal como o fizeram os primeiros Jónios, tal como Tales de Mileto, Anaxímenes, Anaximandro10 e Heráclito. Daí poder dizer-se que pode dizer-se que, em último lugar, a direcção de Heráclito não foi seguida, ou como dizem os mesmos autores11:
10 Werner JAEGER, na sua La Teología de los Filósofos Griegos, Fondo de Cultura Económica, México – Madrid – Buenos Aires: 1947: “No pórtico da filosofia levantam-se três veneráveis figuras…”, refere, a pág.s 24, “…Tales, Anaximandro e Anaxímenes. Desde os tempos de Aristóteles sempre encontrámos estes homens formando um grupo de físicos ou filósofos da natureza. Se bem que é certo que em anos posteriores outros pensadores houveram de inclinações semelhantes, estes três seguem sendo preeminentes no seu género e notoriamente formam um grupo unificado. Até pelo seu local de origem se encontram reunidos:
todos são filhos de Mileto, a metrópole da Ásia Menor grega, que havia alcançado o topo do seu desenvolvimento político, económico e intelectual durante o século VI. Foi aqui, no solo colonial da Jónia, onde o espírito grego forjou as duas concepções gerais do mundo que deram origem a uma parte da épica homérica e de outra parte a filosofia grega. Podemos, naturalmente, mostrar que os gregos da Ásia Menor entraram num contacto muito estreito com as velhas culturas do Oriente no comércio, na arte e na técnica; e sempre haverá alguma
“No intervalo, floresceu (a Filosofia) com os eleáticos, com Sócrates e com Platão uma nova tendência encaminhada à repulsa da natureza”.
Ora, estando nós, na primeira parte desta Tese, virados para uma análise contemplativa da Natureza nos antigos gregos, não será surpresa que dediquemos as próximas páginas a, nomeadamente, Tales, Anaximandro, Anaxímenes e Heráclito de Éfeso, sem considerações que evitaremos estanques mas que permaneçam ao longo da obra, evitando desde já mais delongas e especulando um pouco sobre o já pouco que se sabe sobre os investigadores Jónios.
O pensamento grego, do qual provém toda a civilização da europa, constitui de tal forma o pensamento dominante da história humana que a maior parte das vezes nos referimos a ele como se a consciência nunca tivesse conhecido outros triunfos.
Identificada durante vinte séculos com a “civilização”, a “nossa” civilização, encontrava-se, com efeito em vias de conquistar o mundo quando os turbilhões dos nacionalismos as reivindicações de outros tipos de pensamentos vieram lembrar que a Natureza do Europeu não é a do Árabe nem a do Asiático ainda12.
Se o Espírito afrouxa na sua tensão íntima, o contributo exterior não serve de nada, o próprio saber adquirido perde-se e a magia recupera a razão que se submetera.
disputa acerca do grau em que contribuiu esta influência no desenvolvimento intelectual da Grécia. Não é difícil imaginar quão ficou impressionado o sensitivo espírito dos gregos pelos variados mitos orientais acerca da criação e pela tentativa babilónia de conectar todos os acontecimentos terrestres com as estrelas. Quem sabe poderemos rastrear inclusivamente na teologia de Hesíodo certas reacções às especulações teológicas dos orientais, especialmente nos mitos da primeira mulher e de como vieram à terra o pecado e o mal“. Mas fiquemo-nos pelo trio do princípio desta divagação: Tales, Anaximandro e Anaxímenes e a sua ratio filosófica.
11 Id., pág. 285.
12 LENOBLE, op.cit., pág. 54.
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A primeira ideia que os homens formaram da Lei – por oposição (ou alternativa?) à Magia, terá sido uma ideia moral, mais adequada a uma moral horrivelmente atormentada, pela culpabilidade e pelo temor.
“Livres, os Gregos souberam fundar cidades, desembaraçar-se dos tiranos e conceber que não há liberdade sem lei. Foi o começo do milagre. A regra estabelecida pelos sociólogos, segundo a qual uma representação coerente do mundo pressupõe uma sociedade organizada, encontra no caso deles um exemplo magnífico. O Cosmos de Aristóteles seguiu a cento e cinquenta anos de distância as leis de Sólon”13
Mas tanto para Homero como no pensamento mágico, os “factos físicos” ainda não fazem propriamente parte do vocabulário do céu.
“No complexo mágico é antes de mais a atitude da consciência que deveria ser reformada - era preciso que a alma deixasse de ser o lugar de passagem de forças estranhas, que ganhasse uma certa consistência para conquistar o direito de descobrir, na Natureza, “factos” definidos e uma ordem objectiva. A ciência permanece obscura, mas a sua moral civiliza-se e ganha liberdade. O seu pragmatismo astuto anuncia já o do bondoso La Fontaine: e se o Mar mantém a sua divindade, trata-se de uma divindade que o marinheiro e o fabricante de navios começa a valorizar (…) Esta ideia não nasceu também no tempo das ciências prósperas da Grécia, onde a magia social só se dava por vencida rigorosamente pela magia espontânea, quando sobreveio a provação.14”
Mas o mito, as divindades gregas nos seus jogos com os mortais, fizeram, séculos largos, espólio cultural, moral, ético, artístico e até militar das diferentes figuras imperiais gregas, até a uma certa emancipação socrática que veremos
13 LENOBLE, id., ibid.
14 Id. Ibid., Pág.. 55, 56.
depois deste breve, mas julgamos que, a título introdutório, de utilidade geral para esta tese.
A filosofia Pré-Socrática e a sua relação com a Filosofia da Natureza
A Natureza como “eterno retorno”. Nesta, tudo nela surge e tudo a ela regressa, conferindo-lhe uma característica de unidade, constitutivo do próprio Ser e única lei que rege soberanamente o devir das coisas naturais.
Uma
“reflexão sobre a Natureza feita pelos filósofos pré-socráticos que somo obrigados que estamos perante um momento do pensamento racional único e iniciático (…) que nos remete para a consciencialização da entre o humano e a Natureza” – não é possível interpretar nem compreender o ser humano sem que não se tenha compreendido, tornado compreensível, a Natureza.
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Nesse aspecto, as Escolas de Mileto e de Eléia. O pensamento dos filósofos da Ásia Menor, tem algo a ver com a sua leitura de Homero e Hesíodo, nomeadamente.
Os Milésios vão encetar uma racionalização da Natureza, vendo-a através de um espírito crítico, um mundo natural único e susceptível de racionalização, não apenas de interpretações despidas de preocupação com esta e o ser humano.
Segundo Jaeger15,
“No pórtico da filosofia levantam-se três veneráveis figuras, Tales, Anaximandro e Anaxímenes. Desde os tempos de Aristóteles sempre encontramos estes nomes formando um grupo de físicos ou filósofos da natureza”.
15 Werner JAEGER, La Teologia de los Primeros Filosofos Griegos, Fondo de Cultura Económica, Madrid, 1977, pág.s 24 e ss.
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Serão objecto de estudo mais ou menos superficial posterior, já que esta é uma tese, basicamente – embora multidisciplinar – de sociologia e direito, num contexto introdutório filosófico, sobre a Natureza, num contexto, para já e primordialmente, Jónio. Continuemos.