A primeira ação internacional da Unesco para a preservação do patrimônio é de 195945, quando foi criada uma campanha internacional para arrecadar fundos para o templo de Abu Simbel, no vale do rio Nilo, Egito. A ação, realizada a partir de pedidos oficiais dos governos do Egito e do Sudão, foi tão bem-sucedida que originou outras, em Veneza, no Paquistão e na Indonésia. Além disso, ali foi elaborado um rascunho da convenção que aconteceria treze anos depois.
Nesse primeiro momento, o Iccrom tinha uma participação bastante intensa, incluindo a participação em campo de seus diretores e principais especialistas. No caso egípcio, em que participaram diretamente o diretor Plenderleith e um de seus principais especialistas, Paolo Mora. Toda uma área monumental no vale do rio Nilo estava ameaçada pela construção de uma represa (de Assuã), cujas obras começaram em 1960.
Por conta da inevitável inundação, monumentos foram realocados para áreas mais altas.
A Unesco iniciou contato com o governo do Egito em 1956, para o processo de realocação e também para a criação do Centro de Documentação e Estudos da História da Arte e Civilização do Egito Antigo, implantado na cidade do Cairo. O Iccrom se envolveu no projeto em 1959, após um convite formal do governo egípcio. Essa foi a primeira vez em que a organização foi reconhecida como a autoridade a ser consultada em casos como esse.
Além do suporte técnico, foi também realizada uma campanha, pela Unesco, para angariar recursos para a realização dos trabalhos. A campanha acionou todos os países membro da ONU, com diversas ações para coleta de doações.
08_Selos emitidos como parte da campanha Unesco para Abu Simbel (em 1960, Marrocos e Argentina).
45 Cf. Unesco, 2008.
A missão específica para o vale do Nilo e a salvaguarda dos monumentos núbios foi seguida por outras missões, que envolveram consultorias a outros sítios no país, além do monitoramento das ações implantadas em 1959.
O segundo grande projeto em que o Iccrom entrou como a equipe de campo da Unesco foi a série de enchentes que atingiu as regiões italianas da Toscana e do Vêneto.
During the first days of November, Tuscany and Venetia were devastated by floods of extraordinary magnitude and violence. The damage has been enormous. To the toll in human lives and the loss of property were added the destruction, in Florence and Venice, of creations of the human spirit which made the enchantment of the culture and art of living that Italy has given to the world.
In all, 885 works of art of the first importance, 18 churches and some 10.000 other objects have suffered. Seventy libraries and learned institutions have been stricken. More than 700.000 volumes of archives comprising some 50 million items, of which 10.000 were of inestimable historical and scientific value, have been damaged. (apud Jokilehto, 2011, p. 34)
Tal foi o apelo do diretor-geral da Unesco, René Maheau no dia 2 de dezembro de 1966, quando foi lançada uma campanha internacional pedindo doações para a salvaguarda de Florença e Veneza46.
A campanha foi um sucesso e permitiu a criação de um fundo para emergências voltado à arte e arquivos italianos. Mais do que isso, foi o início do estabelecimento de uma equipe de emergência no Iccrom. Nos primeiros dias após as cheias houve uma resposta rápida de ajuda, porém em ações confusas e desconexas (alguns lugares tinham vários técnicos, outros nenhum ou faltava equipamento, etc.). Após a formalização do pedido de ajuda do governo italiano ao Iccrom, o centro assumiu a coordenação das ações, baseados em dois princípios: orientar técnica e cientificamente as ações; e orientar o planejamento e organização para todos os trabalhos de restauração e conservação. Sendo que a principal ação da equipe foi a de desenvolver um plano geral de resgate das obras afetadas, incluindo a organização dos fluxos de informações.
46 Tal campanha foi lembrada em exposições realizadas em Florença e em Veneza em 2016. Destaque para o projeto ‘Firenze 2016’, que pretende conscientizar a população e instituições para a necessidade da realização e implantação de planos de emergência voltados não só às pessoas, mas também ao patrimônio cultural.
09_O Iccrom coordenou as equipes internacionais de resgate da Unesco na enchente de 1966 que atingiu as regiões italianas da Toscana e do Vêneto.
Na foto, o Museu de Bargello, Florença, com documentos em processo de recuperação.
A situação em Florença foi controlada mais facilmente, pelo fato da enchente ter provocado danos pontuais. O caso de Veneza era mais complicado, considerando que toda a cidade havia sido afetada. Por isso, a equipe do Iccrom continuou envolvida em ações de salvaguarda por vários anos depois do momento inicial de resgate.
Ressaltamos também a ação para o templo de Borobudur, na Indonésia.
Um dos maiores templos budistas do mundo, a Unesco iniciou uma campanha internacional em 1972, para a sua restauração. O projeto teve a contribuição de 27 países, e as obras foram realizadas com êxito e entregues em 198347.
Essas campanhas contribuíram em diversos aspectos para a consolidação da atuação da Unesco – e de sua parceria com o Iccrom. Em primeiro lugar, conseguir estruturar um centro especializado que pudesse atender a diferentes situações. Apesar do Iccrom trabalhar basicamente com profissionais italianos (as exceções eram o diretor, o britânico Plenderleith, e seu assistente, o belga Paul Philippot), os trabalhos eram sempre realizados em conjunto com equipes locais, contribuindo para garantir uma continuidade dos processos. Por fim, as campanhas de doações contribuíram muito para a divulgação dos trabalhos realizados pelo Iccrom. Isso garantiu que seus associados aumentassem gradualmente, ampliando a rede de técnicos em todo o mundo48.
47 Em 1991, o templo era inserido na Lista do Patrimônio Mundial.
48 O Brasil era um Estado associado desde a criação do Iccrom. Em 1968 houve a primeira adesão de uma
A Convenção de 1972
Outro momento importante aconteceu em Washington, EUA, em 1965.
Nesse ano, foi organizada uma conferência na Casa Branca que propôs a criação de um fundo para o patrimônio mundial, que pretendeu estimular a cooperação internacional na proteção de áreas naturais e sítios históricos ao redor do mundo e contribuiu para a consolidação do alargamento do conceito de patrimônio. De tal forma que, no documento final da Convenção de 1972, foram consideradas três categorias de sítios: áreas naturais, áreas culturais (históricas) e áreas mistas (que combinariam as duas anteriores)49.
E então chegamos a 1972, Paris, Convenção para a Proteção do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural50. A convenção colheu os frutos de um debate sobre um patrimônio que seria de interesse global que havia começado no período entre guerras, com a Sociedade das Nações. Em 16 de novembro de 1972, a conferência geral da Unesco, que se reunia em Paris, adotou a Convenção sobre a Proteção do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural, que criou o mecanismo de reconhecimento de um patrimônio que seria mundial, com a inscrição de bens um uma lista pública.
A Lista do Patrimônio Mundial (daqui para frente, simplesmente Lista) foi criada na Convenção e em 1976 foi implantado o Fundo do Patrimônio Mundial, também previsto no documento. A partir desse ano, a Lista começou a ser operacionalizada e estruturada, com as primeiras candidaturas aceitas em 1978, com doze sítios inscritos.
Os doze pioneiros foram três europeus, seis americanos e três africanos51. Em 2016, a Lista contava com 1.052 sítios inscritos, sendo sua distribuição pelo mundo a seguinte: África, 90; Estados Árabes, 81; Ásia e Pacífico, 246; Europa e América do Norte, 498; América Latina e Caribe, 137. A Itália é o país com o maior número de sítios inscritos na Lista, com
instituição brasileira, o Museu de Arte Contemporânea (MAC) da Universidade de São Paulo.
49 O brasileiro Renato Soeiro representou o Brasil na reunião preparatória realizada em abril de 1972, no Comitê Especial de Peritos Intergovernamentais, do qual foi indicado para ser vice-presidente. Nessa reunião houve uma disputa sobre o peso que seria dado aos patrimônios cultural e natural e Soeiro teve um papel importante para equilibrar a representatividade de todos (cf. Azevedo, 2016).
50 Apesar de existirem diversas traduções da Convenção se referindo a ela como “Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio”, utilizaremos aqui a nomenclatura da tradução brasileira do manual de referência da Unesco sobre Gestão do Patrimônio Mundial Cultural, editada pelo Iphan em 2016, que adotou “Convenção para a Proteção do Patrimônio”. Também é dessa edição a adoção de “diretrizes operacionais” para as guidelines Unesco, que serão abordadas mais adiante.
51 1 na Alemanha, 2 no Equador, 2 na Polônia, 1 no Senegal, 2 no Canadá, 2 nos Estados Unidos e 2 na Etiópia. Todos permanecem na Lista até hoje, sendo que um na Etiópia encontra-se na lista de Patrimônio em Perigo (parque nacional Simien).
51 bens reconhecidos como patrimônio da humanidade. A lista de Patrimônio em perigo contava com 55 sítios inscritos52.
É importante fazer uma ressalva aqui para além de uma nota de rodapé.
A divisão por regiões apresentada é a oficial do Centro para o Patrimônio Mundial (World Heritage Center, WHC). Baseado nessa divisão são feitas todas as estatísticas e planejamento do órgão. Se a união de Ásia e Pacífico e a separação dos Estados Árabes da Ásia se justifica por questões culturais e civilizatórias, o mesmo não se pode dizer da Europa somada à América do Norte. Inclusive pelo número de bens inscritos: na América do Norte são 41 contra 457 europeus. Isso sem considerar que parte dos bens presentes nos EUA estão vinculados ao período da presença espanhola nas Américas. Essa questão será retomada na parte III, ao tratar das estratégias globais Unesco.
A relação dos pioneiros mostra um percentual de sítios americanos que está muito longe do que é a realidade do número total de inscritos hoje. Tal fato indica a proximidade desse primeiro grupo às ações da ONU. Também a intenção era a de marcar uma posição, em especial no que diz respeito aos sítios localizados na América do Norte, e encorajando os países membro da ONU a aderirem à Convenção do Patrimônio Mundial.
O processo para ingresso na Lista se dá em quatro fases. Na primeira, o sítio é inscrito na lista indicativa do respectivo país. Essa lista apresenta os sítios que determinado país pretende candidatar a Patrimônio Mundial nos próximos cinco a dez anos. Após essa declaração de intenções, o país pode elaborar o processo de candidatura, que é realizado com o apoio do Centro Unesco para o Patrimônio Mundial (o WHC) Após o processo pronto, ele será avaliado pelas instituições de apoio – o Icomos, o Iccrom e a IUCN. A avaliação das instituições é então encaminhada ao Comitê do Patrimônio Mundial, que se reúne anualmente, onde o pedido é avaliado.
O processo é realizado a partir de dez critérios de seleção, sendo que o sítio candidato deve se enquadrar em ao menos um deles. Os critérios alterados em 2004 e em vigor em 2016 são os seguintes:
52 A distribuição em regiões da lista de Patrimônio em Perigo em junho de 2016: 17 África, 21 Estados Árabes, 6 Ásia e Pacífico, 4 Europa e América do Norte (sendo 1 nos EUA) e 7 América Latina e Caribe. O WHC mantém estatísticas atualizadas em seu site: <www.whc.unesco.org>
(i) Represent a masterpiece of human creative genius;
(ii) Exhibit an important interchange of human values, over a span of time or within a cultural area of the world, on developments in architecture or technology, monumental arts, town-planning or landscape design;
(iii) Bear a unique or at least exceptional testimony to a cultural tradition or to a civilization which is living or which has disappeared;
(iv) Be an outstanding example of a type of building, architectural or technological ensemble or landscape which illustrates (a) significant stage(s) in human history;
(v) Be an outstanding example of a traditional human settlement, land-use, or sea-use which is representative of a culture (or cultures), or human interaction with the environment especially when it has become vulnerable under the impact of irreversible change;
(vi) Be directly or tangibly associated with events or living traditions, with ideas, or with beliefs, with artistic and literary works of outstanding universal significance. (The Committee considers that this criterion should preferably be used in conjunction with other criteria);
(vii) Contain superlative natural phenomena or areas of exceptional natural beauty and aesthetic importance;
(viii) Be outstanding examples representing major stages of earth’s history, including the record of life, significant on-going geological processes in the development of landforms, or significant geomorphic or physiographic features;
(ix) Be outstanding examples representing significant on-going ecological and biological processes in the evolution and development of terrestrial, fresh water, coastal and marine ecosystems and communities of plants and animals;
(x) Contain the most important and significant natural habitats for in-situ conservation of biological diversity, including those containing threatened species of Outstanding Universal Value from the point of view of science or conservation. (Unesco WHC, documento WHC.15/01, p. 16-17)
Outro mecanismo importante da Convenção do Patrimônio Mundial é a lista do Patrimônio em perigo. Os sítios reconhecidos como patrimônio mundial podem
ser inseridos nessa lista, que dá acesso imediato a assistência, seja do fundo, seja do centro para o patrimônio mundial. Os motivos que podem levar um sítio à lista do Patrimônio em perigo vão desde conflitos armados e guerras na região, catástrofes naturais, poluição, crescimento urbano ou uma atuação turística não regulamentada. Esse mecanismo permite não apenas o acesso a recursos da Unesco, mas principalmente funciona como um alerta à comunidade internacional sobre a situação de determinado bem.
Além das duas listas, o Centro Unesco para o Patrimônio Mundial atua com ações de apoio à formação técnica (principalmente com o apoio do Iccrom) e de divulgação, incluindo ações de valorização do patrimônio com público jovem.
Em um primeiro momento, a Unesco – cuja sede é em Paris – contava com agências de suporte às suas ações, com escritórios baseados na Itália, Noruega, Canadá, Inglaterra e Suíça, para além das agências de apoio nominadas na Convenção de 1972. Hoje, dentro das estratégias globais da Unesco, existe uma rede de suporte muito mais ampla, que busca contato direto com as mais diversas realidades. Essa rede é formada por instituições que possuem diversos graus de vínculo com a Unesco, englobando escritórios regionais, comitês nacionais, institutos e centros especializados, bibliotecas associadas e cátedras universitárias53. Por fim, mantem uma linha de publicações, quase inteiramente acessível online.
Dessa forma, busca atuar de maneira ampla na preservação, abrangendo diversas ações. Vale também destacar que, juridicamente a responsabilidade pela preservação recai sobre os países onde os sítios se encontram54. Logo, a atuação da Unesco na preservação se centra em atividades que não contemplem a intervenção direta no bem, mas que buscam contribuir decisiva e positivamente para sua preservação. O que reforça ainda mais a necessidade de atuar dentro de uma rede com organizações locais.
53 Ressalta-se que essa rede não é exclusiva para uma atuação com questões do patrimônio mundial. Em 2016 eram 54 escritórios regionais e 199 Comitês Nacionais. As cátedras universitárias têm como objetivo estabelecer pontes entre o âmbito acadêmico, a sociedade civil e comunidades locais.
54 Convenção do Patrimônio Mundial (1972), parte II – Da proteção nacional e proteção internacional do patrimônio cultural e natural, artigo 4º: “Cada um dos Estados parte na presente convenção deverá
reconhecer que a obrigação de assegurar a identificação, proteção, conservação, valorização e transmissão às gerações futuras do patrimônio cultural e natural referido nos artigos 1º e 2º [com a definição do que é patrimônio cultural e natural] e situado no seu território constitui obrigação primordial. Para tal, deverá esforçar-se, quer por esforço próprio, utilizando no máximo os seus recursos disponíveis, quer, se necessário, mediante a assistência e a cooperação internacionais de que possa beneficiar, nomeadamente no plano financeiro, artístico, científico e técnico.”
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A Convenção só veio reforçar – e estruturar – a rede que já se encontrava em operação em prol da preservação do patrimônio. A partir da Carta de Veneza de 1964 – e da Convenção de 1972 –, começaram a ser realizadas reuniões de maneira muito mais intensa, com a divulgação de diversas cartas específicas a diferentes realidades em todo o mundo.