2.PROGRAMAS RELACIONADOS ÀS PRÁTICAS CORPORAIS: BALANÇO BIBLIOGRÁFICO
2.5 PRIMEIRAS CONCLUSÕES SOBRE O MATERIAL COLIGIDO No intuito de compreender quais os impactos dos programas,
Mais Educação, PST, Atleta na Escola e PSE sobre a disciplina curricular Educação Física, procuramos, inicialmente, os trabalhos que
se propuseram a estudar profundamente os programas, isto é, sua origem, desenvolvimento e implementação. Posteriormente, identificamos como tais programas se relacionam com a disciplina curricular Educação Física e, de forma geral, como se materializam no chão da escola.
Bracht e Almeida (2003, 2013), Athayde (2009), Oliveira (2009), Terra e Mascarenhas (2010) contextualizam o movimento pós- Olimpíadas de Sydney, em 2001, e, a partir dos maus resultados do Brasil nos jogos olímpicos, como as políticas públicas no país tiveram um novo enfoque, o esporte. Para os autores, o PST é fruto desse processo e desse contexto, assim como a obrigatoriedade da disciplina Educação Física na Escola Básica, como demonstrado por Bracht e Almeida (2003). Porém, apesar de ter colaborado com o processo de legalidade da Educação Física como disciplina curricular, isto é, tornando-a obrigatória na escola, segundo a avaliação dos autores, o movimento acaba também sendo o responsável pela esportivização da disciplina.
Outra problemática evidenciada nos trabalhos refere-se ao conceito de “esporte” desenvolvido no programa. Bracht e Almeida (2003, 2013), Athayde (2009), Oliveira (2009), Santos (2011), Silva (2001) e Oliveira (2010) se debruçam sobre o conceito de esporte desenvolvido nas atividades do PST, isto é, segundo qual concepção estão sendo propostas e trabalhadas as modalidades esportivas dentro do programa. Para os autores, tal concepção está baseada no espírito de competitividade e de alto rendimento, reflexo do esporte praticado nas grandes competições esportivas, como as Olimpíadas. Tais valores também são transferidos para as aulas de Educação Física.
Nesse sentido, Bracht e Almeida (2013) chamam a atenção para a importância de se distinguir o esporte do esporte educacional. Dessa forma, as políticas desenvolvidas pelo Ministério do Esporte, a exemplo do PST, não devem se sobrepor às desenvolvidas pelo Ministério da Educação (BRACHT; ALMEIDA, 2013) (ATHAYDE, 2009).
Vale lembrar que identificamos essa mesma discussão nos trabalhos sobre o Programa Atleta na Escola, em Tenório et al. (2013) e Santos (2015). Os autores concluem que o programa contribui com a esportivização da Educação Física, bem como para a incorporação dos valores olímpicos, do esporte competitivo e de alto rendimento pela Educação Física e, portanto, pela escola.
Athayde (2009) e Terra e Mascarenhas (2010) identificam o discurso do esporte contido no programa como de cunho salvacionista, isto é, o esporte teria o “poder” de tirar crianças e jovens das drogas, da
violência, das ruas, da prostituição, entre outros. Bracht e Almeida (2013) ressaltam o discurso do esporte atribuído a valores para a vida social e ao pleno desenvolvimento da cidadania dos jovens e crianças em formação. Os autores citam como exemplo o espírito competitivo e de equipe, o respeito às regras, o entusiasmo pelo esforço, entre outros aspectos. Tais justificativas são utilizadas para a ampliação do acesso ao esporte via escola.
Oliveira (2009) refere-se ao PST como um programa que exerce função assistencialista na escola. Conforme o autor, as atividades do programa servem para ocupar o tempo livre das crianças e dos jovens. Levoratti (2010) vai ao encontro de Oliveira (2009); conforme o autor, as práticas corporais estão sendo utilizadas, por meio dos programas, como atrativo para manter os jovens na escola. Para Silva (2011), o PST está sendo aproveitado para reverter o quadro de desigualdade social. De acordo com Oliveira (2010), o programa tem se configurado como uma forma de evitar a exposição de crianças e adolescentes aos riscos sociais. E, por fim, para Terra e Mascarenhas (2010), o esporte, como atividade principal do programa, é visto e utilizado como redentor das mazelas sociais.
Os discursos de caráter assistencialista incorporados ao esporte e, nesse caso, aliados ao PST, como demonstrado pelos autores, vão ao encontro da pesquisa de Leandro (2014). Como expusemos, a autora, ao estudar a proposta do projeto de Educação Integral, identificou o caráter assistencialista exercido pelos programas, cujo objetivo maior seria o de preencher o tempo livre das crianças. A escola, portanto, passaria a assumir a função de custódia.
As pesquisas de Rosa (2013) e Santos (2009) também seguem nesse mesmo sentido. As autoras, tendo como objeto de pesquisa o Programa Mais Educação, identificam as atividades socioeducativas do programa como uma perda da identidade da escola, ao exercer uma função assistencialista. Vale lembrar que o PST, desde 2007, está incluído no Mais Educação; portanto, incorporado às atividades socioeducativas evidenciadas pelas autoras.
Matos (2011), Pinheiro (2009) e Cavalcanti (2012) fazem algumas ponderações referentes à implementação do Programa Mais Educação. No entanto, acreditam ser uma boa iniciativa, em termos de projeto de Educação Integral. Paes Neto (2013) contrapõe-se às autoras, visto que, para o autor, atualmente, não há investimento suficiente para a construção de uma escola de dois turnos. Acrescenta que o Mais Educação tem atendido a uma formação voltada aos valores necessários à ordem de produção vigente; portanto, capitalista.
O esporte, como um dos eixos do programa, conforme Paes Neto (2013), é reproduzido na concepção de esporte de rendimento, limitando a perspectiva integral de formação humana. Essa perspectiva identificada pelo autor sobre as atividades esportivas, baseada na concepção de esporte competitivo e de alto rendimento, remete-nos ao início desse balanço bibliográfico, à obra de Bracht e Almeida (2003), que há 13 anos já denunciavam uma perspectiva de esporte idêntica, apresentada pelo programa Esporte na Escola.
Em suma, o esporte incorporado aos programas destinados à educação escolar não superou a perspectiva denunciada por Bracht e Almeida (2003) sobre o Programa Esporte na Escola (posteriormente substituído pelo PST). Além disso, identificamos nos trabalhos selecionados o apelo para que o esporte e/ou outras práticas corporais componham as atividades dos programas, o que é justificado por várias finalidades: assistencialista, salvacionista, caça-atleta, redução da desigualdade social, entre outras.
3.EDUCAÇÃO FÍSICA NA ESCOLA PÚBLICA: O IMPACTO DE