A repercussão das reflexões de Foucault acerca do poder ofuscou, de certa maneira, suas questões centrais de pesquisa e foram tomadas, erroneamente, como objetivo de seu trabalho. Segundo afirma o próprio teórico, sua preocupação central foi delinear uma história dos modos distintos de objetivação responsáveis pela transmutação de seres humanos em sujeitos, projeto que não poderia ser empreendido, segundo seu julgamento, sem recorrer a uma compreensão dos mecanismos de exploração e dominação e das relações de poder. Portanto, a questão do poder não foi o ponto de partida das análises de Foucault. Ela emergiu na reconfiguração de seu problema de pesquisa, como consequência das modificações em seus objetivos teóricos e políticos a partir da década de 1970 (FOUCAULT, 1995, 2004; MACHADO, 2007b).
Inicialmente, o problema de Foucault era compreender a emergência e a transformação dos saberes. Na perspectiva foucaultiana, há uma distinção entre saber e conhecimento: enquanto este designa a construção de discursos sobre objetos tidos como cognoscíveis, por meio “de um processo complexo de racionalização, de identificação e de classificação dos objetos independentemente do sujeito que os apreende” (REVEL, 2005, p. 77), o primeiro – o saber - corresponde ao processo pelo qual o sujeito do conhecimento modifica-se à medida que se empenha em conhecer. Deste modo, Foucault não estava interessado em identificar apenas a emergência de blocos de conhecimento e suas transfigurações, mas em como a constituição desses discursos, tomados como verdadeiros, modificava àqueles que “conheciam”.
É importante sublinhar as bases filosóficas do pensamento de Foucault – em especial a fenomenologia de Martin Heidegger e o pensamento de Friedrich Nietzsche – o levaram a negar a existência de uma verdade profunda a ser conhecida (RABINOW; DREYFUS, 1995) pois um conhecimento passa a ser considerado verdadeiro de acordo com o regime de verdade de uma determinada sociedade, ou seja, como
os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros ou falsos, a maneira como uns e outros são sancionados; as técnicas e os procedimentos que são valorizados para a obtenção da verdade; o estatuto daquele que têm o poder de dizer aquilo que funciona como verdadeiro (FOUCAULT, 1984b, p. 12)
Deste modo, sua preocupação inicial era estabelecer uma relação entre esses saberes, constituídos de “positividades específicas” (daquilo que foi dito e aceito como legítimo) sem hierarquizá-los ou avaliá-los. Para isso, procura as compatibilidades e incompatibilidades entre esses saberes buscando as regularidades que permitem a individualização de diferentes formações discursivas, a fim de identificar os regimes de verdade estabelecidos que possibilitam a emergência e transformação dos saberes. Este seria, em linhas gerais, o método arqueológico desenvolvido por Foucault. Com o objetivo de compreender o como dos saberes – como emergiam e modificavam-se-, buscava “estabelecer a constituição dos saberes privilegiando as interrelações discursivas e sua articulação com as instituições” (MACHADO, 2007b, p. X)
Partindo de tal questão e servindo-se da arqueologia, Foucault desenvolve as obras História da loucura (1961), O nascimento da clínica (1963), As palavras e as coisas (1966) e A arqueologia do saber (1969). Esses primeiros trabalhos de Foucault estão centrados nas análises das instituições e práticas discursivas. A partir dos anos 1970, o problema central de Foucault deixa de ser o como do saberes para o porquê de sua emergência e transformação, a partir das condições de possibilidade externas, ou seja, não-discursivas, a eles vinculados.
Dado a modificação da questão norteadora de suas pesquisas, Foucault precisou desenvolver um método coerente com seus novos objetivos. A arqueologia, aplicável apenas às práticas discursivas, não permitia a compreensão da emergência dos sistemas discursivos a partir da restrita análise dos elementos regulatórios do próprio discurso, deixando à margem a influência das instituições sociais e práticas não-discursivas, também centrais nas análises foucaultianas (DREYFUS; RABINOW, 1995).
Ao reconhecer os limites da arqueologia, ele recorre a genealogia de Nietzsche, para desenvolver um método que permita articular “verdade, teoria e valores às instituições e práticas sociais nas quais eles emergem” (DREYFUS; RABINOW, 1995, p. XXI). O saber torna-se apenas um entre os elementos articulados nas relações de poder. Ainda que a linguagem, o discurso a tudo atravesse, essas práticas que denomina não-discursivas integram atividades e instituições sociais: a segregação dos loucos, o casamento e o estabelecimento de impostos são apenas alguns dos exemplos de práticas não-discursivas. Isso não significa dizer que não sejam permeadas pelas práticas discursivas, mas, para fins analíticos, enaltece a importância de outros elementos constituintes de mecanismos de sujeição e técnicas de subjetivação, estruturados para além do plano discursivo. O enfoque desloca-se, assim, dos
saberes para as relações de poder, o que torna essencial uma explanação da peculiar definição
de poder empregada no pensamento foucaultiano.
Para Foucault, o poder só existe nas relações de força, como exercício. Portanto, não está efetivamente localizado em lugar algum. Ele é heterogêneo, disperso e em constante transformação. O poder não é “algo”, ele não é uma natureza ou uma essência universais; não é passível de apropriação ou acumulação - ele é sempre relacional. Portanto, o poder só pode ser analisado por meio das dinâmicas relações de poder: “A multiplicidade de correlações de força imanentes ao domínio onde se exercem e constitutivas de sua organização; o jogo que, através de lutas e afrontamentos incessantes as transforma, reforça, inverte” (FOUCAULT, 1988, p. 102).
Quase não emprego a palavra poder, e se algumas vezes o faço é sempre para resumir a expressão que sempre utilizo: as relações de poder. […] Quero dizer que, nas relações humanas, quaisquer que sejam elas – que se trate de comunicar verbalmente, como fazemos agora, ou se trata de relações amorosas, institucionais ou econômicas-, o poder está sempre presente: quero dizer, a relação em que cada um procura dirigir a conduta do outro. São, portanto, relações que se podem encontrar em diferentes níveis, sob diferentes formas; essas relações de poder são móveis, ou seja, podem se modificar, não são dadas de uma vez por todas. (FOUCAULT, 2004, p. 276)
Sendo relacional, as relações de poder são totalizantes: a vida social é permeada por elas. Não há exterioridade. Elas são “efeitos imediatos das partilhas, desigualdades e desequilíbrios que se produzem nas mesmas e reciprocamente”, desde encontros interpessoais até as relações diplomáticas internacionais. Nessa perspectiva, o poder não pode ser atribuído à superestrutura (ao Estado, por exemplo) mas a um exercício a partir de uma rede complexa (que inclui discursos e instituições) no qual o Estado pode ser uma de suas instâncias consolidadas.
Só há poder exercido por “uns” sobre os “outros”; o poder só existe em ato, mesmo que, é claro, se inscreva num campo de possibilidade esparso que se apoia sobre estruturas permanentes. (FOUCAULT, 1995, p. 242)
O ponto nevrálgico talvez seja a dissociação entre o exercício do poder e as estruturas perenes nas quais as relações de força estão, em certa medida, estabilizadas por meio de
tecnologias de governo específicas e/ou relações de dominação, mas que, ainda assim, não podem ser consideradas detentoras ou centros de poder.
O poder […] deve ser analisado como […] uma coisa que só funciona em cadeia. Jamais ele está localizado aqui ou ali, jamais está entre as mãos de alguns, jamais é apossado como uma riqueza ou um bem. O poder funciona. O poder exerce e, nessa rede, não só os indivíduos circulam, mas estão sempre em posição de ser submetidos a esse poder e também de exercê-lo. […] Em outras palavras, o poder transita pelos indivíduos, não se aplica a eles. (FOUCAULT, 2002, p. 35)
Assim, o poder (sempre enquanto exercício) possui propriedades capilares, opera em todos os níveis de relação social de forma multilateral, não apenas nas reconhecidas relações polarizadas entre dominados e dominadores. São as correlações de forças mais elementares, presentes nas instituições e pequenos grupos, a base para “amplos efeitos de clivagem”, os quais entrelaçam os afrontamentos locais por meio de negociações e realinhamentos que dão origem às grandes dominações, “efeitos hegemônicos continuamente sustentados pela intensidade de todos estes afrontamentos” (FOUCAULT, 1988, p. 103). Deste modo, as grandes dominações são resultado do realinhamento, ao longo do tempo, de múltiplas correlações de forças locais.
Dado a gama de possibilidades de ação dos indivíduos nas relações de poder, Foucault destaca que o poder só pode ser exercido sobre indivíduos livres, pois as relações de poder são relações de “incitação recíproca e luta; trata-se, portanto, menos de uma oposição de termos que se bloqueiam mutuamente do que de uma provocação permanente” (FOUCALT, 1995, p. 245). Daí a famosa afirmação de Foucault: “lá onde há poder, há resistência” (FOUCAULT, 1988, p. 105), pois o elemento de resistência é a condição fundamental para a relação de poder existir. Sem ele, configura-se uma relação de dominação total, na qual não há luta, nem liberdade e, portanto, diferencia-se das relações de poder. “Se há relações de poder em todo o campo social, é porque há liberdade por todo lado. Mas há efetivamente estados de dominação.” (FOUCAULT, 2004, p. 277)
Um exemplo de estado de dominação, dirá Foucault (2004), foi a estrutura conjugal dos séculos XVIII e XIX: a mulher estava sob um evidente estado de dominação, ainda que pudesse agir de modo a impor resistências (mentindo, traindo o marido, roubando seu dinheiro) que, no entanto, não viriam a reverter a situação. Isso é diferente das relações de
poder identificadas por Foucault como jogos estratégicos, uma dinâmica de tentativas (nem sempre bem sucedidas) de determinar a conduta do outro, ao que a resposta, muitas vezes, é uma resistência ou a manipulação da conduta daquele que tentou conduzir inicialmente.
Quando um estado de dominação não apresenta nenhuma possibilidade de resistência configura um exemplo de dominação total (como a escravidão) e deixa de refletir uma relação de poder, pois não há liberdade. Uma relação entre indivíduos livres que manifesta, simultaneamente, mecanismos de (tentativas de) condução do campo de ação de outrem e resistência aos procedimentos coercitivos. Assim, a concepção foucaultiana de poder nega sua equiparação com um mal supremo, pois abarca igualmente o exercício da liberdade. Além disso, os jogos de poder estão presentes em todas as dinâmicas sociais, atravessando toda a malha de relações compreendida como sociedade: é uma dinâmica presente nas relações amorosas, sexuais – um jogo aberto, em que as posições podem se inverter. Não se trata, portanto, de um problema social, a menos que acabem por exercer efeitos de dominação. O mesmo valeria, segundo Foucault, para as instituições pedagógicas.
Não vejo onde está o mal na prática de alguém que, em um dado jogo de verdade, sabendo mais do que um outro, lhe diz o que é preciso fazer, ensina-lhe, transmite-lhe um saber, comunica-lhe técnicas; o problema é de
preferência saber como será possível evitar nessas práticas – nas quais o
poder não pode deixar de ser exercido e não é ruim em si mesmo – os efeitos
de dominação com que um garoto seja submetido à autoridade arbitrária e
inútil de um professor primário; um estudante, à tutela de um professor autoritário etc. (FOUCAULT, 2004a, p. 284, grifos nosso)
Entre os jogos estratégicos e a cristalização de certos modos de submissão em estados de dominação, Foucault identifica as tecnologias governamentais: os mecanismos de condução de outros indivíduos (esposa, filhos) como os modos de direção de uma instituição. “A análise dessas técnicas é necessária porque muito frequentemente é através desse tipo de técnicas que se estabelecem e se mantêm os estados de dominação” (FOUCAULT, 2004a, p. 285).
Na esteira para uma análise das tecnologias governamentais que orientam as condutas e podem, no limite, instituir estados de dominação, Foucault desenvolveu a acepção de dispositivo. Contudo, antes de adentramos as especificidades do dispositivo foucaultiano e outras reflexões sobre o termo, essenciais para nossa investigação, nos deslocaremos das definições e da proposta metodológica da abordagem da questão do poder em Foucault para
sua análise das relações de poder. Mais especificamente, de um tecnologia específica identificada como poder pastoral, cooptada em novas configurações das relações de poder, ao longo dos anos, até, por fim, ser rearticulada nos dispositivos pedagógicos do empreendedorismo.