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4 MATERIAIS E MÉTODOS

5.2 ANÁLISE DAS ATAS DAS REUNIÕES DA CNPI NO ANO DE 2012

5.2.1 As primeiras discussões sobre a gestão ambiental das terras indígenas: reflexos das

As atas que trataram do registro das reuniões realizadas no ano de 2012 compreendem as 18ª e 19ª Reuniões Ordinárias da CNPI, realizadas nos períodos de 27/08 a 30/08/2012 e de 04/12 a 06/12/2012, na cidade de Brasília – DF, respectivamente. Tais reuniões contaram com a presença do Ministro da Justiça, Demais Representantes de outros Ministérios e outros Representantes do Governo (Presidente da CNPI, Presidente da FUNAI, Secretário de Assuntos Legislativos, Representantes dos Ministérios da Justiça, Minas e Energia, Defesa, Desenvolvimento Agrário, Planejamento e Meio Ambiente), Representantes Indígenas, Representantes da Sociedade Civil, Convidados Permanentes e Especiais.

O primeiro registro que deve ser feito é que as reuniões da CNPI, no ano de 2012, foram presididas por um novo presidente da FUNAI, consequentemente, novo presidente da CNPI. Registra-se que última reunião realizada pela CNPI, no ano de 2011, não contou com a participação do, até então, presidente da FUNAI e da CNPI, o que foi visto de maneira negativa pelos representantes indígenas, que não hesitaram em tecer comentários repreensivos sobre a ausência tida por eles como injustificada.

RI (1): Senhor Presidente, apesar de ter sido esclarecido sobre a ausência do Presidente da FUNAI, temos observado e observa, como essa situação de hoje que temos situações que deveríamos ter decisão direcionado com a presença do Presidente, e eu me sinto desrespeitado com essa atitude do Presidente. Se estava agendado as férias dele, por quê ele não avisou os membros da CNPI, principalmente nós indígenas?

RI (2): [...] nós estávamos esperando que estivesse aqui o presidente da CNPI, causou um certo desconforto, descontentamento por parte da bancada indígena, nós estávamos avaliando agora a pouco [...] Eu queria dizer que nós estivemos, agora a pouco, em reunião e chegamos a um entendimento que, dá forma que está não tem sentido continuarmos participando da CNPI [...] Então, por conta disso, nós tomamos por decisão, aqui nessa Comissão, dizer que nós estamos nos retirando da CNPI, pra que nossa reunião venha ocorrer em outro momento.

Pode-se afirmar que a decisão conjunta de todos os representantes indígenas em se retirarem da reunião representa o conjunto de protestos indígenas, relacionados às violações praticadas contra os povos indígenas, que na visão destes são: a) demora na aprovação do Estatuto dos Povos Indígenas; b) demora na tramitação do projeto de lei sobre a criação do Conselho Nacional de Política Indigenista; c) efetiva implementação do PNGATI nas terras indígenas; d) definição clara dos instrumento de consulta prévia.

Mais uma vez, então, se observa que os anseios dos povos indígenas, ora mencionados, independentemente, do ponto de pauta tratado nas reuniões da CNPI, são sempre enfatizados por eles como sendo as matérias de urgência que merecem destaque/prioridade nas deliberações da Comissão. Há um forte apelo dos povos indígenas para a presença do presidente da FUNAI/CNPI nas reuniões, justamente, porque eles compreendem que na figura desse servidor está o canal/elo que poderá ser estabelecido entre a CNPI e a Presidência da República e demais Ministérios, para tratamento dos assuntos mais urgentes, envolvendo a questão indígena no Brasil.

Na ata da 18ª reunião ordinária da CNPI, essa ideia é, notoriamente, observada, a partir da fala de um representante indígena.

RI: [...] depois de uma enorme discussão, chegamos ao entendimento que essa CNPI é um espaço muito importante. De interlocução com o Governo e que apesar de algumas contrarreações que vem sendo acometidas por parte do Governo, ao nosso entender e do movimento indígena, esse espaço jamais deve ser quebrado e tende a fortalecer. E temos que consolidá-lo com a criação do Conselho, por isso estaremos somando força junto com a bancada governista e com a nossa presidenta e também tentando fazer articulações no Congresso para que ele ocorra o mais rápido possível e que o nosso conselho venha a ser criado porque eu acho que é o grande legado da CNPI.

Em que pesem as primeiras falas dos atores sociais, na 18ª reunião ordinária da CNPI, dessem conta de informar que o ponto central de discussão/abordagem seria o PNGATI, observou-se que, na verdade, o ponto, amplamente, discutido por todos os atores envolveu a Portaria 303 da AGU.

A Portaria 303 da AGU, à época da sua instituição, normatizou a atuação das Unidades da Advocacia-Geral da União, em relação às salvaguardas institucionais às terras indígenas, tendo por base o entendimento fixado pelo STF na Petição 3.388- Roraima (Caso Raposa Serra do Sol). De forma panorâmica, essa portaria fixou os seguintes entendimentos: a) relativização do direito ao usufruto dos recursos naturais presentes nas terras indígenas; b) o direito ao usufruto dos recursos naturais não alcançaria os recursos hídricos e potenciais energéticos, sempre dependendo de autorização do Congresso Nacional e nunca se sobreporia

ao interesse da política de defesa nacional; c) a atuação das Forças Armadas na área indígena é permitida, independentemente, de consulta às comunidades envolvidas ou à FUNAI; d) o trânsito de visitantes não índios nas terras indígenas fica assegurado, desde, que, observados critérios estabelecidos pela FUNAI.

Ressalta-se que a Portaria 303 da AGU, que regulamentou a atuação dos advogados públicos e procuradores em processos de demarcação de terras indígenas, foi suspensa, após protestos dos mais variados segmentos indígenas, até que fosse julgado, definitivamente, o caso da demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, no Estado de Roraima. Nesse sentido, a fala dos representantes indígenas indica que a CNPI foi o principal palco para a demonstração da insatisfação dos índios quanto aos efeitos deletérios da aplicação dos preceitos dessa portaria.

RI (1): [...] essa questão da portaria é o fim da picada gente. A gente sabe que é uma aberração jurídica, administrativa do Governo, mas qual foi o encaminhamento que foi feito? Quais os setores que tomaram alguma providência em relação a nós. Nós estamos nos sentindo totalmente isolados, sozinhos [...] A gente tá se sentindo assim, com a corda no pescoço, você tá entendendo

RI (2): O que eu tenho a dizer assim é uma, de certa forma uma das maiores preocupações que a gente tá passando nesse momento. Em relação à portaria 303, penso eu que não tem necessidade de consultar. Como é que você vai consultar os povos indígenas em relação a uma portaria 303 que detona com a vida dos povos indígenas. Praticamente propõe uma verdadeira extinção dos povos indígenas, da sua cultura, das suas organizações. Destrói totalmente a Constituição Federal. Outra questão que eu também não sei porque a AGU não tá aqui. Sempre participou das atividades da CNPI. Né? Ele sempre esteve aqui e não aparece mais.

RI (3): Cadê a política do Governo, cadê a política que prometeu. Nós lutamos tanto pela PNGATI, nós fizemos a luta. Nós participamos efetivamente. Nós apresentamos proposta pro Governo. Cadê? Pra mim a PNGATI, morreu. Porque diante de uma portaria dessa, é a morte dos índios, declarada. Meu povo tá lá ameaçado.

Indubitável é a confirmação de que o início de vigência da portaria, na visão global dos representantes indígenas da CNPI, acarretaria a destruição de todo um plano de melhoria de qualidade de vida debatido e criado por iniciativa dos povos indígenas: o PNGATI. Esse plano, que tinha acabado de ser aprovado via decreto presidencial, trazia em seu bojo princípios e diretrizes de proteção dos povos e terras indígenas incompatíveis com a intepretação fixada pela Portaria 303 da AGU. Por isso, para os povos indígenas, a única solução adequada e compatível à manutenção dos seus modos de vida, seria a revogação da portaria, e, não, somente, a sua suspensão, como assim de fato aconteceu.

Outro ponto forte apresentando pelos povos indígenas, no sentido de justificar o desatendimento do desejo em ver a portaria revogada, mas, somente, suspensa, seria o fato de que nem mesmo o caráter consultivo da CNPI (que, também, não é de um todo aceito pelos povos indígenas, que aspiram em conseguir atribuir função deliberativa para as reuniões), foi observado, quando da instituição da Portaria 303 da AGU.

RI (1): [...] A CNPI, apesar de não tá sendo sempre utilizada desta forma, pelo seu estatuto, é um órgão consultivo sobre política indigenista, né? E no momento em que ela se retoma, a gente tem essa portaria que não só teve consulta dentro da CNPI, como tem uma cláusula que extingue a consulta. Que diz que o Governo não precisa mais consultar os povos indígenas por uma série de ações. Então é... a gente se coloca, eu acho que esse desconforto todo é colocado porque a gente se, para pensar que, que vai servir a CNPI, se uma medida de cima pra baixo do Governo diz que não é preciso consultar os indígenas, né?

RI (2): [...] de fato da CNPI é um espaço de consulta, ela não é deliberativa. E então tudo isso vem atropelando o propósito, o pensamento, o conceito. Dentro do pensamento, de uma ideologia, né, que é de fato um diálogo para respeitar, um diálogo de, fortalecer e então, tudo isso vem nesse momento cada vez mais dificultando o nosso diálogo.

O que se verifica, então, na fala dos povos indígenas, a respeito da necessidade urgente em se revogar a Portaria 303 da AGU, é que a produção dos seus efeitos pudesse prejudicar a segurança jurídica dos direitos indígenas, já conquistados, e fosse capaz de criar uma situação de instabilidade para a manutenção dos modos de vida dos povos indígenas. Nesse sentido, também é que se apresentou a opinião dos demais participantes da reunião (representantes de ONGs, convidados permanente e demais participantes), exceto a bancada governista presente, que, num primeiro momento, não soube apresentar de forma manifesta o seu ponto de vista.

RG: Presidenta...Então é, a gente gostaria de ter 10 minutos da nossa bancada de governo para avaliar direitinho como é que a gente pode encaminhar isso, para que, não gere nenhum constrangimento pra nossa bancada [...]

Merece destaque, então, a posição tomada pela bancada governista a respeito da Portaria 303 da AGU, que manifestou a sua opinião sobre esse documento pela fala da Presidente da CNPI.

RG: Considerando que a CNPI é o lugar de diálogo, dos diferentes órgãos do Governo Federal, com os representantes dos povos indígenas, sobre todas as políticas públicas direcionadas a esses povos; considerando todas as

manifestações dos representantes dos povos indígenas ocorridas durante essa 18ª Reunião Ordinária da CNPI, é pedindo a revogação dessa portaria [..]

Um dos pontos centrais de discussão da 19ª Reunião Ordinária da CNPI, no ano de 2012, foi o Projeto de Lei de Mineração em Terras Indígenas. Sabe-se que, nesse período, o regime jurídico de proteção dos recursos minerais em terras indígenas, ainda encontrava-se em fase de construção, havendo, somente, os preceitos contidos na Constituição Federal, que determinou que o aproveitamento das riquezas minerais em terras indígenas só pode ser efetivado com autorização do Congresso Nacional, depois de ouvidas as comunidades afetadas.

O Projeto de Lei de Mineração em Terras Indígenas, a ser debatido na reunião da CNPI, adotava uma orientação, claramente, contrária aos anseios dos povos indígenas, uma vez que, na visão dos índios, não considerava aspectos socioambientais, tratando-a como qualquer outra atividade econômica neoliberal, voltada para o crescimento econômico, desconsiderando, portanto, valores sociais, ambientais e culturais fundamentais dos povos que possuem formas peculiares de se relacionar com a natureza.

No contexto da promoção da Gestão Ambiental e Territorial das Terras Indígenas, os representantes indígenas da CNPI apontam que o referido projeto é constituído de proposições inconstitucionais e lesivas aos seus direitos territoriais e ambientais, o que reforça a ideia de que esse assunto mereceria ser tratado no âmbito do Estatuto dos Povos Indígenas, e, não, por meio de lei autônoma, como assim foi evidenciado pela bancada governista. Segundo os representantes indígenas participantes da CNPI, a variedade de interesses envolvendo os títulos minerários em terras indígenas, a limitação do número de mineradoras nos espaços de vida e liberdade dos índios, a forma de consulta às comunidades afetadas e a participação das comunidades indígenas na lavra seriam pontos que mereceriam ser melhor debatidos, no próprio âmbito da CNPI, sem prejuízo desses pontos serem fixados no âmbito do “tão sonhado Estatuto dos Povos Indígenas”.

RI (1): Porque já que tenho nosso minério, porque acabou, Brasil acabou com minérios de terra e nós índios, só nós índios que tem a terra que nós protegemos, nós protegemos a Amazônia, protegemos a água, montanhas e tudo que nós estamos protegendo só na área indígena. Mineração, não é só mineração, mineração tem de todo, tem de água, tem areia [...]

RI (2): Então a gente precisa mudar, eu acho que através dos senhores que são deputados federais, mudar os cérebros do país, porque se o país é a sexta economia do mundo, será que ainda precisamos de explorar o minério lá dentro para ele ser o primeiro. E a hora que acabar nosso minério? A gente vai ser o último, certo? Então eu fico bastante preocupado, mas eu preferia talvez deputado propuser essa discussão de novo, mas fazer uma revisão no nosso estatuto que a gente discutiu pela CNPI e poder debater mesmo.

RI (3): [...] porque tirar o foco do Estatuto do Índio e separadamente discutir a mineração? Então eu não concordo, não vou participar, porque nós conhecemos e sabemos que essas mineradoras vai trazer mais prejuízos para comunidades indígenas do que benefícios. Vai ter benefícios sim, pra outras pessoas, não é pra comunidade indígena, então eu não concordo por aqui [...]

De modo geral, as manifestações de resistência dos representantes indígenas da CNPI, quanto à aprovação do Projeto de Lei 1610/96, deu-se de forma unânime, e sempre esteve justificada pela falta de efetivação da consulta aos povos de todo o Brasil sobre o teor do projeto de lei, o que, na visão dos povos, representa verdadeiro desrespeito aos direitos territoriais indígenas. De outro lado, a bancada governista aponta em suas falas que a aprovação do Projeto de Lei que cria o Estatuto dos Povos Indígenas poderia trazer melhores condições de vida para os povos indígenas.

RG (1): [...] nós de maneira nenhuma queremos atropelar, nós queremos ouvir, nós queremos discutir, agora é importante que nós façamos a discussão sadia dessa proposta, porque também não nos parece razoável e eu quero dizer do meu estado, nós temos indígenas ali morrendo de beribéri, beribéri é fome, é falta de vitamina, em cima de uma imensa jazida de minério, que nós sabemos que tem ali. O que nós precisamos encontrar gente, é uma forma de explorar essa riqueza em benefício da própria comunidade indígena que lhe permita o desenvolvimento [...] o subsolo é do Estado, não é de quem está ali, nem do branco nem do índio. A nossa Constituição trata as riquezas minerais existentes no subsolo de forma igual tanto na terra indígena, quanto da terra não índigena.

As exposições acima, acerca das formações discursivas sobre a questão da mineração em terras indígenas, da necessidade (ou não) de revogação da Portaria 303 da AGU, e da criação do Estatuto dos Povos indígenas, demonstram a polaridade discursiva presente nas atas da 18ª e 19ª Reunião Ordinária, o que caracteriza as condições de produção do discurso nessas reuniões. Constata-se, indubitavelmente, a presença de formações ideológicas na discursividade envolvendo a gestão dos territórios indígenas. A bancada indígena, repetidamente, utilizou, como elemento aglutinador do seu discurso, expressões, tais como, “fim da picada”, “portaria que detona com a vida dos povos”, “é a morte dos índios”, para ressaltar que Portaria 303 e o PL 1610 são verdadeiros instrumentos de dizimação dos povos.

Na segunda parte da ata da 19ª Reunião Ordinária da CNPI, vemos o conjunto de subcomissões desse órgão tratarem das demandas que envolvem a definitiva implementação e acompanhamento da PNGATI. A subcomissão de terras foi a que mais apresentou encaminhamentos relacionados aos processos de regularização fundiária, proteção ambiental

das terras indígenas, e principalmente, a urgência de reestruturação da FUNAI, entendido como importante fator de fragilização da proteção territorial.

RI: O que eu queria comentar era o seguinte, vou voltar um pouquinho atrás, há dois anos atrás a FUNAI disse que na reestruturação da FUNAI, no concurso público, teria todos esses profissionais para demarcação de terras, está aí o exemplo, dois anos depois, diz que não tem profissional, precisa fazer um convência com a UNESCO, precisa trazer gente de fora, então é por isso que precisa reforçar a FUNAI, a FUNAI tem que modificar o sistema dela e vai continuar desse jeito, mais um concurso público e a falta de técnico para demarcação de terra, a gente sabe que precisa , tem um regulamento, tem que ser respeitado, mas a FUNAI não consegue avançar e sempre nesse momento precisa da demarcação da terra, mas não, falta isso, falta aquilo [...]

A partir da fala acima, é perceptível a decepção da bancada indígena quanto ao modo como o governo conduz a forma de criação e efetivação de políticas públicas intersetoriais de proteção e gestão das terras indígenas. Há um forte apelo no discurso indígena de que existe uma prioridade de ações governamentais no trato das questões indígenas e, na maioria das vezes, a questão territorial não é tratada como tema emergencial. Tudo isso é verificado no conjunto de projetos de lei que, ao tempo dessa reunião, estavam em tramitação no Congresso Nacional, e que tratavam, por exemplo, da competência para a demarcação das terras indígenas; da indenização de títulos de quem detém títulos dominiais, em áreas que foram consideradas, depois, como sendo terras indígenas.

Segundo a bancada governista, a política indigenista não consegue tomar “rumo próprio” (principalmente, quando envolve a questão territorial), porque a grande quantidade de projetos de leis presentes no Congresso (e que envolvem o tema) exige que os esforços para a sua análise sempre se concentrem nos mais complexos, deixando de lado, entretanto, a análise de outros que poderiam solucionar problemas paralelos da questão territorial.

RG: [...] tem vários outros projetos que são menos polêmicos, vários projetos que são positivos, que tratam de interesses indígenas, que poderiam ser votados e poderiam ser transformados em lei sem grandes problemas, e que as vezes a gente acaba concentrando demais, esses projetos são mais polêmicos e não consegue avançar nesses outros projetos quando a gente poderia trabalhar nas duas frentes, na frente emergencial e na frente estrutural mesmo e, construir uma política mais consciente [...]

A questão orçamentária também foi apresentada pelo representante do governo (talvez, aquele que está, intimamente, ligado profissionalmente à questão indigenista) como sendo fator de retardamento das ações em prol do fortalecimento dos direitos territoriais indígenas.

RG: [...] então, como todo mundo já sabe, a gente tem várias dificuldades orçamentárias, processual, para dar conta de todas as demarcações ainda pendentes no Brasil, mas a gente tem se organizados para que aja uma pactuação junto com as comunidades e lideranças indígenas, nas diversas regiões, para dar conta das principais demandas territoriais [...] nós somos do concurso último dos servidores da reestruturação, e é claro que a gente foi uma leva de novos servidores que ainda não dá conta de tudo, mas que a gente tá aqui tentando avançar com algumas questões, então, também para explicar, existe sim uma dotação, um orçamento destinados as ações de demarcação, que chega para a FUNAI para ser executada e a nossa meta, a nossa missão é garantir a plena ocupação dos territórios indígenas pelas populações indígenas [...]

Merece destaque e análise a expressão “plena ocupação dos territórios”, ora apresentada no discurso do representante do governo. É possível dizer, então, que a garantia da “plena ocupação” está intimamente ligada à garantia da “posse plena”, ou seja, não basta criação de mecanismos de regularização fundiária e homologação das terras sem que seja garantido, também, o uso exclusivo indígena dos recursos naturais presentes nos espaços de vida e liberdade. Nesse sentido, a “plena ocupação” ou “posse plena” estaria revestida, a nosso ver, de três grandes eixos/ações: a) ações de identificação/delimitação dos espaços; b) ações de vigilância/monitoramento contra ilícitos, depois de regularizadas; c) ações de proteção das terras pertencentes aos índios isolados.

Não se pode deixar de mencionar ações (na maioria das vezes, vindas dos próprios