“Chegada a Macau, sensação aterradora e agoniante, sentimento de tristeza e saudade. Para trás um passado: amigos, familiares, certezas. Para a frente o mistério, a incerteza, O DESAFIO: Deixar penetrar em mim o fascínio oriental, deixar que console o meu desconsolo, deixar que alivie a minha dor. Aperceber-me de como é maravilhoso conhecer novas terras, novas gentes, enfim culturas… Começar a respeitar costumes, crenças, superstições… Sentir esta terra como sendo minha. Aprender a amá-la… Chegado o dia da despedida, quer me sinta vencedora ou vencida, uma parte de mim chorará e sempre recordará os bons, maus, óptimos ou péssimos momentos de vivência neste pedacinho da Ásia Susana Veloso (em Mensagem d’os Putos, revista dos Finalistas [do Liceu Nacional Infante D. Henrique “novo”] nº 2, p. 17 s/d)
Não sendo directa, a viagem de longo curso rumo a Macau realizada na época em que os jovens partiram - a inauguração do aeroporto internacional do território remonta apenas a finais de 1995 - implicou uma ou mais escalas em cidades europeias (em alguns casos também asiáticas), daí que a maioria recorde a curta estadia fruída a meio caminho em hotéis de prestígio como o Sheraton ou o Meridian de Zurique, Paris, Genebra e Frankfurt.
Ficámos ao pé do Arco do Triunfo, foi assim uma noite gira no hotel, era aquela […] idade em que adoras ficar em grandes quartos de hotel e abres os frigoríficos, mexes nos canais todos de televisão, depois a chave era um cartão […]. Tomás
Embora efémera, a viagem reveste-se de acentuada relevância simbólica no quadro analítico em apreço porque não se confina à mera ilustração do percurso
geográfico realizado, antes representa a inauguração de um capítulo da vida dos jovens migrantes com vasto potencial de transformação ontológica e identitária. Ademais, estabelece dois importantes eixos nas suas trajectórias biográficas: um de carácter temporal, demarcando o passado do presente e futuro vizinho; outro de feição espacial, delimitando a sociedade emissora da receptora sob a forma de um elo que tão depressa tende a separar os indivíduos da primeira, quanto a vinculá-los à segunda.
Entendemo-la como um “rito de passagem”, expressão de Van Gennep (1960) a que diversos autores se reportam (Jenkins, 1996: 144-145; Fortuna, 1999: 75) - definido como um momento biográfico crucial, sinalizador de um processo simbólico de transição, pessoal e social, de uma condição ou estatuto a outro em matéria, neste caso concreto, de condições e estilos de vida, sociabilidades, pertenças, matrizes e espaços de referência.
A tríade dimensional que o conceito de “rito de passagem” comporta parece- nos, pois, de grande utilidade para ilustrar a trajectória Portugal-Macau. A “separação do contexto ou posição actual” é aqui caracterizada pela saída de Portugal onde os jovens deixaram a casa, escola, família, amigos, pertences, certos hábitos e rotinas. A “transição ou liminalidade entre um estatuto antigo e um novo” iniciou-se ainda numa fase cronológica anterior à “separação”, remetendo para a interiorização da partida, o processo de “socialização antecipatória” caso ensaiado, os preparativos da viagem, prolongando-se ao trajecto de avião e às escalas em outros países. Por último, a “incorporação” ou “agregação” de uma renovada condição social, reenvia-nos para a instalação em Macau, bem como para a consequente dinâmica de reestruturação identitária decorrente da progressiva acumulação de experiências e vivências numa sociedade, habitação, escola, círculo social e ambiente cultural distintos.
A passagem por Hong Kong precedia a entrada em Macau, sendo da então ‘colónia’ britânica que se efectuava a travessia de barco, o chamado jet-foil, em direcção ao destino migratório. A quase totalidade dos jovens e demais membros do núcleo doméstico tiveram à saída do aeroporto alguém para os receber e prestar assistência: representantes do Governo; colegas de trabalho, amigos ou conhecidos dos pais; um dos progenitores se previamente estabelecido, ou outros familiares, confirmando o atrás mencionado enquadramento institucional e/ou social do movimento geográfico. Mas não só. Também a posse de um estatuto mais ou menos distintivo, proporcional à maior ou menor importância do cargo profissional a ocupar
pelo protagonista da deslocação, revelava-se à chegada. Lugares de direcção gozavam, regra geral, de tratamento especial.
Lembro-me perfeitamente de chegar ao aeroporto de Hong Kong, de termos uma limusina à nossa espera e os Representantes da Saúde […]. Sofia (filha do então Director do Hospital Conde Januário).
Independentemente da época do ano em que se deslocaram, o primeiro impacto ao pisar solo asiático foi físico-sensorial. Quase sem excepção, os jovens aludiram ao embate climatérico provocado pelas elevadas temperaturas e intensa humidade da região, ainda hoje lembrando o bafo quente, a transpiração persistente, o cansaço e a indisposição agravada por uma viagem extenuante90. Ao clima acoplavam-se muitos outros elementos que contribuíam de forma ora intimidatória ora fascinante para gerar nos jovens perplexidade ou mesmo, como bem ilustra o excerto abaixo transcrito, a sensação de “choque cultural” - termo introduzido por Oberg em 1960 para designar o sentimento de confusão e desorientação provocado pela exposição a uma nova cultura (cf. Hutnik, 1991: 110). Ainda em Hong Kong, constituem exemplos a futurista arquitectura, as cintilantes imagens da sociedade de consumo, o acelerado ritmo urbano, o seu ambiente cosmopolita. A partir de então, começaram a pressentir-se os fortes contrastes entre as sociedades de partida e de acolhimento.
[…] eu acho que a minha primeira má sensação ou má reacção […] foi também muito física porque na altura eu achei: «- Isto é tudo muito esquisito. Estou aqui no meio desta humidade, não consigo respirar, mas então como é que isto é possível? Para onde é que me trouxeram?». Teresa
[…] foi uma excitação […] estava uma criança nesse dia. Olhava para aqueles prédios muito grandes, muito bonitos, com um ar muito cosmopolita, tudo cheio de gente, as ruas, de carros, tabuletas de publicidade, uns prédios fantásticos […] «Uau!, isto é incrível!» Estava fascinada! Catarina
90 Comungámos de idêntica experiência quando visitámos Macau cuja viagem durou cerca de 24 horas:
Lisboa - Amesterdão (3 horas); escala em Amesterdão (5 horas); Amesterdão - Hong Kong (13 horas); aeroporto de Hong Kong - terminal do jet-foil de Hong Kong (1 hora de autocarro); terminal de jet-foil de Hong Kong - terminal de jet-foil de Macau (1 hora e 30 minutos de barco para efectuar 60 km).
Apanhámos uma camioneta […] do aeroporto para o ferry, tudo em pé com as malas […]. […] era assim um barco estranho cheio de chineses a comerem umas massas, sopas de massa, numa espécie de frasco de esferovite, andavam com pauzinhos a comer aquilo, a fazer um barulho esquisito. […] na altura toda a gente andava com bips e começavam a aparecer os telemóveis, […] e eu não sabia o que era aquilo por isso achava estranho. Tomás
À medida que os jovens se aproximavam de Macau, tudo o que os seus sentidos captavam, então altamente despertos e estimulados, era percebido como distante das suas matrizes de referência primárias: o colorido do território; a invulgaridade dos inúmeros paladares e odores activos na cidade, a incenso, papéis queimados e peixe seco91; a singularidade dos sons, como o tinir dos ‘pauzinhos’ tocando as tigelas, as peças de Mahjong jogadas umas contra as outras, o metal dos ‘espanta espíritos’ estremecido pelo vento, os panchões rebentados nas festividades. De facto, “(…) the experience of moving often to a new home is most felt through the surprises in sensation: different smells, different sounds at night, more or less dust”, assinala Ahmed (1999: 342).
[…] O cheiro de Macau é o cheiro das ruas, é o cheiro das zonas de mercado, de peixe seco e das lulas secas e das galinhas e do peixe vivo, é o cheiro do incenso, montes de coisas misturadas, dos papéis queimados que eles queimam lá para os mortos, essa sensação do cheiro é uma coisa que marca um bocado […], é o cheirinho de Macau, a pessoa quase consegue lembrar. Madalena
[…] à noite fomos jantar com esses tais amigos dos meus pais que nos levaram a um restaurante chinês e aí talvez tenha começado a achar alguma piada às coisas porque eu nunca tinha provado comida chinesa, eles pediram […] rã, eu nunca tinha provado rã. Achei super engraçado […]. Teresa
[…] lembro-me que o barulho das pessoas a comer em Macau é diferente porque são os pauzinhos, as tigelas, há uns barulhinhos diferentes […]. Rita
[…] o que mais me impressionou foi o calor e o cheiro […]. Estava habituado aos cheiros de África que ainda os mantenho, mas aqueles cheiros eram de
91 A percepção subjectiva de um Macau assaz odorizado poderá atribuir-se quer à intensidade dos
cheiros percebidos quer ao facto de os jovens terem eventualmente sido socializados em ambientes algo “desodorizados”, expressão de Fortuna (1999: 93-102), tornando-os por isso mais sensíveis aos mesmos.
outro tipo […]: enquanto em África cheirava a terra e a fruta e ao odor das pessoas, […] em Macau os cheiros são subtis, são adocicados, são cheiros muito especiais […]. […] chegámos a Macau de noite e eu não conseguia dormir porque queria ver tudo aquilo que eu imaginava que era e depois a maior parte das coisas não eram [como as imaginava]: começou-se a revelar muito mais interessante […]: havia uma parte de Macau muito parecida com o que nós vemos nos filmes de New Orleans: prédios de arquitectura colonial mas com as grades […] e as varandas em ferro […] a zona da Baía da Praia Grande é lindíssima, Macau […] excedeu as minhas expectativas. […] na altura eu pensei: «- Mas que raio, pensava que isto era diferente!» O meu pai tinha-me dito: «- Atenção que aquilo é muito pequeno», mas também era maior do que aquilo que ele dizia que era […]. Domingos
Também o sobrepovoamento urbano e a elevada densidade populacional, uma das maiores do mundo - os dados oficiais referentes a 1991 registam a presença de quase 400.000 habitantes em cerca de 18 Km2, à volta de 20.000 por Km2; a compleição física e fisionómica dos habitantes, seus modos de estar e expressões culturais; a vibração da cidade animada pela vivacidade dos vendilhões e o frenesim de pessoas, carros, motociclos, bicicletas e ricochós; os estilos arquitectónicos; a tecnologia de ponta; a cor do mar, castanho e lodoso; assim como as devastadoras consequências das tempestades de Verão ofereciam, em simultâneo, aos recém- chegados, o que Fortuna (1999: 6), num outro estudo, designou de “paisagens olfactivas, sonoras e visuais”, “ambientes vividos e atmosferas sensíveis” que “(…) mobilizam capacidades cognitivas e sensoriais diversas”, acordando os jovens para um vasto manancial de elementos a contemplar, inalar, auscultar, tactear e saborear. Os primeiros tempos ali vividos foram sobretudo de descoberta através do olhar distanciado de quem ainda se encontra social, cultural e territorialmente desamarrado, não reconhecendo o meio de acolhimento como seu. Os biografados sentiam-se “estrangeiros”.
[A sensação era] espectacular, uma vontade de descobrir o que é que vai acontecer a seguir, na próxima esquina o que é que me vai surpreender, porque tu és surpreendida […] a todo o minuto, a qualquer hora, mesmo. Sofia
[…] apanhámos esse autocarro que estava pejado de chineses […], havia um chinês com uma galinha viva, porque os gajos iam ao mercado comprar galinhas vivas. Lembro-me que com o meu irmão também fui para o mercado […] e foi a estranheza total. Nós andávamos por aquelas ruas, era o cheiro, era o calor, era tudo e aí percebi que fazia mesmo parte […] do pacote… Catarina
Era tudo realmente muito diferente, desde tu ires ao mercado, e aquilo é tudo muito estranho, há muita cor, há muita…não é violência, […] mas há um grande sentido de movimento: tu entras no mercado, as pessoas gritam, […] cortam o peixe quase à estalada, as galinhas voam por todo o lado, tu não tens quase sítio para te mexer, toda a gente se mexe quase em cima de ti, carregam coisas à cabeça, […] para onde quer que fosse havia pessoas a passar, umas de bicicleta, outras de ricochó, os carros […]. […] é um sentido de confusão que tu cá não tens, é tudo muito mais ordenado, há muito mais espaço, tu aqui não sentes que estão mil pessoas em cima de ti […]. Teresa
Acompanhados pelos irmãos, pais e/ou colegas destes há mais tempo estabelecidos - cujas orientações e intermediação com os habitantes locais foram determinantes para amortecer “o impacto da mudança cultural”, palavras de Portes (1999a: 91) - percorreram ex-líbris da cidade como as Ruínas de São Paulo, o Largo do Leal Senado e ruas adjacentes, tacteando os espaços de referência dos migrantes portugueses, verdadeiras âncoras da sua identidade sociocultural, caso do Clube Militar.92
Integrando o conjunto das mais emblemáticas marcas físicas e simbólicas da presença lusa em Macau, o Clube Militar, requintado centro associativo, cumpria duas funções elementares que geralmente motivam a criação de associações de migrantes (a
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Edifício arquitectónico de traça colonial e um dos centros nevrálgicos da ‘comunidade’ portuguesa em Macau, o Clube Militar foi fundado em Abril de 1870 por um grupo de oficiais sob a forma de associação privada sem fins lucrativos designada de “Grémio Militar de Macau”, tendo como propósito tornar-se num espaço de convívio, lazer e conhecimento, este estimulado pela criação de uma biblioteca com livros militares, científicos, entre outros. Embora nos primeiros estatutos, datados de 1871, o Grémio admitisse apenas como sócios oficiais militares (do exército, marinha, reformados e aspirantes) ao fim de pouco tempo passou a agregar também civis. Em 1951 a instituição substituía a denominação de Grémio por Clube Militar e qualquer pessoa maior de dezoito anos podia associar-se desde que tida pela Direcção como “amiga da cultura, tradições e costumes portugueses”. Os objectivos do Clube assentavam na promoção da cultura lusa no território mediante a disponibilização de espaços para os associados - salas de convívio, leitura e jogo, bar, restaurante de gastronomia portuguesa, uma biblioteca - a par da organização de várias actividades (recepções sociais, conferências, exposições, excursões, etc.). Entendemos que o uso da nomenclatura ‘Clube’, de conotação algo distintiva, em detrimento de ‘Associação’, de pendor mais popular, é indicativa do privilegiado posicionamento social dos seus membros como pudemos confirmar ao longo da investigação. Para um aprofundamento da sua história cf. http://home.macau.ctm.net/~cmm/.
par da defesa de interesses colectivos). Cultural, permitindo reviver e preservar na sociedade hospedeira referências do país de origem (ou partida), ao nível da língua, imprensa escrita, gastronomia; e sociabilística, promovendo o interconhecimento entre conterrâneos que, no interior daquele espaço físico e sociocultural bem demarcado, cultivavam os seus vínculos intracomunitários e a identidade lusófona93.
Neste clube formaram-se e firmaram-se as redes sociais mais influentes no seio da ‘comunidade’ portuguesa, beneficiando aqueles que as integravam do capital associado - acesso privilegiado a um rol permanente de informações sobre a sociedade que habitavam em matéria política, económica, laboral, social e artístico-cultural. Tratava-se ainda de um local de convívio e de lazer intrageracional porquanto tendia a atrair vários membros da unidade doméstica, em especial adultos e crianças que aí confraternizavam, liam, tomavam refeições, bebiam café, jogavam cartas, pingue- pongue, bilhar, snooker e matraquilhos.
Embora poucos, houve quem se aventurasse para lá dos habituais roteiros turísticos e lusófonos, calcorreando os cantos e recantos do que apelidaram “mundo chinês”, vagueando pelas ruas a pé e/ou de autocarro, deambulando pelos jardins, espreitando templos, mercados, tintins, na tentativa de espiar as vivências da população local. “Primeiro estranha-se, depois entranha-se” diria a este propósito Fernando Pessoa, e na verdade aquela realidade entranhou-se a tal ponto que até os jovens (como Teresa) mais resistentes ao projecto migratório se renderam aos atractivos de Macau.
93 No estudo sobre associativismo e integração de jovens de origem africana em Portugal, Grassi (2008b:
749-768) dá conta, para além da vertente de dinamização cultural das associações de imigrantes, da sua vocação assistencialista, isto é, de apoio a situações de precariedade social. Apesar de a investigação concluir acerca da fraca participação dos jovens inquiridos nas associações que os representam - sobretudo a partir dos anos 90, fruto de um aumento da suspeição face à idoneidade dos seus dirigentes - destaca-se a relevância destes organismos não só como fonte de informação e esclarecimento dos imigrantes acerca dos seus direitos de cidadania, mas também enquanto canais de mediação institucional das populações imigrantes com instâncias políticas e económicas - quer das respectivas sociedades de origem, quer das de acolhimento - procurando, assim, encontrar respostas para as suas necessidades socioeconómicas. Segundo a autora, tal interlocução é designada por Woolcock (1999) de capital social de «conexão», o qual comporta um sentido vertical.