3.3 Fenomenologia: as lentes para se contemplar o mundo
3.3.1 Primeiridade, Secundidade e Terceiridade: a tríade primeira
Ao se aprofundar no exercício de contemplar, analisar e generalizar os fenômenos, Peirce identificou três elementos comuns a todos eles, a princípio chamou-lhes qualidade, relação e representação. Após certo tempo, além de adotar uma terminologia específica para os mesmos: Firstness (Primeiridade), Secondness (Secundidade) e Thirdness (Terceiridade), adquiriu uma consciência maior da abrangência que possuíam apesar de ter dedicado vários anos à tentativa de refutá-los.
Em 1885 ele concluiu um estudo denominado Um, dois, três: categorias fundamentais
do pensamento e da natureza, em que observava a ocorrência dessas categorias em
fenômenos investigados por áreas distintas, desde Psicologia a Fisiologia. Esses três elementos se consolidaram então enquanto categorias com feições formais e ontológicas. Peirce pôde assim avançar além das bases estabelecidas pelos filósofos com os quais dialogava: Aristóteles, Hegel e Kant. Desse modo, a Primeiridade, a Secundidade e a Terceiridade constituem a “tríade primeira” por fundamentarem toda a arquitetura da filosofia Peirciana. Conforme salienta Gradim (2006)
A categoria, essa forma generalíssima de dizer como o ser é, é sempre uma abstração que é extraída do fenômeno por via do esforço mental do homem. Aliás, Peirce explica que elas nunca chegam a dar-se de forma “pura” ou isolada: elas encontram-se inextricavelmente ligadas no acontecimento, e a separação, a precisão que delas é feita, com propósitos clarificadores, é sempre, de certa forma, artificial e construto humano. (GRADIM, 2006, p.228)
As categorias peircianas denotam ocorrências simultâneas em todo e qualquer fenômeno e não podem ser segmentadas ou observadas isoladamente, elas permitem observar as três nuances da ação sígnica de modo integrado. Sendo assim, a simplificação de uma proposta com elevado nível de exigência abstrativa se dá apenas por motivos didáticos e explicativos.
Primeiridade: é uma categoria que se caracteriza pela latência, imediaticidade ou mera
possibilidade presente em um fenômeno. Está para aquilo que é indeterminável, puro ou, em termos metafísicos, monádico (CP 1:303). Essa “primeiridade” das coisas é preenchida por noções como independência, liberdade, vagueza, originalidade, sentimento e qualidade.
Por exemplo, ao se deparar de súbito com o lado preenchido pela cor verde na bandeira do Brasil a uma distância de 2 cm de um telão tudo que alguém pode identificar de imediato é a mera qualidade do verde. Como esse suposto alguém ainda não percebeu que está diante de um símbolo nacional por não ter o distanciamento
necessário para observar a bandeira como um todo que está projetada no telão, a tendência contemplativa é que seja absorvido por aquele verde, que pode lhe sugerir várias coisas relacionadas com a cor verde sem, entretanto, conseguir discernir o que de fato está diante dele. Assim, a Primeiridade é uma das “três maneiras de se ver o mundo” que Moura (2006, p.7) denomina “perto demais”.
Visto que aquilo que é “primeiro” não depende de nada, ou seja, não possui em si relação com nada, a tentativa de relacionar esse “verde” com alguma coisa já não se atém mais ao território da Primeiridade e sim da Secundidade.
Secundidade: é a categoria caracterizada pelas noções de conflito, causa e efeito,
existência, realidade e concretude (CP 8.330). Enquanto a Primeiridade é independente, a Secundidade pressupõe a Primeiridade uma vez que é o prolongamento ou desencadeamento desta no tempo e no espaço. Conforme Santaella
Onde quer que haja um fenômeno, há uma qualidade, isto é, sua primeiridade. Mas a qualidade é apenas uma parte do fenômeno, visto que, para existir, a qualidade tem de estar encarnada numa matéria. A factualidade do existir (secundidade) está nessa corporificação material. (SANTAELLA, 1983, p.11)
Percebe-se então que a materialidade, enquanto uma das características da existência é o atributo preponderante na Secundidade e que esta representa o aspecto relacional ou associativo da realidade que é construída e apreendida pelos serem humanos.
Na continuação do exemplo anterior, um suposto alguém ao relacionar o verde com uma cor existente no elenco de suas experiências e ao notar que aquele verde reside num suporte material, que está retratado fisicamente em alguma coisa, pode realizar um afastamento necessário para ampliar a quantidade de associações que lhe permitirão apreender em que situação ele se encontra. Contudo, ele ainda não se deu conta que está diante de uma projeção da bandeira do Brasil, mas começa a constituir os elementos necessários para isso. Desse modo, esse alguém se encontra “mais ou menos perto” ao vivenciar a materialidade do que está diante dele.
A formulação do raciocínio ante a abordagem de um fenômeno já não pertence ao que Peirce concebe como Secundidade visto que esta “[...] é aquilo que dá à experiência seu caráter factual, de luta e confronto. Ação e reação em nível de binariedade pura, sem o governo da camada mediadora da intensionalidade, razão ou lei” (SANTAELLA, 1983, p.10). O que se segue ao esforço propiciado pelo conflito, ou ação e reação entre um primeiro e um segundo é, portanto, a mediação de um terceiro elemento.
Terceiridade: categoria que pressupõe a Primeiridade e a Secundidade e se constitui
pelas noções de generalidade, continuidade, difusão, inteligência, crescimento e infinidade (CP 1:340). É o território do estabelecimento de ordem, lei e convenção, da racionalidade e das capacidades de correlação e representação.
Conforme apontado por Moura (2006, p.7) a Terceiridade “[...] é a categoria da mediação que tem por função relacionar um segundo a um terceiro numa síntese intelectual. Corresponde à inteligibilidade do pensamento em signos”. Assim, a Terceiridade é a nuance perfeita da ação sígnica, visto que nessa dimensão se dá a formação do significado. Em decorrência disso, o conceito genuíno do signo peirciano se encontra nela. As outras formas de manifestação sígnica, com feições predominantes de Primeiridade e Secundidade, são denominadas quase-signos uma vez que possuem a capacidade de sugestão e indicação sem, contudo exercer a representação.
Na sequência do exemplo proposto, a Terceiridade se manifesta no estado cognitivo em que o indivíduo em questão compreende que está diante da cor verde que preenche o retângulo, em cujo centro se encontra o losango colorido pelo amarelo, em cujo interior se encontra um círculo azul estrelado no qual está escrito “Ordem e Progresso”. Se fosse considerado que este indivíduo apresenta certa familiaridade com o cenário retratado, novas conexões de sentido poderiam ser estabelecidas, o verde enquanto representação convencional das matas e florestas do território brasileiro, o amarelo das
riquezas do país, o azul dos céus brasileiros bem como o cunho positivista da inscrição “Ordem e Progresso”.
Identifica-se então a Terceiridade como uma outra “maneira de se ver o mundo” caracterizada pelo distanciamento propiciado pela razão (MOURA, 2006, p.7). O fato de esta categoria abranger o aspecto genuíno de ação sígnica (CP 8:332) não lhe atribui o caráter de final, mas pressupõe continuidade, expansão e crescimento visto que a ação do signo é a geração de outro signo. Ou seja, o signo é um elemento triádico e autogerativo, sendo essa autogeração de caráter infinito manifesta no conceito de semiose.
Por semiose, entende-se a dinâmica infindável em que ocorre a geração de signos mais desenvolvidos a partir da ação de signos anteriores. Já o hábito é fruto de semioses anteriores e também se constitui como determinante de comportamentos futuros (FERNÁNDEZ DE BARRENA, 2003).
Pertinente ao entendimento dos conceitos de semiose e hábito é noção de observação colateral que nas palavras de Peirce é “[...] uma prévia familiaridade com aquilo que o signo denota” (CP 7:179). Ou seja, os processos de significação produzidos na mente de um sujeito ao se deparar com determinado signo tendem a ser infinitos e são moldados pela experiência ou conhecimento anterior que ele possa ter em relação ao que o signo representa.
Um homem também é signo, apto a desencadear processos interpretativos em outros. Na relação comunicativa, por exemplo, a concepção semiósica “É o modo como um primeiro sujeito tenta intervir na semiose de outrem por intermédio da interação do intérprete com uma dada estrutura semiósica construída pelo primeiro” (MOURA, 2002, p.65). Neste sentido, a concepção semiósica é caracterizada pela intensionalidade de um sujeito ao conceber uma estrutura ou cenário semiótico com vistas a intervir na
semiose do outro com o qual estabelece interação. A concepção semiósica é a
consciência que o homem tem da ação de seu interpretante em uma outra mente e o movimento que ele implementa para influenciar essa outra mente (MOURA, 2002).
Na web atual, observa-se a disseminação de produtos sígnicos (documentos,
softwares, interfaces, etc.) concebidos semiosicamente e a configuração de cenários
semióticos tanto por desenvolvedores quanto por usuários desta plataforma.
Um cenário semiótico, conceito adaptado de Stockinger (1999), é um arranjo sígnico baseado no estímulo à sensibilidade dos sujeitos para propiciar o acesso aos conteúdos informacionais a partir da proposição de percursos de significação. A manifestação mais evidente de cenários semióticos na web recai sobre as interfaces. A interface é definida em IHC como a parte de um sistema computacional com a qual o sujeito entra em contato de modo físico, perceptivo ou conceitual Moran (1981, citado por PRATES; BARBOSA, 2007).
Criada na década de 80, a Interação Humano-Computador (IHC) é uma especialidade da Ciência da Computação que se volta para os aspectos relacionados com a interação entre pessoas e computadores Preece et al. (1994 citados por Prates; Barbosa, 2007). Por envolver não apenas os computadores, mas também as pessoas que os utilizam, a IHC é caracterizada pela multidisciplinaridade e se localiza na interseção das ciências da computação e informação e ciências sociais e humanas (PRATES; BARBOSA, 2007).
A IHC possui uma teoria que se baseia na Semiótica para a explicação dos fenômenos envolvidos no projeto, uso e avaliação de sistemas computacionais interativos, denominada Engenharia Semiótica. Esta se concentra na comunicação que é feita entre designers e usuários a partir das interfaces dos sistemas Souza (2005, apud PRATES; BARBOSA, 2007)
Percebe-se a fertilidade do conceito de signo no desenvolvimento de análises e teorias sobre fenômenos que se dão nos contextos digitais atuais em que os ambientes criados pela criatividade dos sujeitos manifestam arranjos e tipologias sígnicas articuladas nas interfaces, nos objetos informacionais e na discursividade.