Parte II – Dinâmicas Internacionais Contemporâneas
2.2 A gente não quer só comida
2.2.1 Primeiro Ator: Estado
A definição de Estados cabe a Waltz, para quem estes “[...] são actores unitários que, no mínimo, procuram a sua própria preservação e, no máximo, visam o domínio universal” (WALTZ, 2002, p. 164).
A discussão sobre o fim do Estado não é recente, como bem relata Pfetsch (1998, p. 1):
John Hertz falava, já em 1969, da "crise do Estado-nação territorial" e Ernst-Otto Czempiel, no mesmo ano, referia-se à "soberania anacrônica"; Daniel Bell reforça: "O Estado-nação está-se tornando demasiado pequeno para os grandes problemas e grande demais para os pequenos problemas da vida". Essas formulações revelam duas formas da evolução contemporânea: de um lado o aumento das atividades internacionais, que um Estado nacional sozinho não dá conta de realizar; a abertura dos mercados, como consequência da constituição de um mercado interno europeu e da liberalização mundial do comércio, desencadeou processos que ignoram, em larga medida, a autoridade dos Estados nacionais. De outro lado, o Estado vê-se confrontado com o incremento de processos subnacionais, como os que transparecem tanto nos conflitos étnicos, nos movimentos autonomistas, e mesmo em secessões, como em processos de individualização.
Na onda globalizadora da década de 90, na intensa discussão acerca da fragilidade das fronteiras, foi questionada a natureza dos Estados, a necessidade de sua existência, se seriam superados e por quem. Rosenau (1990), em Turbulence in World Politics, utilizou a palavra “turbulência” para tentar mostrar uma bifurcação do cenário internacional; isto é, para ele, dois caminhos coexistem: o Estado soberano com uma lógica institucional e uma outra lógica institucional, na qual outros atores dentro, fora, acima e abaixo dos Estados coexistem, ignorando até a referência identitária ou regulatória aos Estados. Um mundo multicêntrico.
Essas mudanças globais também podem questionar a utilidade do próprio Estado nacional. O principal agente autônomo nas questões políticas e internacionais nos últimos séculos parece não apenas estar perdendo o controle e a integridade, mas também parece ser o tipo errado de unidade para enfrentar as circunstâncias mais novas. Para alguns problemas, é uma unidade demasiado grande para operar com eficiência; para outros, é pequeno demais. Em consequência, há pressões para uma “redistribuição de autoridade”25 tanto para cima como para baixo, criando estruturas que poderão responder melhor às forças da mudança de hoje e de amanhã.
Kenneth Waltz (2002, p. 135) dirige o holofote para um ponto inédito e ilumina a conclusão desse debate, mostrando-nos a longevidade dos Estados, células da sociedade internacional e do sistema internacional: “Os Estados são as unidades cujas interacções formam a estrutura dos sistemas das relações internacionais. Irão manter-se assim durante muito tempo. A taxa de mortalidade dos Estados é notavelmente baixa. Poucos Estados morrem; ao contrário de muitas firmas”.
Além da capacidade de sobrevivência dos Estados, defendida por Waltz, convém destacar que nenhum outro ator (novo ou não) desempenha o papel dos Estados, substituíndo- os, como percebeu Paul Kennedy: “Em suma, mesmo que a autonomia e funções do Estado tenham sido enfraquecidas pelas tendências transnacionais, não apareceu nenhum substituto adequado para ocupar o seu lugar como a unidade-chave na reação ao desafio global” (KENNEDY, 1993, p. 132).
Cabe compreender os limites desse soberano Estado, de vida longa, insubstituível – ao menos por enquanto –, segundo Kennedy. Convém enxergar o espectro de sua soberania, espectro esse que é limitado: aqueles que buscam a sobrevivência apresentam liberdade limitada em razão da necessidade de ajuda dos outros; são soberanos, mas dependentes. Entretanto, aqueles que buscam o domínio mundial já passaram da fase de sobrevivência e
estão em uma segunda etapa, mais confortável, de decisão sobre quem será merecedor de sua ajuda. Assim,
[...] Dizer que os Estados são soberanos não é dizer que eles podem fazer o que quiserem, que eles são livres da influência dos outros, que eles são capazes de conseguir aquilo que querem. Os Estados soberanos podem ser muito pressionados por todos à sua volta, impelidos a agir de forma que prefeririam evitar, e incapazes de fazer quase tudo como gostariam. A soberania dos Estados nunca implicou o seu isolamento dos efeitos da acções de outros Estados. Ser soberano e ser dependente não são condições contraditórias. [...]. O que é então a soberania? Dizer que um Estado é soberano significa que ele decide por si mesmo como irá enfrentar os seus problemas internos e externos26, incluindo se quer ou não procurar a assistência de outros e ao
fazê-lo limitar a sua liberdade chegando a compromissos com eles. [...] Estados soberanos são sempre constrangidos e, muitas vezes, muito constrangidos [...]. (WALTZ, 2002, p.135-6).
Dentro de sua limitada soberania e na esfera da teoria internacional do realismo, é compreensível que cada Estado busque seus interesses. Como afirmam Villa e Tostes, “assim como a natureza humana é egoísta e imutável, os Estados jamais deixarão de ser expansionistas. Este pressuposto a respeito da natureza auto-interessada dos homens e das instituições, e ainda da irreversibilidade do conflito como fruto da coexistência entre atores, não deixa brechas para a defesa da relação necessária entre regime político e paz” (2006, p. 71).
Similar é o universo das empresas: “[...] Firmas e Estados são unidades semelhantes. Através de todas as suas variações de forma, as firmas partilham certas qualidades: são unidades egoístas que, dentro de limites impostos pelo governo, decidem por si próprias como enfrentar o seu ambiente e como trabalhar para alcançar os seus fins [...]” (WALTZ, 2002, p. 138).
Os Estados e as empresas são, afinal, expansionistas... “A gente não quer só comida...”.