3 Metodologia: o caminho percorrido na creche
3.5. O percurso com o berçário II - meus companheiros de
3.5.1. Primeiro Encontro - Conhecendo o contexto - Olhos curiosos e
Este seria o primeiro desafio a ser vencido, o de ser aceito pelo grupo. Era um momento de estranhamento para as crianças e para mim.
A sala do berçário II era composta por vinte e quatro crianças matriculadas com um caso de inclusão, um menino com paralisia cerebral, ele não andava e não falava, não havia uma cuidadora para ele na sala e esta não possuía nenhuma adaptação ou qualquer outro recurso que favorecesse seu desenvolvimento.
O berçário II possuía um espaço grande, ficava de frente para duas outras salas (berçário e maternal), não possuía porta, assim tanto as crianças desta sala como as das outras duas, podiam acompanhar o que estava acontecendo umas nas outras, a saída das crianças da sala do berçário II era impedida por um berço que ocupava o local da porta. Essa situação era provisória, pois a porta já estava sendo providenciada. Ao lado esquerdo da sala ficavam alguns colchões dispostos no chão para que as crianças pudessem repousar quando sentissem sono, dando autonomia a elas para descansarem quando quisessem, no fundo da sala havia alguns cadeirões que eram utilizados para dar suco ou outro alimento para as crianças menores. As paredes da sala possuíam poucos visuais que eram feitos em E.V.A. e ficavam muito acima dos olhos das crianças. Ao olhar para as paredes vinha em nossas mentes o que afirmava Malaguzzi (1999, p. 73) “que as paredes falam e documentam”, elas nos contavam acerca das pessoas que habitavam aquele lugar, que concepção os adultos possuíam das crianças e tantas outras coisas que ainda iríamos descobrir.
Havia poucos brinquedos na sala: alguns ursos de pelúcia e peças de encaixe que ficavam guardados fora do alcance das crianças. Com relação a isto Ambrogi (2011) aponta-nos que um espaço torna-se agradável, inclusive a sala de aula, quando os materiais, incluindo os brinquedos ficam disponíveis às crianças. Para isso torna-se necessário que estejam organizados em caixas, cesto no chão ou em prateleiras na altura das crianças. Fato este referendado pelo documento do MEC - Critérios para um atendimento em creches que respeite os direitos fundamentais das crianças que aponta “Os brinquedos estão disponíveis às crianças em todos os momentos [...] guardados em locais de livre acesso às crianças [...] guardados com carinho, de forma organizada” (CAMPOS, 2009, p. 14)57
.
A sala possuía uma televisão e um aparelho de DVD que ficavam ligados durante um bom período da tarde. Quanto ao tempo de exposição da criança pequena à televisão em creche, o documento do MEC acima citado recomenda “Não deixamos nossas crianças assistindo televisão por longos períodos”58
. O tempo que a criança passa na creche deve ser um período de vivências diversificadas que lhe garanta o acesso às diversas linguagens e com um tempo grande para o brincar livre.
Após as crianças entrarem na sala e receberem o suco, os mais novos eram colocados no cadeirão pelos adultos e as mais velhas posicionavam-se no tapete viradas para o vídeo que era ligado, esta prática era diária nesta sala.
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CAMPOS, Maria Malta. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Critérios para um atendimento em creches que respeite os direitos fundamentais das crianças / Maria Malta Campos e Fúlvia Rosemberg. – 6. ed. Brasília : MEC, SEB, 2009.
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Encerrada a hidratação foram colocados pelas ADBs os brinquedos da sala para as crianças, passado algum tempo a professora retirou de dentro de um balcão alguns chocalhos confeccionados por ela de garrafas pet. Ela dizia: “Olha como eles gostam”. Imediatamente as crianças deixaram os brinquedos industrializados e correram para o brinquedo-sucata produzido pela professora. Conforme apontou-nos anteriormente WEISS (1989) os brinquedos industrializados por serem uniformizados, logo perdem seu encantamento e são trocados por outros objetos. A euforia tomou conta da sala, chacoalhavam, batiam uma garrafa na outra, explorando de diversas maneiras como é próprio desta idade, como não havia garrafas suficientes para a sala toda a professora recolheu os brinquedos. Importante ressaltar que ao oferecer brinquedos ou qualquer outro objeto às crianças é necessário ter o número suficiente para todas e eles não devem ser muito diversificados (exemplo: dez garrafas transparentes com grãos e uma garrafa amarela com glitter e lantejoulas), tomando esses cuidados tende-se minimizar as tensões e as mordidas.
Algumas crianças voltaram para o DVD, outras andavam pela sala procurando o que fazer, entre uma história contada pela professora e músicas na sala, um menino P. (dois anos e dois meses) encontrou um tesouro entre os brinquedos guardados no balcão, era um tambor e saiu pela sala alegremente a tamborear, assim essa criança transgredia quebrando a rotina.
Mais uma cena despertou-nos a atenção, duas crianças da sala iniciaram uma brincadeira de passar por debaixo dos cadeirões, utilizando-os ora como túnel, ora como cabana e divertiam-se alegremente entrando e saindo deles, logo outras crianças aderiram à brincadeira, esta cena passava despercebida pelos adultos da sala que estavam detidos na rotina (troca e banho) e evitar as mordidas, num dado momento chamei a atenção da professora para as ações das crianças brincando nos cadeirões, ela disse “eles sempre brincam assim”. Duas coisas ficaram claras nessa fala e eram imprescindíveis pensar e discutir sobre elas nos encontros a seguir para que a pesquisa pudesse ser realizada e ao mesmo tempo garantir experiências estimulantes e ricas às crianças. A primeira era de que o olhar dos adultos que trabalhavam com as crianças precisavam “estar focalizados sobre as crianças e centrados nelas” (MALAGUZZI, 1999, p. 74)59 e ainda “[...] escutar as crianças é tanto necessário quanto prático”60
. Percebíamos que essas duas premissas tão importantes deveriam permear toda a pesquisa, precisavam fazer parte das pautas das reuniões com a professora, porque era imprescindível que essa prática fosse constituída neste espaço, pois o cuidar ainda excedia o educar no atendimento destas crianças. É importante salientar que nas práticas educativas com crianças bem pequenas o cuidar e o educar são indissociáveis, pois ao banhar ou alimentar uma criança ou realizar qualquer outra ação de cuidado também se está educando, pois as crianças nestes momentos estão aprendendo com os adultos noções de higiene, cuidado com o outro, hábitos culturais e muitas outras coisas, assim do mesmo modo quando se ensina algo aos pequeninos buscando educá-los também estamos cuidando deles, mas infelizmente ao trabalhar com crianças bem pequenas os adultos acabam privilegiando o cuidar. Enquanto percebíamos a preocupação dos adultos com os cuidados físicos, compreendíamos o desejo das crianças em
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MALAGUZZI, Loris. História, Ideias e Filosofia Básica. In: EDWARDS, Carolyn; GANDINI, Lella; FORMAN, George (orgs.). As cem linguagens da criança: a abordagem de Reggio Emilia na educação da primeira infância. Tradução: Dayse Batista. Porto Alegre: Editora Artes Médicas Sul Ltda, 1999.
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nos sinalizar que eram seres criativos, ativos e potentes ao criar recursos para suas brincadeiras enquanto testavam suas hipóteses, realizavam suas pesquisas com os objetos, ao mesmo tempo em que transgrediam a rotina, sendo felizes com qualquer material que pudessem atribuir função lúdica. Isto porque segundo Malaguzzi (1999, p. 76) as crianças:
Em qualquer contexto, elas não esperam para apresentar questões a si mesmas e para formar estratégias de pensamento, ou princípios ou sentimentos. Sempre, e em todo o lugar, as crianças assumem um papel ativo na construção e aquisição de aprendizagem e da compreensão. No encontro com a professora a partir das anotações e das fotos, retomamos as ações das crianças - brincando com o chocalho feito de garrafa pet e com os cadeirões. O destaque nessas experiências foi direcionado para o interesse da criança, a sua criação, o seu desejo de aprender, de pesquisar e de criar novas possibilidades, mesmo para os objetos que já possuíam uso previamente definidos. Foi destacada a necessidade de ouvir atentamente o que as crianças estavam nos dizendo e de focalizar o nosso olhar em suas ações. Neste encontro, a partir do que as crianças nos sinalizaram, passamos a pensar nas possibilidades do próximo encontro. Tomando como base o que foi proposto por Vygotsky (2009) que a nossa tarefa é a de alargar as experiências da criança, de modo que o meio que a cerca deve ser rico de possibilidades para que possa apropriar-se dele, desejando explorá-lo, compreendê-lo e transformá-explorá-lo, por meio da visão, da escuta, do tato e da experimentação de um modo geral, utilizando diferentes materiais. E também reforçado por Rinaldi “[...] não devemos esquecer a importância do papel do adulto no oferecimento de um ambiente, de materiais e de equipamentos estimulantes para as crianças” (1999, p. 117).
Ao partir dessa premissa optamos por trazer para sala algumas sucatas - rolos de linha de papelão e de plástico para ampliar o repertório das experiências das crianças.