1.2 Cena Dois: As abordagens dramáticas e o teatro nas escolas
1.2.1 Primeiro Entreato: O jogo
A relação entre teatro e
jogo
é estreita, pois muitos são os diretores que partem da prática desta atividade para conceber seus espetáculos. Segundo Koudela, o processo de trabalho comjogos
“visa efetivar apassagem
do teatro concebido comoilusão
para o teatro concebido comorealidade cênica
”70. Tão estreita quanto a relação teatro-jogo
é a relação entrejogo
e vida. Essa dependência fica evidente, quando Slade trata da ausência do ato de jogar na vida do indivíduo:A
falta de jogo
pode significar uma parte de si mesmopermanentemente perdida
. É esta parte desconhecida, não criada, do próprio eu, esse elo perdido, que pode ser a causa de muitas dificuldades e incertezas nos anos vindouros.71Tanto no teatro quanto na vida, o jogo constitui um elemento fundador. Diversos estudiosos do teatro e das áreas do conhecimento relacionadas a ele se dedicaram ao estudo do
jogo
. A partir da década de cinqüenta, do século passado, surgiram muitos trabalhos a respeito do tema e também diversas propostas educacionais que buscam nele a sua fundamentação. Nessa profusão de psicólogos, arte-educadores, diretores teatrais e professores que já contribuíram para uma discussão séria sobre o tema, surgiram diversos pensamentos que, embora se nutrissem de algumas fontes comuns, deram ao tema enfoques distintos. Desse modo, a expressãojogo,
que designa a criação e a improvisação coletiva, passou a receber diversos complementos que acrescentavam a ela o sentido específico com que cada estudioso a designava.Slade, citado por Courtney como precursor do
teatro criativo
, propõe a terminologiajogo dramático infantil
e assim a define: “é uma forma de arte por direito próprio, não é uma atividade inventada por alguém, mas sim o comportamento real dos seres humanos.”72Segundo ele, o jogo dramático “é uma parte vital da vida jovem. Não é uma atividade de ócio, mas antes a maneira da70KOUDELA, 1992, op. cit., p 148.
71SLADE, Peter.
O jogo dramático infantil.
São Paulo: Summus, 1978, p. 20. (grifo nosso) 72Ibidem, p. 17.criança pensar, comprovar, relaxar, trabalhar, lembrar, ousar, experimentar, criar e absorver.”73
O autor atribui à ação de
jogar
(no sentido de brincar, fazer de conta) o impulso primordial, araiz
dojogo dramático
. A brincadeira pode ser a de representar o jogo e essabrincadeira teatral infantil
pode apresentar ocasiões de caracterização e situação emocional tão nítidas que a fazem ascender para ojogo
dramático infantil
. As categorias que Slade propõe não estão de acordo com a distinção entrejogo realista
(onde a situação a ser encenada é pré-estabelecida pelo orientador, seja ele o professor ou o diretor teatral) ejogo imaginativo
(atividade na qual a encenação é fruto da imaginação e criatividade do indivíduo e não conta com qualquer interferência externa), como estabelecem alguns “observadores de crianças”. Na sua opinião,[...] o jogo (e certamente nos estágios mais precoces) é tão fluído, contendo a qualquer momento experiências da vida cotidiana exterior e da vida imaginativa interior, que ser torna discutível se um deveria ser encarado como uma atividade distinta do outro. É importante, naturalmente que a diferença seja compreendida, mas
a distinção
pertence mais ao intelecto do que ao jogo propriamente dito
. A criança sadia se desenvolve para a realidade à medida que vai ganhando experiência de vida.74O
jogo realista
não é refutado por Slade, pelo contrário, é sugerido por ele dentre as dinâmicas e exercícios que descreve e propõe. O que ele não quer é que se efetive uma divisão entre esse e ojogo imaginário
, uma vez que, na prática, ambos dificilmente são dissociados. Desse modo, entendendo a prática dojogo
como encaminhamento fundamental para a sua teorização, o autor propõe a distinção entrejogo projetado
ejogo pessoal
. O primeiro caso é “mais evidente nos estágios mais precoces da criança pequena, que ainda não está pronta para usar seu corpo totalmente”.75 Por conta disso, nojogo projetado
, o corpo é usado com algumas restrições, ao contrário da mente, que é amplamente ativada. Há uma tendência à quietude e a principal parte do corpo utilizada são as mãos, pois essa categoria conta com a presença de objetos ou brinquedos que,73SLADE, 1978, op. cit., p. 17. 74Ibidem, p. 19. (grifo nosso) 75Ibidem, p. 19.
“ou assumem caracteres da mente ou se tornam parte do local [...] onde o drama acontece”.76
O
jogo pessoal
se manifesta aproximadamente aos cinco anos de idade e se intensifica de acordo com o controle que a criança exerce sobre o corpo. De acordo com Slade “é o drama óbvio: a pessoa inteira ou o ‘eu’ total é usado. Ele se caracteriza por movimento e notamos a dança entrando e a experiência de ser coisas ou pessoas”.77 Nota-se, nesse caso, a disposição da criança para o barulho e para o esforço físico.Quanto à influência do
jogo
na vida da pessoa, podemos esperar, segundo Slade, contribuições específicas de cada categoria. Dojogo projetado
pode-se ter, como provável, o desenvolvimento de atividades relacionadas à arte, jogos e esportes calmos, bem como a habilidade em ler e escrever. Já, dojogo
pessoal,
espera-se contribuição na propagação das mais variadas formas de atuação, tais como esportes que envolvem ação, liderança e controle pessoal.A divisão de Slade encontra uma correspondência na proposta de Lopes que, ao olhar para a primeira década de vida da criança, esquematiza a sua relação com a brincadeira e com o jogo em três conjunturas:
exteriorização
simbólica, brincadeira dramatizada
ejogo dramático
.Para cada categoria, a autora apresenta breves considerações, as quais exibimos de forma sintetizada. A
exteriorização simbólica,
segundo Lopes, engloba crianças de um a três anos, estágio em que se verificam manifestações corporais bastante primárias e sem o uso consciente do gesto e do movimento.A
brincadeira dramatizada
comporta, de acordo com a autora, as formas primárias ou pré-esquemas da transformação do fato. Ela se desenvolve com duas fases distintas, onde aprimeira
se subdivide emfundo de quintal
(de quatro a seis anos) efaz-de-conta
(de seis a oito anos). Ambas as fases possuem como característica o pré-ilusionismo ou o pré-realismo, não constituindo um ato consciente do meio dramático como linguagem. A diferença entre elas é que na primeira, de acordo com a autora, “não há história, mas uma relação afetiva simbolizada. [Neste caso] a imaginação constrói uma pequena estória; constrói76SLADE, 1978, op. cit., p. 19. 77Ibidem, p. 19.
rudimentarmente personagens; elabora materiais funcionais que apóiam o jogo”78; e a segunda é mais propriamente o “brincar de teatro”, “onde a criança está mais empenhada em representar bem e bem caracterizar.”79
Quanto à
segunda fase
dabrincadeira dramatizada,
também chamada derealismo
, a autora relata que abrange crianças de oito a onze anos e que se trata de uma metamorfose significativa, tendo em vista o estágio precedente. Segundo ela, é o momento em que a criança se “coloca diante do momento de fazer teatrinho, rejeitando toda interferência que quebre sua intenção”. Nesta fase, ela assume com mais responsabilidade os papéis, conservando esses nomes e gestos após as atividades.O terceiro estágio assinalado por Lopes, o
jogo dramático
, pode ser praticado por indivíduos maiores de onze anos. Essa fase se diferencia da anterior “por possuir regras próprias, que são manipuladas pelos atuantes-atores, numa experiência grupal”. Para essa categoria, a autora assim se refere: “é uma atividade estética onde os indivíduos participam num estágio mais avançado de suas qualidades, associadas à flexibilidade da personalidade em encarar papéis que não são os seus”.80Relacionando as fases propostas por Lopes às considerações de Slade, inferimos que a aproximação das colocações dos autores se efetiva no olhar que ambos lançam para a criança nos primeiros anos de vida, compreendendo, cada um a seu modo, as mais remotas manifestações dessas, como momentos específicos e importantes do desenvolvimento humano.
No rol dos autores que se propuseram a estudar o
jogo,
Viola Spolin tem lugar de destaque. A autora dedicou sua carreira de professora de teatro à sistematização de uma proposta para o ensino desta arte em diversos e opostos contextos. Sua definição dejogo
articula os princípios que destacamos como fundamentais para o desenvolvimento da arte dramática, como envolvimento, estimulação da criatividade, liberdade criadora e, principalmente, a oportunidade de experimentar, conforme podemos conferir:78LOPES, Joana.
Teatro, Educação Tridimensional.
Disponível em: <www.cbtij.org.br>. Acessoem: 14 abr. 2006.
79Ibidem. 80Ibidem.
O jogo é uma forma natural de grupos que propicia o
envolvimento
e aliberdade
pessoal necessários para a experiência. Os jogos desenvolvem as técnicas e habilidades pessoais necessárias para o jogo em si, através do próprio ato de jogar. As habilidades são desenvolvidas no próprio momento em que a pessoa está jogando, divertindo-se ao máximo e recebendo toda a estimulação que o jogo tem para oferecer – é este o exato momento em que ela estáverdadeiramente aberta
.81A experiência é, para Spolin, resultado do
jogo
, e, considerando qualquer pessoa capaz de experimentar, ela afasta do seu programa de oficinas qualquer suposição que pretenda relacionar ojogo
à presença ou à ausência do talento:Todas as pessoas são capazes de atuar no palco. Todas as pessoas são capazes de improvisar. As pessoas que desejarem são capazes de jogar e aprender a ter valor no palco.
Aprendemos através da experiência, e ninguém ensina nada a
ninguém
. Isto é válido tanto para a criança que se movimenta inicialmente chutando o ar, engatinhando e depois andando, como para o cientista com suas equações.Se o ambiente permitir, pode-se aprender qualquer coisa, e se o indivíduo permitir, o ambiente lhe ensinará tudo que ele tem para ensinar.
“Talento” ou “falta de talento” tem muito pouco a ver com
isso
.82Na perspectiva da autora, a experiência provém da interação entre indivíduo e ambiente e não há limites para ela ensinar a quem se disponha a jogar. Quanto ao tratamento que Spolin dá ao
jogo
, no sentido de adequá-lo a uma das categorias já citadas, inferimos que ojogo realista
, ligado à vida exterior da criança, também conhecido comojogo de regras
, por estabelecer, de antemão, os passos elementares da atividade a ser desenvolvida, é o princípio de seus exercícios e, desse modo, a palavrajogo
, a partir de Spolin, passa a receber o complementoteatral
.Analisando as atividades que a autora propõe em seu treinamento, verificamos tratar-se de propostas esquematizadas ou pré-esquematizadas, diferenciando-se do faz-de-conta, no seu sentido natural (
jogo imaginário
). É dentro de um espaço e de uma cena determinados e, a partir de personagens81SPOLIN, Viola.
Improvisação para o teatro.
São Paulo: Perspectiva, 1992, p. 4. (grifo nosso) 82Ibidem, p. 4. (grifo nosso)pré-estabelecidas, que o
jogo teatral
se realiza. Por vezes, um ou dois desses elementos podem faltar, deixando espaço para a elaboração coletiva dos mesmos; em suma, é propondo alguns limites para a improvisação que Spolin concebe osjogos teatrais
, tornando-os uma atividade de regras explícitas. Outra característica dos exercícios de Spolin é que o grupo que os pratica pode ser dividido em dois times: sujeitos que jogam e sujeitos que observam, procedimento que leva o aluno a transitar por um binômio fundamental da atividade teatral: atores e platéia.Colocados frente a frente, percebemos que o
jogo dramático
rearticula as características dojogo imaginativo
e ojogo teatral
às características dojogo
realista
. A diferença fundamental entre essas categorias é quejogos dramáticos
ouimaginativos
possuem como princípio a livre articulação de idéias, deixando os alunos ou atores criarem e desenvolverem, por conta, as atividades. Osjogos
teatrais
ourealistas
, por sua vez, distanciam-se dos demais por estabelecerem algumas normas e regras, tendo em vista alguns encaminhamentos pré- estabelecidos para o desenvolvimento das atividades.A par desses conceitos, salientamos uma característica dos jogos que termina por justificar a existência dessas várias categorias e reafirma a importância de cada uma delas no contexto escolar: a possibilidade de os jogos evoluírem e, numa perspectiva crescente, resultarem em dinâmicas e encenações que, de fato, constituam uma experiência significativa com a linguagem teatral. Essa idéia é levantada pelos PCNs (Ensino de quinta a oitava série): “O
jogo
teatral
é um jogo deconstrução
em que a consciência do ‘como se’ é gradativamente trabalhada, em direção à articulação de uma linguagem artística, o teatro.”83O documento salienta o caráter progressivo que permeia o
jogo
, fazendo com que o aluno caminhe, a partir dele, para a compreensão e manipulação da linguagem teatral. Essa possibilidade também é prevista pelos PCNs (Ensino de primeira a quarta série):83BRASIL, 1998, op. cit., p. 88. (É importante salientar que, embora utilize a nomenclatura de
Spolin (
jogo teatral
) este documento não está se referindo à categoria desenvolvida pela autora, ou seja, a categoria análoga aojogo de regras
. Percebemos ao examinarmos o texto do qual retiramos a citação).A
dramatização
acompanha odesenvolvimento da criança
como uma manifestação espontânea, assumindo feições e funções diversas, sem perder jamais o caráter de interação e de promoção de equilíbrio entre ela e meio ambiente. Essa atividadeevolui
do jogo espontâneo [jogo dramático] para o jogo de regras [jogo teatral], do individual para o coletivo.84De acordo com o referido texto, salientamos que a evolução do
jogo
, das categorias mais simples para as mais complexas, é inerente à criança, ou seja, ela encontra correspondência no seu desenvolvimento. Nesse sentido Koudela assegura que “a mesma revolução que ocorre com a criança em desenvolvimento pode ser acompanhada no processo de crescimento do indivíduo no palco.”85 Assim, a dramatização funciona como mediadora entre a criança e o mundo, possibilitando a interação e o equilíbrio necessários para um desenvolvimento sadio.O crescimento sucessivo das modalidades do
jogo
também é notificado por Courtney:Na medida em que a criança vai se tornando mais velha, ela
gradualmente
necessita de uma platéia, assim há um tipo de jogo para cada idade determinada, e a educação deve propiciar-lhe um desenvolvimento da experiência dramática.86Ao sugerir a necessidade de platéia para a criança, o autor está supondo a mudança do
jogo dramático
para ojogo teatral
e também para estágios mais avançados, como a encenação teatral. Essa idéia também é assimilada por Marie Dienesch, que afirma que “o Jogo Dramático constitui-se na melhor e indispensável preparação ao teatro para os alunos que, especialmente dotados, poderão abordar uma forma de arte mais complexa e mais elaborada”.8784BRASIL, 1997, op. cit., p. 83. (grifo nosso) 85KOUDELA, 1992, op. cit., p 148.
86COURTNEY, 2003, op. cit., p. 47. (grifo nosso)
87 DIENESCH, Marie. Jogo dramático e teatro escolar.
Revista World Teatre,
n. 3, 1952. In:A passagem de um estágio a outro, ao longo do desenvolvimento intelectual da criança, é explicada por Koudela como
[...] uma
transição
muitogradativa
, que envolve o problema de tornarmanifesto
o gesto espontâneo e depois levar a criança àdecodificação
do seu significado, até que ela o utilizeconscientemente
, para estabelecer o processo de comunicação com a platéia.88A autora caracteriza a mudança de uma categoria a outra na medida em que a expressão da pura imaginação passa a ter um sentido consciente de comunicação, traçando, assim, a diferença essencial aos dois níveis do
jogo.
Olga Reverbel também compartilha dessa idéia e encaminha suas considerações para o campo escolar, apontando o jogo como uma forma de expressão que pode acompanhar o aluno em qualquer estágio:O jogo dramático é uma atividade
rica
que pode ser aplicada em qualquer série, da pré-escola ao 2º grau [...].O que varia é o tema do
jogo
, que tende a tornar-se progressivamente maiscomplexo
, acompanhando a faixa etária dos participantes.89Portanto o
jogo
deve ser cultivado como um modo de fortalecer o processo de expressão, que é intrínseco ao ser humano, de acordo com os PCNs (Ensino de primeira a quarta série):A
criança
, ao começar a freqüentar aescola
, possui a capacidade dateatralidade
como um potencial e como uma prática espontânea vivenciada através dos jogos de faz-de-conta. Cabe àescola
estar atenta aodesenvolvimento no jogo dramatizado
oferecendo condições para o exercício consciente e eficaz, para aquisição e ordenação progressiva da linguagem dramática. Deve tornar consciente as suas possibilidades, sem a perda da espontaneidade lúdica e criativa que é característica da criança ao ingressar na escola.9088KOUDELA, 1992, op. cit., p. 45. (grifo nosso) 89REVERBEL, 1988, op. cit., p. 112. (grifo nosso) 90BRASIL, 1997, op. cit., p. 84. (grifo nosso)
Por meio do