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Primeiro Entreato: O jogo

No documento 2007FabianoTadeuGrazioli (páginas 47-55)

1.2 Cena Dois: As abordagens dramáticas e o teatro nas escolas

1.2.1 Primeiro Entreato: O jogo

A relação entre teatro e

jogo

é estreita, pois muitos são os diretores que partem da prática desta atividade para conceber seus espetáculos. Segundo Koudela, o processo de trabalho com

jogos

“visa efetivar a

passagem

do teatro concebido como

ilusão

para o teatro concebido como

realidade cênica

”70. Tão estreita quanto a relação teatro-

jogo

é a relação entre

jogo

e vida. Essa dependência fica evidente, quando Slade trata da ausência do ato de jogar na vida do indivíduo:

A

falta de jogo

pode significar uma parte de si mesmo

permanentemente perdida

. É esta parte desconhecida, não criada, do próprio eu, esse elo perdido, que pode ser a causa de muitas dificuldades e incertezas nos anos vindouros.71

Tanto no teatro quanto na vida, o jogo constitui um elemento fundador. Diversos estudiosos do teatro e das áreas do conhecimento relacionadas a ele se dedicaram ao estudo do

jogo

. A partir da década de cinqüenta, do século passado, surgiram muitos trabalhos a respeito do tema e também diversas propostas educacionais que buscam nele a sua fundamentação. Nessa profusão de psicólogos, arte-educadores, diretores teatrais e professores que já contribuíram para uma discussão séria sobre o tema, surgiram diversos pensamentos que, embora se nutrissem de algumas fontes comuns, deram ao tema enfoques distintos. Desse modo, a expressão

jogo,

que designa a criação e a improvisação coletiva, passou a receber diversos complementos que acrescentavam a ela o sentido específico com que cada estudioso a designava.

Slade, citado por Courtney como precursor do

teatro criativo

, propõe a terminologia

jogo dramático infantil

e assim a define: “é uma forma de arte por direito próprio, não é uma atividade inventada por alguém, mas sim o comportamento real dos seres humanos.”72Segundo ele, o jogo dramático “é uma parte vital da vida jovem. Não é uma atividade de ócio, mas antes a maneira da

70KOUDELA, 1992, op. cit., p 148.

71SLADE, Peter.

O jogo dramático infantil.

São Paulo: Summus, 1978, p. 20. (grifo nosso) 72Ibidem, p. 17.

criança pensar, comprovar, relaxar, trabalhar, lembrar, ousar, experimentar, criar e absorver.”73

O autor atribui à ação de

jogar

(no sentido de brincar, fazer de conta) o impulso primordial, a

raiz

do

jogo dramático

. A brincadeira pode ser a de representar o jogo e essa

brincadeira teatral infantil

pode apresentar ocasiões de caracterização e situação emocional tão nítidas que a fazem ascender para o

jogo

dramático infantil

. As categorias que Slade propõe não estão de acordo com a distinção entre

jogo realista

(onde a situação a ser encenada é pré-estabelecida pelo orientador, seja ele o professor ou o diretor teatral) e

jogo imaginativo

(atividade na qual a encenação é fruto da imaginação e criatividade do indivíduo e não conta com qualquer interferência externa), como estabelecem alguns “observadores de crianças”. Na sua opinião,

[...] o jogo (e certamente nos estágios mais precoces) é tão fluído, contendo a qualquer momento experiências da vida cotidiana exterior e da vida imaginativa interior, que ser torna discutível se um deveria ser encarado como uma atividade distinta do outro. É importante, naturalmente que a diferença seja compreendida, mas

a distinção

pertence mais ao intelecto do que ao jogo propriamente dito

. A criança sadia se desenvolve para a realidade à medida que vai ganhando experiência de vida.74

O

jogo realista

não é refutado por Slade, pelo contrário, é sugerido por ele dentre as dinâmicas e exercícios que descreve e propõe. O que ele não quer é que se efetive uma divisão entre esse e o

jogo imaginário

, uma vez que, na prática, ambos dificilmente são dissociados. Desse modo, entendendo a prática do

jogo

como encaminhamento fundamental para a sua teorização, o autor propõe a distinção entre

jogo projetado

e

jogo pessoal

. O primeiro caso é “mais evidente nos estágios mais precoces da criança pequena, que ainda não está pronta para usar seu corpo totalmente”.75 Por conta disso, no

jogo projetado

, o corpo é usado com algumas restrições, ao contrário da mente, que é amplamente ativada. Há uma tendência à quietude e a principal parte do corpo utilizada são as mãos, pois essa categoria conta com a presença de objetos ou brinquedos que,

73SLADE, 1978, op. cit., p. 17. 74Ibidem, p. 19. (grifo nosso) 75Ibidem, p. 19.

“ou assumem caracteres da mente ou se tornam parte do local [...] onde o drama acontece”.76

O

jogo pessoal

se manifesta aproximadamente aos cinco anos de idade e se intensifica de acordo com o controle que a criança exerce sobre o corpo. De acordo com Slade “é o drama óbvio: a pessoa inteira ou o ‘eu’ total é usado. Ele se caracteriza por movimento e notamos a dança entrando e a experiência de ser coisas ou pessoas”.77 Nota-se, nesse caso, a disposição da criança para o barulho e para o esforço físico.

Quanto à influência do

jogo

na vida da pessoa, podemos esperar, segundo Slade, contribuições específicas de cada categoria. Do

jogo projetado

pode-se ter, como provável, o desenvolvimento de atividades relacionadas à arte, jogos e esportes calmos, bem como a habilidade em ler e escrever. Já, do

jogo

pessoal,

espera-se contribuição na propagação das mais variadas formas de atuação, tais como esportes que envolvem ação, liderança e controle pessoal.

A divisão de Slade encontra uma correspondência na proposta de Lopes que, ao olhar para a primeira década de vida da criança, esquematiza a sua relação com a brincadeira e com o jogo em três conjunturas:

exteriorização

simbólica, brincadeira dramatizada

e

jogo dramático

.

Para cada categoria, a autora apresenta breves considerações, as quais exibimos de forma sintetizada. A

exteriorização simbólica,

segundo Lopes, engloba crianças de um a três anos, estágio em que se verificam manifestações corporais bastante primárias e sem o uso consciente do gesto e do movimento.

A

brincadeira dramatizada

comporta, de acordo com a autora, as formas primárias ou pré-esquemas da transformação do fato. Ela se desenvolve com duas fases distintas, onde a

primeira

se subdivide em

fundo de quintal

(de quatro a seis anos) e

faz-de-conta

(de seis a oito anos). Ambas as fases possuem como característica o pré-ilusionismo ou o pré-realismo, não constituindo um ato consciente do meio dramático como linguagem. A diferença entre elas é que na primeira, de acordo com a autora, “não há história, mas uma relação afetiva simbolizada. [Neste caso] a imaginação constrói uma pequena estória; constrói

76SLADE, 1978, op. cit., p. 19. 77Ibidem, p. 19.

rudimentarmente personagens; elabora materiais funcionais que apóiam o jogo”78; e a segunda é mais propriamente o “brincar de teatro”, “onde a criança está mais empenhada em representar bem e bem caracterizar.”79

Quanto à

segunda fase

da

brincadeira dramatizada,

também chamada de

realismo

, a autora relata que abrange crianças de oito a onze anos e que se trata de uma metamorfose significativa, tendo em vista o estágio precedente. Segundo ela, é o momento em que a criança se “coloca diante do momento de fazer teatrinho, rejeitando toda interferência que quebre sua intenção”. Nesta fase, ela assume com mais responsabilidade os papéis, conservando esses nomes e gestos após as atividades.

O terceiro estágio assinalado por Lopes, o

jogo dramático

, pode ser praticado por indivíduos maiores de onze anos. Essa fase se diferencia da anterior “por possuir regras próprias, que são manipuladas pelos atuantes-atores, numa experiência grupal”. Para essa categoria, a autora assim se refere: “é uma atividade estética onde os indivíduos participam num estágio mais avançado de suas qualidades, associadas à flexibilidade da personalidade em encarar papéis que não são os seus”.80

Relacionando as fases propostas por Lopes às considerações de Slade, inferimos que a aproximação das colocações dos autores se efetiva no olhar que ambos lançam para a criança nos primeiros anos de vida, compreendendo, cada um a seu modo, as mais remotas manifestações dessas, como momentos específicos e importantes do desenvolvimento humano.

No rol dos autores que se propuseram a estudar o

jogo,

Viola Spolin tem lugar de destaque. A autora dedicou sua carreira de professora de teatro à sistematização de uma proposta para o ensino desta arte em diversos e opostos contextos. Sua definição de

jogo

articula os princípios que destacamos como fundamentais para o desenvolvimento da arte dramática, como envolvimento, estimulação da criatividade, liberdade criadora e, principalmente, a oportunidade de experimentar, conforme podemos conferir:

78LOPES, Joana.

Teatro, Educação Tridimensional.

Disponível em: <www.cbtij.org.br>. Acesso

em: 14 abr. 2006.

79Ibidem. 80Ibidem.

O jogo é uma forma natural de grupos que propicia o

envolvimento

e a

liberdade

pessoal necessários para a experiência. Os jogos desenvolvem as técnicas e habilidades pessoais necessárias para o jogo em si, através do próprio ato de jogar. As habilidades são desenvolvidas no próprio momento em que a pessoa está jogando, divertindo-se ao máximo e recebendo toda a estimulação que o jogo tem para oferecer – é este o exato momento em que ela está

verdadeiramente aberta

.81

A experiência é, para Spolin, resultado do

jogo

, e, considerando qualquer pessoa capaz de experimentar, ela afasta do seu programa de oficinas qualquer suposição que pretenda relacionar o

jogo

à presença ou à ausência do talento:

Todas as pessoas são capazes de atuar no palco. Todas as pessoas são capazes de improvisar. As pessoas que desejarem são capazes de jogar e aprender a ter valor no palco.

Aprendemos através da experiência, e ninguém ensina nada a

ninguém

. Isto é válido tanto para a criança que se movimenta inicialmente chutando o ar, engatinhando e depois andando, como para o cientista com suas equações.

Se o ambiente permitir, pode-se aprender qualquer coisa, e se o indivíduo permitir, o ambiente lhe ensinará tudo que ele tem para ensinar.

“Talento” ou “falta de talento” tem muito pouco a ver com

isso

.82

Na perspectiva da autora, a experiência provém da interação entre indivíduo e ambiente e não há limites para ela ensinar a quem se disponha a jogar. Quanto ao tratamento que Spolin dá ao

jogo

, no sentido de adequá-lo a uma das categorias já citadas, inferimos que o

jogo realista

, ligado à vida exterior da criança, também conhecido como

jogo de regras

, por estabelecer, de antemão, os passos elementares da atividade a ser desenvolvida, é o princípio de seus exercícios e, desse modo, a palavra

jogo

, a partir de Spolin, passa a receber o complemento

teatral

.

Analisando as atividades que a autora propõe em seu treinamento, verificamos tratar-se de propostas esquematizadas ou pré-esquematizadas, diferenciando-se do faz-de-conta, no seu sentido natural (

jogo imaginário

). É dentro de um espaço e de uma cena determinados e, a partir de personagens

81SPOLIN, Viola.

Improvisação para o teatro.

São Paulo: Perspectiva, 1992, p. 4. (grifo nosso) 82Ibidem, p. 4. (grifo nosso)

pré-estabelecidas, que o

jogo teatral

se realiza. Por vezes, um ou dois desses elementos podem faltar, deixando espaço para a elaboração coletiva dos mesmos; em suma, é propondo alguns limites para a improvisação que Spolin concebe os

jogos teatrais

, tornando-os uma atividade de regras explícitas. Outra característica dos exercícios de Spolin é que o grupo que os pratica pode ser dividido em dois times: sujeitos que jogam e sujeitos que observam, procedimento que leva o aluno a transitar por um binômio fundamental da atividade teatral: atores e platéia.

Colocados frente a frente, percebemos que o

jogo dramático

rearticula as características do

jogo imaginativo

e o

jogo teatral

às características do

jogo

realista

. A diferença fundamental entre essas categorias é que

jogos dramáticos

ou

imaginativos

possuem como princípio a livre articulação de idéias, deixando os alunos ou atores criarem e desenvolverem, por conta, as atividades. Os

jogos

teatrais

ou

realistas

, por sua vez, distanciam-se dos demais por estabelecerem algumas normas e regras, tendo em vista alguns encaminhamentos pré- estabelecidos para o desenvolvimento das atividades.

A par desses conceitos, salientamos uma característica dos jogos que termina por justificar a existência dessas várias categorias e reafirma a importância de cada uma delas no contexto escolar: a possibilidade de os jogos evoluírem e, numa perspectiva crescente, resultarem em dinâmicas e encenações que, de fato, constituam uma experiência significativa com a linguagem teatral. Essa idéia é levantada pelos PCNs (Ensino de quinta a oitava série): “O

jogo

teatral

é um jogo de

construção

em que a consciência do ‘como se’ é gradativamente trabalhada, em direção à articulação de uma linguagem artística, o teatro.”83

O documento salienta o caráter progressivo que permeia o

jogo

, fazendo com que o aluno caminhe, a partir dele, para a compreensão e manipulação da linguagem teatral. Essa possibilidade também é prevista pelos PCNs (Ensino de primeira a quarta série):

83BRASIL, 1998, op. cit., p. 88. (É importante salientar que, embora utilize a nomenclatura de

Spolin (

jogo teatral

) este documento não está se referindo à categoria desenvolvida pela autora, ou seja, a categoria análoga ao

jogo de regras

. Percebemos ao examinarmos o texto do qual retiramos a citação).

A

dramatização

acompanha o

desenvolvimento da criança

como uma manifestação espontânea, assumindo feições e funções diversas, sem perder jamais o caráter de interação e de promoção de equilíbrio entre ela e meio ambiente. Essa atividade

evolui

do jogo espontâneo [jogo dramático] para o jogo de regras [jogo teatral], do individual para o coletivo.84

De acordo com o referido texto, salientamos que a evolução do

jogo

, das categorias mais simples para as mais complexas, é inerente à criança, ou seja, ela encontra correspondência no seu desenvolvimento. Nesse sentido Koudela assegura que “a mesma revolução que ocorre com a criança em desenvolvimento pode ser acompanhada no processo de crescimento do indivíduo no palco.”85 Assim, a dramatização funciona como mediadora entre a criança e o mundo, possibilitando a interação e o equilíbrio necessários para um desenvolvimento sadio.

O crescimento sucessivo das modalidades do

jogo

também é notificado por Courtney:

Na medida em que a criança vai se tornando mais velha, ela

gradualmente

necessita de uma platéia, assim há um tipo de jogo para cada idade determinada, e a educação deve propiciar-lhe um desenvolvimento da experiência dramática.86

Ao sugerir a necessidade de platéia para a criança, o autor está supondo a mudança do

jogo dramático

para o

jogo teatral

e também para estágios mais avançados, como a encenação teatral. Essa idéia também é assimilada por Marie Dienesch, que afirma que “o Jogo Dramático constitui-se na melhor e indispensável preparação ao teatro para os alunos que, especialmente dotados, poderão abordar uma forma de arte mais complexa e mais elaborada”.87

84BRASIL, 1997, op. cit., p. 83. (grifo nosso) 85KOUDELA, 1992, op. cit., p 148.

86COURTNEY, 2003, op. cit., p. 47. (grifo nosso)

87 DIENESCH, Marie. Jogo dramático e teatro escolar.

Revista World Teatre,

n. 3, 1952. In:

A passagem de um estágio a outro, ao longo do desenvolvimento intelectual da criança, é explicada por Koudela como

[...] uma

transição

muito

gradativa

, que envolve o problema de tornar

manifesto

o gesto espontâneo e depois levar a criança à

decodificação

do seu significado, até que ela o utilize

conscientemente

, para estabelecer o processo de comunicação com a platéia.88

A autora caracteriza a mudança de uma categoria a outra na medida em que a expressão da pura imaginação passa a ter um sentido consciente de comunicação, traçando, assim, a diferença essencial aos dois níveis do

jogo.

Olga Reverbel também compartilha dessa idéia e encaminha suas considerações para o campo escolar, apontando o jogo como uma forma de expressão que pode acompanhar o aluno em qualquer estágio:

O jogo dramático é uma atividade

rica

que pode ser aplicada em qualquer série, da pré-escola ao 2º grau [...].

O que varia é o tema do

jogo

, que tende a tornar-se progressivamente mais

complexo

, acompanhando a faixa etária dos participantes.89

Portanto o

jogo

deve ser cultivado como um modo de fortalecer o processo de expressão, que é intrínseco ao ser humano, de acordo com os PCNs (Ensino de primeira a quarta série):

A

criança

, ao começar a freqüentar a

escola

, possui a capacidade da

teatralidade

como um potencial e como uma prática espontânea vivenciada através dos jogos de faz-de-conta. Cabe à

escola

estar atenta ao

desenvolvimento no jogo dramatizado

oferecendo condições para o exercício consciente e eficaz, para aquisição e ordenação progressiva da linguagem dramática. Deve tornar consciente as suas possibilidades, sem a perda da espontaneidade lúdica e criativa que é característica da criança ao ingressar na escola.90

88KOUDELA, 1992, op. cit., p. 45. (grifo nosso) 89REVERBEL, 1988, op. cit., p. 112. (grifo nosso) 90BRASIL, 1997, op. cit., p. 84. (grifo nosso)

Por meio do

jogo

e do caminho consciente por suas etapas e categorias, o indivíduo pode chegar ao conhecimento e à utilização da linguagem teatral. Na verdade, a prática do jogo não seria uma oportunidade que a escola estaria oferecendo, mas sim uma garantia do desenvolvimento de aspectos corporais e intelectuais que estão, desde muito cedo, latentes no indivíduo como que esperando para serem desenvolvidos.

No documento 2007FabianoTadeuGrazioli (páginas 47-55)