5.1 Estabelecendo os caminhos da pesquisa
5.1.1 Primeiro momento: a metodologia qualitativo-interpretativa
Este item traz os detalhes dos procedimentos metodológicos com base na compreensão da pesquisa qualitativa. Descreveremos os passos dados, os instrumentos utilizados para a coleta de dados e faremos a caracterização dos sujeitos de nossa pesquisa. Descreveremos, também, a forma de organização e a análise dos dados.
Optamos pela pesquisa qualitativo-interpretativa por considerar nossa questão de estudo. Assim, elaboramos questões com a intenção de investigar a formação e a constituição identitária profissional do professores de Matemática no Projeto Parceladas. Nesta pesquisa, tomamos a concepção de pesquisa qualitativa definida por Bogdan e Biklen (1994), LÜDKE; ANDRÉ (1987), seu conceito de pesquisa qualitativa oferece uma grande contribuição para o entendimento desse tipo de pesquisa:
1- A pesquisa qualitativa supõe o contato direto e prolongado do pesquisador com o ambiente e situação investigados no trabalho de campo;
2- Os dados coletados são predominantemente descritivos, sua descrição é essencial à pesquisa e deve incluir o maior número de elementos possíveis. Todos os dados da realidade são considerados importantes. Isso requer do pesquisador ficar atento para o maior número de possível de elementos presentes na situação estudada;
3- A preocupação com o processo é muito maior do que com o produto. Isso significa dizer que é importante haver a preocupação com o processo, saber como o fenômeno se manifesta nas atividades, procedimentos e interações;
4- O “significado” que as pessoas dão às coisas e à sua vida são focos de atenção especial pelo pesquisador. Nesses estudos, há sempre uma tentativa de capturar a “perspectiva dos participantes”56, isto é, a maneira como os informantes encaram as questões que estão sendo focalizadas;
5- A análise dos dados tende a seguir um processo indutivo. Não há preocupação com a busca de hipóteses definidas antes do estudo. As abstrações nascem dos dados no processo de baixo para cima. O fato de não existirem hipóteses ou questões específicas formuladas a priori não implica a inexistência de um quadro teórico que oriente a coleta e a análise dos dados.
Quando optamos pela metodologia da pesquisa qualitativo-interpretativa, para este estudo, foi para privilegiar o ambiente natural, o lugar natural de acontecimentos dos atos e falas nos quais os indivíduos sentem, vivem e constroem suas vidas social, pessoal e profissional como o curso de formação, o lugar de trabalho, os espaços por onde os indivíduos circulam e interagem no ir e vir em contato e com a participação do outro, atribuindo sentidos ao mundo sua volta.
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A pesquisa qualitativa apresenta uma abordagem que rejeita encerrar as pessoas como uma quantidade, mais apropriada aos fenômenos naturais. A pesquisa qualitativa foca o estudo dos seres humanos, tentando capturar suas experiências, suas crenças, suas concepções e valores. O ato, a palavra e o gesto são enquadrados em seu lugar de acontecimento, de modo a ganhar o máximo de sentido e de significado, (SARAIVA, 2001). Nesse lugar, os indivíduos, os atos, as palavras e os gestos ganham relevância e sentidos únicos. Sabendo disso, resolvemos visitar os sujeitos de nossa pesquisa em seu lugar de trabalho e, em certos casos, em sua própria casa, o que tornou possível o contato com seu lugar familiar, seu outro mundo de trabalho, suas leituras, sua memória avivada pelas fotos e seus textos relatando experiências.
Segundo Lüdke; André (1986, p. 18) a investigação qualitativa é rica em
dados descritivos, é aberta e flexível e foca a realidade de forma complexa e contextualizada. A isso tudo, o pesquisador deve ficar atento para planejar a
entrevista, o questionário, selecionar os documentos, escolher os sujeitos, inclusive, atento a si mesmo para minimizar interferências durante as narrativas dos indivíduos que venham comprometer a formulação natural dos dizeres desses indivíduos, como sendo esta sua maneira própria de botar sentido às coisas, às situações. O que, verdadeiramente, é importante, como a situação é percebida e interpretada pelo professor a partir de sua atuação.
5.2 Segundo momento: o percurso da pesquisa compreende – definição de um
projeto de pesquisa
A ideia de trabalhar no doutorado com a formação de professores de Matemática desenvolvida no Projeto de Licenciaturas Plenas Parceladas foi amadurecendo concomitantemente a minha participação na implementação das ações pedagógicas do próprio Projeto. Participei de vários seminários que discutiam questões importantes como avaliação, currículo, trabalho docente, profissionalização, desenvolvimento profissional docente e a pesquisa na formação do professor, entre outras. Ao mesmo tempo, durante oito meses, de fevereiro a outubro de 2004, fui organizando o arquivo das Parceladas, contando
com a colaboração de duas estagiárias57 que estavam se especializando em
Memória e Arquivo. Substancialmente, isto facilitou o acesso às informações, reduzindo tempo e otimizando o uso da documentação.
Este interesse tornou-se mais claro ao final de meu mestrado, quando estudei a formação do professor de Matemática nas Parceladas, a partir das contribuições da História da Matemática e da experiência que vivi quando fui orientador de trabalhos de conclusão de curso. Considerando a proposta, procurei cercar-me de documentos relacionados ao Projeto Parceladas, com o propósito de uma aproximação mais detalhada com seus princípios, referenciais teóricos, com o eixo ensino pela pesquisa, etc.
Por ocasião da seleção para o doutorado, apresentei minha proposta de projeto “A Formação de Professores de Matemática no Projeto Parceladas – a integração entre ensino e pesquisa”. Logo após meu ingresso no Programa de Doutorado da PUC/SP, em 2005, integrei-me ao Grupo de Pesquisa Professores de Matemática: formação, saberes, identidade e trabalho docente58. As leituras que fazíamos, no grupo, iam iluminando outros aspectos que podiam ser trabalhados na pesquisa e permitiam, assim, delinear outros contornos do estudo em discussão com minha professora orientadora.
Apresentei o projeto de pesquisa à coordenação das Parceladas com o objetivo de contar com apoio para uso do arquivo do Projeto e para certificar-me da existência de documentos com potencial de informações necessárias e importantes para meu estudo. Saber qual documento usar ia se impondo durante o processo, e o que constituía o documento como fonte importante para essa pesquisa.
Na busca para ampliar meus conhecimentos desenvolvidos nas reuniões do grupo de pesquisa, a idéia de pesquisar a constituição identitária profissional do professor de Matemática no Projeto Parceladas foi crescendo. Após várias discussões com a orientadora e das leituras no grupo de pesquisa sobre formação de professores e constituição identitária, resolvemos dar voz aos ____________
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As estagiárias foram Tais de Sousa Campos e Ana Maria Andrade Araújo, eram alunas do curso de História na UNEMAT de Cáceres-MT.
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Esse grupo de pesquisa é coordenado pelas professores Laurizete Ferragut Passos e Ana Lúcia Manrique; professoras do Programa Pós-Graduados em Educação Matemática – PUC/SP.
egressos de Matemática do Projeto de 1997. Assim, refinamos o projeto inicial e o estudo foi se direcionando para a análise do processo formação do professor de matemática não habilitado no Projeto de Licenciaturas Plenas Parceladas e na constituição de sua identidade profissional docente.
Com isso definido, retomamos, em 2007, o contato com os professores egressos do Projeto, iniciado em 2005. Dessa vez, estávamos interessados em conhecer, também, o processo de constituição de suas identidades profissionais como docente e não, só, sua formação como professor de Matemática no Projeto de Licenciaturas Parceladas.