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4.1 Olhando Para os Dados Coletados – A Interpretação

4.1.2 Primeiro Momento – No Instituto de Idiomas

No intuito de observar como ocorre o ensino/aprendizagem assisti a aulas em escolas municipais e, igualmente, assisti a aulas no instituto de idiomas freqüentado pelas professoras, então no papel de alunas. Assim posso observar a

atuação das mesmas enquanto alunas no curso de inglês e como professoras dos alunos do 1º ano do ensino fundamental em duas escolas do município.

Neste capítulo, pretendo mostrar o que ocorre nos dois ambientes de pesquisa tentando manter certa distância acadêmica sem fazer das descrições das aulas propaganda de minhas crenças sobre o ensino de LE nem menosprezar ou criticar aleatoriamente as crenças e o trabalho alheios. Porém, todo texto acadêmico traz a visão do indivíduo e suas interpretações da realidade, não sendo possível dizer como algo é ou aconteceu porque seria a negação da linguagem, uma ação transformada em palavras inequívocas.

Obviamente que meu olhar não é emanação da verdade. Este olhar e a descrição estarão baseados em meu histórico de aluno e professor de LI e em minhas crenças político-ideológicas e educacionais. Pressuponho a existência de vínculo entre o que se ensina no curso de idioma e a forma como as professoras atuam junto a seus alunos.

Esse pressuposto advém da experiência pessoal dos tempos de professor iniciante quando, inseguro do ponto de vista teórico, porém, acreditando que poderia fazer “uma aula diferente”, no entanto atuava me espelhando em professores que julgava serem bons. Essa diferença que gostaria de implementar muitas vezes significava uso de técnicas de animação de auditório, muito comuns em cursinhos pré-vestibulares. A partir do uso dessas técnicas consideradas milagrosas acreditava na possibilidade de se lecionar e os alunos aprenderem, sem esforço e de preferência imediatamente sem erros. Percebendo que a teoria, (a culpa é sempre da teoria), mal entendida na universidade não funcionava, utilizava os recursos coercitivos, sem entender, porém, o porquê da “ineficiência

da teoria”. A “teoria” não funcionava por várias razões, tais como a alegada falta

de vontade dos alunos para aprender LE, a falta de material didático, e um objetivo palpável para a aprendizagem daquela disciplina.

Ao perceber que meus alunos não faziam tarefa e se recusavam terminantemente a falar inglês, passava a fazer como os meus “bons professores” faziam, não raro com a aplicação de sanções disciplinares e atitudes coercitivas como avaliações punitivas periódicas. Assim os grandes mestres lidos na universidade e suas recomendações e análises eram substituídas pelo conhecimento adquirido, ou vivenciado enquanto aluno, ou seja, “o velho e bom” senso comum. Temos nesse caso, em que há pouca competência do professor nos aspectos lingüísticos e didático-pedagógicos, a presença preponderante da competência implícita originária das intuições, crenças e experiências (Almeida Filho 1993:20)

Assim, implementando práticas intimidatórias e punitivas poderia alegar como Moita Lopes (1992) mostra na fala de professores que, “eles não falam nem

português, quanto mais inglês”. Portanto, se os alunos não aprendem LE é porque

não merecem aprendê-la, não estariam à altura da aprendizagem dessa tão nobre

meta. Talvez, o grande erro, de todo docente iniciante, seja acreditar que “a

teoria”, tudo aquilo que não seja determinação prática e imediata de como ensinar,

será universalmente correta e capaz de explicar como ensinar LE independentemente do lugar, do momento, da faixa etária de alunos e professores, de suas condições sociais, de suas perspectivas em relação à aprendizagem etc...

Barcellos (1995) demonstra em sua dissertação que os alunos formandos de um curso de Letras da universidade pesquisada também comungam dessas características: acreditar que existe uma forma de ensinar LE a todos sem os percalços que todos experimentam nessa experiência de aprender e ensinar LE, (embora feita em um único lugar eis uma crença que poderíamos perceber como bastante comum a estudantes de outros locais, arriscaria a dizer que há sinais de universalização desse resultado de pesquisa, conforme demonstra Silva, 2005). Por essa razão, pressupunha que a prática acaba por criar “teorias”. Assim, o instituto de idiomas passaria, provavelmente, a ser o referencial de ensino de LE. Aliado a isto ,há, igualmente, o histórico dessas professoras enquanto alunas de LI em escola pública e em universidade, no caso de uma delas.

Pretendo, então, descrever e analisar as aulas, tanto da escola de idiomas como da escola pública, à luz das teorias de LA relacionadas às interações em sala de aula, aos estudos sobre a cultura de aprender e ensinar e as teorias de ensino-aprendizagem/aquisição de línguas.

Para realizar esta descrição, observei duas alunas-professoras com formações distintas para buscar a origem das ações implementadas em sala de aula enquanto professoras. Neste caso duas professoras com formações distintas, uma graduada em Letras Português-Inglês, e outra graduada em Pedagogia, fator que pode influenciar na atuação de ambas em sala de aula.

A partir de suas práticas docentes ambas poderão auxiliar na revelação das ações pedagógicas de ensino de LE para crianças, ainda que uma das professoras, a pedagoga tenha sido formada para alfabetizar e ensinar todas as disciplinas de 1a a 4a série exceto LE e Educação Física.

A professora graduada em Letras Português-Inglês, por sua vez, não teve em sua formação, informações específicas sobre o ensino de LE para crianças, visto que a licenciatura forma professores para lecionar apenas a pré- adolescentes e adolescentes já alfabetizados.

Assim, o curso de inglês por elas freqüentado embora não seja um curso de formação de professores, mas sim um curso livre com função de formar falantes da língua, poderia complementar a formação de ambas, ensinando a LE para a pedagoga e as características de aprendizagem de crianças para a graduada em Letras, (muito parcialmente, é claro).

Provavelmente, será possível observar nas aulas de ambas a existência de indícios de conceitos básicos para o ensino de LE. Esses conceitos fundamentais são os conceitos de língua e LE, e o papel dessa LE na sociedade, além de outros fundamentos de ordem pedagógica tais como; de que modo ensinar grupos de faixas etárias diversas e qual a capacidade cognitiva desses alunos em fase de aprendizagem inicial.