3. Os Planos de Hugo Chávez e a Economia
3.1 Primeiro momento: Programa de Governo do MVR
O programa de governo 1999-2003, intitulado “A proposta de Hugo Chávez para
transformar a Venezuela: uma revolução democrática”, é a referência mais importante da política econômica do período, embora não seja um documento profundo ou completo ao tratar de temas econômicos. Esse documento serviu mais como base para se contrapor aos outros partidos e candidatos no campo econômico do que para ser a diretriz de um governo de quatro anos.
Sua vertente econômica é denominada “El proyecto de transición: cinco polos
conjunto de definições gerais sobre a orientação que o novo governo imprime à economia. A primeira parte trata dessas mudanças.
O programa começa com o tradicional diagnóstico do caráter mono-exportador da economia: “la dinámica de la economia venezolana ha estado decididamente vinculada al excedente generado por escasos productos de exportación, habiendose pasado de la monoproducción agro-exportadora a monoproducción petro-exportadora” (MPD: 1999 p. 53). Para superar essa condição o Programa de Governo propõe duas saídas distintas e complementares. A primeira se refere à um sistema econômico “autogestionario que estimule la democratización económica y las formas organizativas alternas, como cooperativas y otros tipos de de asociación, que complete el diseño de una dinámica productiva interna basada en la diversificación de la producción y que permita agregar valor a las mercancía, ahorrando divisas y generando fuentes de empleos” enquanto a segunda proposta aspira alcançar um sistema econômico “competitivo, que, apoyándose en las ventajas comparativas y competitivas de nuestro país, genere productos capaces de satisfacer las necesidades de la población y competir con as mercancías extranjeras; que se sustente en un plan de infraestructura y ordenamiento territorial, en un desarrollo científico y tecnológico y en una canalización adecuada de las inversiones, con miras a elevar la productividad.” (MPD: 1999, p. 56). A análise do conjunto das propostas demonstra que a inserção do país na economia global deve continuar tendo o petróleo como “carro-chefe” ao mesmo tempo em que a economia interna deve ser diversificada, como linha estratégica de diminuição das desigualdades e criação de empregos.
No documento se faz uma valoração do impacto da indústria petroleira na economia venezuelana e do fortalecimento da estrutura petroexportadora a partir da
riquezas, concentradora de poder e concentradora de população”, argumentando que a mudança desse modelo requeria uma “profunda transformação estrutural da economia venezuelana, a qual se desenvolveria no marco da V República emanada do processo constituinte” (MPD: 1999 p. 59). Ou seja, a solução para esse problema estrutural da economia venezuelana passava, necessariamente, por uma mudança política, na qual se redefiniria o papel do Estado como promotor do desenvolvimento, da eficiência e da igualdade.
O enunciado fundamental do programa econômico tinha como base o que se denominou “uma economia humanista, auto-gestionária e competitiva” (MPD: 1999, p. 55) com a qual se identificaram cinco setores fundamentais, chamados de “modelo pentasetorial”. Nesse modelo se assentaria a nova estrutura econômica. Esses setores eram:
Setor I – empresas básicas e estratégicas: energia, mineração, hidroeletricidade e alta tecnologia militar.
Setor II – bens de consumo essenciais que compreende a indústria da construção, produção agrícola primária e agroindustrial, e pequena e médias indústrias.
Setor III – serviços essenciais e governo Setor IV – bancos e finanças
Setor V – a grande indústria.
Para cada um desses setores se definiram políticas específicas com o objetivo de apontar as grandes questões do país. Entretanto, não fica claro a que obedece a essa classificação setorial nem suas inter-relações à procura do objetivo de alcançar a “dinamização e diversificação do aparato produtivo”. (MPD: 1999, p. 59)
A concepção de uma economia humanista, auto-gestionária e competitiva partia da idéia de que o desenho econômico da Venezuela, num passado recente, havia aprofundado uma distribuição regressiva da renda e excluído a incorporação da população à atividade produtiva, tal como era proposto desde a primeira “siembra del
petróleo”, na década de 1930. Para reverter esse comportamento era necessário
“desenvolver um modelo econômico que permita a produção global de riqueza e justiça”
(MPD: 1999 p. 55). Assim, no contexto de uma economia humanista, o homem é o centro e a razão de ser do novo modelo, o que se expressaria na conquista de um melhor nível de vida, materializado no aumento real da renda das famílias. Em outras palavras, o programa sustenta que, apesar do mercado ser o mecanismo fundamental de repartição de recursos e fatores, ele incorpora formas organizativas complementares de propriedade privada, que, como o cooperativismo e as associações estratégicas de consumidores e produtores, favorecem uma dinâmica de diversificação da produção e agregação de valor que permita altos níveis de consumo e poupança, com uma massiva criação de fontes de emprego, assegurando em nível elevado de receita para a família venezuelana.
Desta forma, a política macroeconômica do Plano de Governo consistiu em um conjunto de enunciados gerais sem que tivesse clara a consecução de um objetivo estratégico. Este fato reforça a idéia de que o grupo político chavista se unificava principalmente por se opor ao modelo de quarenta anos de bipartidarismo. Sabia-se que queriam mudanças, provavelmente tímidas, uma mera redistribuição das benesses do petróleo que incluiria recursos para diversificação da pauta produtiva do país como forma de diminuir a dependência externa e ampliar o mercado consumidor, porém o caminho para tal finalidade só poderia ser feito com o controle por parte do governo dos recursos
da companhia petroleira PDVSA, cujo comando era autônomo em relação ao poder executivo nacional.
O plano de governo ainda enfatiza o seu caráter ortodoxo em matéria de política monetária afirmando a necessidade de “reforzar al banco central de Venezuela em su
autonomia funcional, financiera y administrativa” (MPD: 1999 p. 68). Sobre a política fiscal afirma que “se aplicarán técnicas de presupuesto Programa plurianual, para
consolidar la disciplina fiscal y los equilíbrios macroeconômicos” (MPD: 1999, p. 68). A respeito da dívida externa, o programa é embasado no diagnóstico, a partir de uma análise comparativa entre o tamanho da dívida externa e a potencialidade de entrada de divisas, de que a Venezuela enfrentará dificuldade no próximo período. Considera cinco pontos para equacionar a questão, sendo que em nenhuma delas é cogitado o não pagamento da dívida. Sobre a dívida pública interna, o programa é claro ao afirmar que esta “será honrada y serán respetados los compromisos de la república” (MPD: 1999 p. 70).
A inflação é tratada como prioridade em matéria econômica: “el abatimiento de la inflación es una tarea de primer orden. Sus causas son de carácter estructural e conyuntural; su combate debe ser una labor ininterrumpida, y los devastadores efectos que tiene sobre la póblación de ingesos constantes la califican como un enemigo al cual no se lê puede dar trégua” (MPD: 1999, p. 70).
Vale também destacar que, exceto quando afirma que ”el estado mantendrá la propriedad de sus dos más importantes empresas energéticas: Petróleos de Venezuela y Eletrificación de Caroní” (MPD: 1999 p. 61), em nenhum momento o Programa de Governo sugere uma participação econômica do Estado como produtor direto. A máxima chavista propalada na campanha e reforçada no discurso de posse era: “mercado até onde
for possível e Estado apenas onde for necessário”, ou seja, nenhuma ruptura com o modelo neoliberal que vigorou em praticamente todos os países da América Latina nos anos 1990.