LIVRO DIDÁTICO
2.5 A Música Como Documento
3.1.1 Primeiro Período da Década de 1980 (1980 – 1985)
Elza Nadai e Joana Neves, na Apresentação de sua obra157 demonstram a preocupação com os métodos, conteúdo e visão ou interpretação do universo histórico. Em suas propostas na elaboração e forma de utilização do manual, percebem-se novos projetos educacionais e metodológicos em relação a livros didáticos anteriores a 1980, na medida em que realizam a crítica à “história oficial” da elite, e valorizam o exame da sociedade brasileira a partir dos conflitos e contradições. Vislumbram o estudo do passado a partir do presente, ou a compreensão do presente através da concepção da história como um processo. Ainda não se observa uma inquietude ou atenção das autoras no que se refere a novas abordagens ou novos objetos na visão de Jacques Le Goff. A tendência é nitidamente mais marxista e crítica a obras anteriores. Segundo as autoras, com raras exceções, pode-se afirmar que o ensino de História
157 NADAI, Elza, NEVES, Joana. História do Brasil: da colônia à República. 2º grau. São Paulo: Saraiva, 1982. (reimpressão em 1983) Elza Nadai foi Mestre e Doutora em História Social pela USP e Livre-docente em Educação pela USP tornando-se professora Titular da FEUSP. Joana Neves é Mestre em História Econômica pela USP e professora do Departamento de História da UFPB.
111 do Brasil ainda era realizado até então, tal como foi implantado no ensino público há quase um século.
Essa visão é inovadora para o período em questão de acordo com as inquietudes da época; crítica ao Regime Militar, reafirmação das tendências de esquerda e de oposição política, conquista de reformas sociais e de direitos. Embora as “novas linguagens” não sejam muito exploradas, as autoras buscam novas concepções do processo histórico. Mas ainda que não se absorva com tanta intensidade a utilização de diversidade de documentação, ela está presente na obra.
Quanto à música popular brasileira, a letra exibida foi Não tem Tradução de Noel Rosa (1934). Elza Nadai e Joana Neves apresentaram-na dentro do subitem “O Panorama Cultural” do Brasil Republicano. A música foi utilizada como um registro das manifestações artísticas das décadas de 1920 e 1930, que funcionou como um recurso didático, porém não explorado. As autoras inserem a canção como um documento comprobatório de denúncia social comparando-a a Aquarela do Brasil (apenas citada) de Ari Barroso: “E foram exatamente os sambistas que mais chamaram a atenção para as coisas brasileiras, quer exaltando as maravilhas do Brasil, em músicas como Aquarela do Brasil de Ari Barroso (1939), quer ‘denunciando’ as distorções que a cultura brasileira sofria, como se pode observar nesta música...”158. Essa única observação sobre a canção, sugere uma crítica a determinados aspectos culturais daquele período, no caso a “americanização” do Brasil.
Francisco de Assis Silva, assim como Elza Nadai e Joana Neves, na Apresentação de sua obra159, demonstra sua preocupação quanto ao conservadorismo das interpretações históricas dos livros didáticos em geral, e também se propõe a valorizar o “processo histórico não apenas do ponto de vista do colonizador, isto é, da classe dominante, mas também do
158 NADAI, Elza, NEVES, Joana. História do Brasil: da colônia à República. 2º grau. São Paulo: Saraiva, 1982, p. 214.
159 SILVA, Francisco de Assis. História do Brasil. São Paulo: Moderna, 1982. 1º grau. Licenciado em História pela USP (1976), publicou diversas obras didáticas.
112 ponto de vista do colonizado”. Pretende ainda instigar o senso crítico dos alunos e apresentar uma “visão mais científica da História.”.
Seu manual, se comparado aos da década de 1970, também apresenta uma análise mais preocupada com as questões sociais destacando os conflitos de resistência e rebeldia contra os autoritarismos políticos nacionais. Ao apresentar a letra da canção de João Bosco e Aldir Blanc, O mestre-sala dos mares (1974), não a utiliza como um documento propriamente dito, mas como um registro que recupera uma homenagem ao combatente João Cândido, que representa um membro resistente das camadas populares do início da República. O autor não realiza uma análise sobre a letra, nem propõe nenhuma atividade metodológica sobre ela, mas se pode considerar um tímido recurso didático, na medida em que a insere em um capítulo sobre revoltas sociais do Brasil republicano, e busca resgatar a memória de uma luta pela liberdade do ponto de vista dos vencidos.
Além do aspecto social, o autor, como outros desse período, reserva um capítulo sobre a “Cultura Brasileira no Século XX”, fazendo uma exposição de diversos movimentos e tipos de expressões culturais que se desenvolveram no Brasil. Para isso, recorreu a registros da expressão cultural nacional, como por exemplo, uma letra da canção Sonho de um Carnaval (1965) de Chico Buarque de Holanda. Nesse momento o autor não a utiliza como um documento nem como instrumento metodológico, mas apenas como um registro para exemplificar a produção artística de um período por ele narrado. Essa canção foi incluída no subtítulo O folclore, sendo este considerado um conjunto de manifestações culturais próprias de um povo, “nascidas espontaneamente das crenças, lendas, dos hábitos e das tradições”. Embora, de acordo com as definições dadas pelo autor, Chico Buarque não possa ser considerado um compositor das camadas populares nem, tampouco, sua canção, uma expressão do folclore brasileiro, ela acolhe o tema que o autor considera “hoje em dia” uma das expressões “mais populares e queridas do Brasil”, o carnaval.
113 Pode-se considerar que os manuais, embora produzidos dentro ainda do período da ditadura militar, já esboçam algumas inovações quanto à abordagem historiográfica para o período. Na verdade os anos eram de valorização da “esquerda” e do marxismo como forma de interpretação histórica, pois a distensão política trazia esperanças para os movimentos de oposição que tanto lutaram contra a ditadura. Nesse sentido pode-se compreender a postura ou tendência historiográfica dos autores em questão. Além disso, como já colocado anteriormente, as discussões sobre as reformas educacionais ainda não eram intensas naquele período.
Sobre os regimes de exceção da República brasileira, Era Vargas e Regime Militar, nenhum dos autores nos apresenta a música popular brasileira como instrumento metodológico ou documento histórico. A organização dos livros é tipicamente convencional e não realiza uma análise profunda do Regime Militar, fato que poderia ser interpretado como algo compreensível na medida em que, embora estivéssemos em pleno processo de abertura, ainda vivíamos os últimos anos da ditadura e, portanto, não havia um distanciamento histórico que contribuísse para abordagens mais ousadas sobre essa fase para o Ensino Básico.