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O PRIMEIRO “PIT STOP” Da minha parte, coloco-me no campo daqueles que sentem uma

dupla obrigação cientifica e política de não se furtarem ao tratamento dos problemas fundamentais, de o fazerem conhecendo os limites do conhecimento que mobilizam e aceitando a diversidade e a conflitualidade de opiniões como sendo a um tempo de reflexo desses limites e meio de sua sempre incompleta superação.

Boaventura Santos

Neste capítulo, estarei debatendo as questões que emergiram no momento da coleta de dados da minha pesquisa. Para Douglas, não há outro meio de se chegar aos significados sociais (...), a não ser através de alguma forma de comunicação como os membros da sociedade ou do grupo. (Douglas, 1971:07)

As investigações em campo, de forma mais sistematizada, tiveram início com a conversa com a Professora que supervisiona o Estágio. Utilizei com ela o mesmo Roteiro de Escuta que preparei para conversar com os estudantes, na tentativa de identificar a diversidade e a conflitualidade de opiniões, mencionada por Santos. Expectava, assim, refletir melhor sobre as respostas dadas pela professora e por seus estagiários (os co-pilotos), fazendo com que emergissem mais elementos para minha compreensão de como é possível o ensino pela pesquisa.

Neste contato, procurei esclarecer à professora o que demarcaria minhas observações nas aulas de estágio. Atentaria para os significados que os estudantes estariam dando aos conteúdos da Geografia em suas aulas; ao modelo de ensino que estava sendo praticado por eles – descritivo ou problematizador, e se utilizariam, ou não, atividade de pesquisa para o ensino da Geografia. Imbuída deste sentimento, dei início ao período da observação direta em sala de aula em junho e julho/2003.

Iniciamos nossa conversa abordando aspectos do início do Estágio Supervisionado: facilidades, dificuldades, expectativas dela e dos estudantes. Nem todos estudantes residem em Santo Antônio, o que dificulta a organização desta atividade curricular. A professora destacou também que

[

eles trazem o desejo de aprender, o interesse e a motivação pelo ensino

]. Para as observações em sala de aula, ela [

privilegia a coerência com o Plano de Aula que foi estabelecido e a postura que o estagiário mantém com relação aos alunos, buscando manter a disciplina na turma ou não.

]

(P.P, depoimento).

Noto um reforço ao ensino linear e hierarquizado, priorizando o trabalho desenvolvido com os conteúdos (coerência com o Plano); e valorizando a atitude passiva e receptiva dos alunos do Ensino Fundamental (manter a disciplina em sala). As idéias contidas neste depoimento me remetem a uma das contribuições de Veiga-Neto ao afirmar:

São os olhares que colocamos sobre as coisas que criam os problemas do mundo (...). O que importa não é saber se existe ou não uma realidade, mas saber como se pensa essa realidade. (grifo meu) (Veiga

Neto in Costa, 2002:31-32)

A atividade de Estágio Supervisionado apresenta-se como um campo fértil para a discussão sobre as diversas compreensões do currículo na/para a formação do professor. E pensar essa realidade passa a significar a manutenção de uma ordem pré-estabelecida, ou não, como uma questão que é reforçada pela estrutura curricular vigente.

No currículo das Licenciaturas, os estudantes são preparados para uma prática que só acontece institucionalmente, ao final do curso com a atividade do Estágio Curricular. A atual política governamental apresenta argumentos para que esta prática seja implantada ao longo de todo o curso.

Deve ser planejada quando da elaboração do projeto pedagógico e se acontecer deve se dar desde o início da duração do processo formativo e se estender ao longo de todo seu processo. (Brasil,

2001.b:09)

A prática docente, prevista em um documento oficial, não assegura um ensino contextualizado nas demandas contemporâneas da Educação para esse século tais como:

- acolhimento e trato da diversidade;

- exercício de atividades de enriquecimento cultural; - aprimoramento em práticas investigativas;

- elaboração de projetos de desenvolvimento dos conteúdos curriculares

(Brasil, 2001.a:01)

Argumenta Reis:

Sem a inserção destes estudantes, juntamente com seus professores em uma ação político-epistemológico-pedagógica transformante do real concreto ocorrente, torna-se quase impossível formar profissionais dotados de competências para enfrentar e contribuir para a transformação da sociedade brasileira (grifo meu). (Reis, 1993:50)

Nas aulas destes licenciandos, pude notar que sua atuação em sala ainda é limitada à exposição de conteúdos privilegiados pelo uso do livro didático, seguindo o modelo de ensino dos seus professores. Relata uma das estudantes que a professora da série em

que ela estava estagiando

[

dividiu o número de páginas do livro didático pelos quatro bimestres do ano letivo.

]. A partir dessa “metodologia de trabalho”, a Professora

Regente14 entrega o Plano de Curso pronto para que o/a estagiário/a elabore os Planos de Aula, que serão entregues à Professora Supervisora.

Do grupo observado, poucos recorrem a outras fontes de leitura. Quando o fazem, não levam para a sala de aula. Usam os livros apenas para elaboração do Plano de Aula: (satisfação que têm que dar à Supervisora do Estágio) ou fazem consulta para a organização das atividades a serem realizadas em classe. Assim, a maioria destes estudantes desenvolvem aulas que refletem o modelo da sua formação, pautado na reprodução de verdades, muitas vezes ditadas pelo Livro Didático.

Porém, muito desta prática vem sendo alterada aos poucos - seja pela incorporação de metodologias que adotem a Pedagogia de Projetos, seja por outras práticas “inovadoras” que problematizam o ensino em sala de aula - ainda que esta não seja uma realidade predominante nas escolas. Dos estudantes envolvidos neste trabalho de pesquisa, por exemplo, apenas uma relata que não seguiu o Plano de Curso pré-estabelecido e não usou o livro didático:

Tenho uma identificação total com o ensino. Quando estou em sala me transformo - não me limito a reproduzir o conteúdo; aproveito a situação que ocorre em sala de aula. Os recursos didáticos não são nada se não forem usados com a interface do conteúdo. Mas sei que ainda têm alunos que preferem as aulas reprodutivas, que não tenham que pensar. (Z. S.,

depoimento)

Gostaria de iniciar comentando o conteúdo deste depoimento, destacando a idéia apresentada pela estudante quanto ao uso dos recursos como a interface dos conteúdos. Adverte-nos Carvalho (2001):

O recurso dos slogans sempre representa uma simplificação (...) das idéias ou das teorias que os originaram, posto que apresentam apenas fragmentos, ainda que representativos, de uma construção teórica bem mais ampla e complexa. (Carvalho, J.

S., 2001:97)

De um modo geral, os professores têm se defrontado com novos pressupostos teóricos, sem o devido tempo para elaboração e apropriação destas teorias. Há uma política de sentidos das palavras (Macedo, 2003), que nem sempre é do domínio conceitual destes professores. Assim, a palavra “interface” tem o sentido de “mediação” no depoimento dessa estudante, revelando a simplificação das idéias ou teorias, citadas por Carvalho.

14 Professora da série em que o estudante está realizando o Estágio Supervisionado - faz parte do quadro docente da

Mas, estes equívocos conceituais nem sempre coadunam com uma prática também equivocada. Ao observar a aula desta estudante-estagiária, o que mais me chamou a atenção foi o fato de ela problematizar todo o tempo, instigando os alunos daquela 7a série a pensar nas possíveis respostas e/ou soluções para os problemas que ela ia apresentando. A exposição dos conteúdos ia sendo articulada à realidade sócio- econômica dos alunos que ali estavam, debatendo as questões ambientais, e mobilizando aqueles estudantes para os problemas que atingem os bairros e a cidade em que moram. Assim, pude observar nesta estagiária a prática como componente curricular, ou seja, uma prática que produz algo no âmbito do ensino. Mas, tal qual nossa realidade de ensino, a prática desta estudante não se apresentou como característica das demais aulas que observei dos outros membros do grupo.

Os planos de aula da maioria destes estudantes-estagiários já sinalizavam o modelo de ensino vigente: forte valorização da memorização dos conteúdos. A articulação, ou ausência desta, entre objetivos e conteúdos do/no Plano refletiam a reprodução de um conteúdo que já vinha (pré)definido. Tal situação foi mencionada pela Professora Supervisora ao fazer a seguinte observação:

O tempo do estágio é curto e eles (os estagiários) nem podem sonhar. Fazem o básico,

priorizando o livro didático que determina o conteúdo a ser trabalhado. A professora regente interfere constantemente nos planos de aula. (P.P, depoimento)

A estrutura dos Planos de Aula pouco difere das propostas apresentadas pelos livros didáticos adotados, exceto pelo item Metodologia – quando são listados os “passos” da aula. É neste item que os estagiários conseguem “assinar” o trabalho que irão realizar em sala, como relata uma das estudantes:

[

Consegui trabalhar o conteúdo, mas com a metodologia e a abordagem diferentes da professora regente, buscando atender à demanda daqueles alunos

]

. (Z.S, depoimento)

Muitas vezes, a falta da iniciativa em realizar um trabalho próprio se deve a uma dificuldade no domínio do conteúdo trabalhado, deixando o estudante-estagiário inseguro para desenvolver, com autonomia, o planejamento daquele bimestre. Assim, recorrer ao livro didático, “permitir” a intervenção da professora regente e da professora supervisora são, geralmente, atitudes adotadas por eles para sua atuação em sala.

Do grupo observado, apenas uma já tinha ensinado Geografia antes. Essa “inexperiência” pode ser um dos motivos pelo qual eles não querem estagiar no Ensino Médio: acham o

Ensino Fundamental “mais fácil”. Segundo a Professora Supervisora, [eles têm a imagem de que o professor não pode errar, tem que saber tudo e, no Ensino Médio, as perguntas podem colocá-lo em cheque.

]

Estes co-pilotos avaliam a atividade do Estágio Supervisionado como essencial, porque nela se vêem como profissionais.

[

Mesmo quem já é professor tem a oportunidade de rever seus conceitos

], relata um deles.