Ricardo Dias1
Giovanna Chiumento1
Felipe Lion1
Luiz Gustavo Ortega de Almeida2
Yuki Kabe2
Tiago Barreto Rocha1
Resumo
A busca por informações dos impactos ambientais gerados pelas atividades e setores econômicos tem aumentado. Adicionalmente, a pressão por parte de consumidores e de diretivas ambientais mais rígidas tem levado empresas públicas e privadas a buscarem meios para a gestão e comunicação do desempenho ambiental dos seus produtos e serviços. Neste contexto a Avaliação do Ciclo de Vida (ACV) tem se consolidado como a técnica mais indicada para comunicações do desempenho ambiental de produtos e no auxílio à gestão ambiental estratégica. Por outro lado, a dificuldade na obtenção de dados nacionais representativos ainda é um obstáculo ao amplo uso da ACV no Brasil. A fim de reduzir a dependência da utilização de bases de dados internacionais em estudos de ACV no país, iniciativas estão sendo tomadas por diferentes instituições acadêmicas, governamentais e empresariais. Tendo em vista a importância do setor de plásticos no país, a ACV Brasil está coordenando projeto para a construção de uma base de dados de transformação de plástico no Brasil. O objetivo deste artigo é relatar os avanços na construção da base dados, apresentando os fluxos de materiais e de energia em diversos processos de transformação de plástico. Os dados dos processos de transformação por injeção, extrusão de perfis planos, moldagem por sopro, extrusão de filmes e extrusão do tipo granulação úmida e granulação seca, empregando as resinas mais utilizadas no Brasil: PP, PEAD, PEBD, PE, ABS, PET e PVC foram coletados em máquinas de escala industrial. Com exceção do consumo de água que foi estimado conforme especificações técnicas, os demais dados são de natureza primária (medidos ou calculados). Os dados 1 ACV Brasil, [email protected]
coletados permitem uma primeira aproximação para consumo energético e indicadores ambientais dos processos de transformação de plásticos no Brasil.
Palavras-chave: Base de dados. Transformação de plásticos. Sustentabilidade. Mapeamento ambiental.
Introdução
A escassez de recursos naturais, associada à preocupação com as mudanças climáticas e demais problemas ambientais, tem influenciado governo e sociedade a repensar conceitos sobre desenvolvimento socioeconômico e responsabilidade ambiental. Nesse sentido, a busca por informações dos impactos ambientais gerados pelas atividades e setores econômicos tem se intensificado como importante elo das estratégias atuais.
A busca por sustentabilidade, através da sinergia entre meio ambiente, economia e ambiente social, em todas as esferas, é traduzida em melhoria na qualidade de vida e na adaptação por um sistema que não utilize os recursos além da sua capacidade (IBICT, 2014). Em um contexto econômico-ambiental, a sustentabilidade também é interpretada como busca pela resiliência: empresas que desenvolvam suas atividades em direção à sustentabilidade tornam-se mais competitivas e mais bem preparadas para desafios, pois têm operações mais eficientes, são capazes de administrar riscos e aproveitar as oportunidades às quais estão expostas (WAYCARBON et. al., 2015).
Room (2004) compara a busca por processos limpos e sustentáveis com o avanço da gestão da qualidade nas últimas décadas: erros eram equivocadamente considerados inevitáveis e, hoje, são vistos como indicadores de ineficiência. Nesse sentido, a poluição é igualmente vista como indicador de ineficiência, e o campo do desenvolvimento sustentável não pode considerá-la como inevitável consequência da produção.
Sidkar (2003) destaca que a preocupação com o meio ambiente foi aos poucos sendo incorporada em projetos e operações; focava-se inicialmente no
tratamento de resíduos, como parte fundamental do pensamento end-of-pipe. Hoje, todavia, a sustentabilidade já abrange dimensão maior e metodologia mais complexa, com análise, planejamento, operações e integração em processos, cadeias de fornecimento e distribuição, em linha com o desenvolvimento alicerçado em conceitos sustentáveis e na visão de futuro.
Entretanto, o maior desafio para as organizações recai sobre a implementação prática do conceito e da gestão da sustentabilidade (FINKBEINER et. al., 2010). Destaca-se, portanto, a necessidade de avaliar, mensurar e diagnosticar processos produtivos e sua relação com os impactos ao meio ambiente, bem como desenvolver alternativas para reduzi-los. Além disso, os impactos de produtos e serviços devem ser avaliados de maneira holística, considerando suas mais diversas fases de produção e uso (IBICT, 2014).
Nesse contexto, a Avaliação do Ciclo de Vida (ACV) apresenta-se como a técnica mais indicada para este tipo de abordagem, possibilitando quantificar os impactos ambientais de um produto ou serviço, desde a extração da matéria-prima até a disposição final. Entre tanto, para o avanço e a aplicação adequada dessa técnica, bases de dados ambientais confiáveis e representativas da realidade nacional necessitam ser desenvolvidas e disponibilizadas. Tal feito é alcançado por meio da coleta de informações sobre o consumo de recursos naturais, de energia e matérias-primas e da geração de efluentes, resíduos e de emissões para água, ar e solo ao longo do ciclo de vida. Assim, torna-se possível a correlação de inventários de entradas e saídas em processos produtivos para posteriores monitoramento e estabelecimento de indicadores de sustentabilidade, com vistas à avaliação, à mensuração e à melhoria contínua.
No Brasil, dentro do escopo do Programa Brasileiro de ACV (PBACV), algumas iniciativas têm sido tomadas para o desenvolvimento do banco de dados nacional. O projeto aprovado pelo CNPq sob coordenação da empresa de consultoria ACV Brasil busca somar esforços e colaborar
no avanço dessas iniciativas, uma vez que reúne dados primários dos processos de transformação de plástico no Brasil. O objetivo deste artigo é mostrar os avanços na construção da base de dados, apresentando também um mapeamento dos parâmetros a serem considerados e uma primeira aproximação dos fluxos de materiais e energia em diversos processos de transformação.