3 O CAMPO
3.4 OS PRIMEIROS ENCONTROS
Após esse momento da aula inaugural, começaram as atividades de cada projeto separadamente. As reuniões do “Conexões Periféricas” ocorriam durante as terças e quintas, em um dos ambientes da sala da Radioescola do CUCA, localizada no térreo do prédio do CUCA Mondubim. A sala sempre parecia pequena para os cerca de 15 jovens do “Conexões”, mas a escolha do local das reuniões se devia, principalmente, à quantidade de cursos que aconteciam simultaneamente no CUCA, que ocupavam grande parte das salas, deixando apenas aquela disponível.
No primeiro encontro, ocorrido em 25 de setembro de 2018, uma terça-feira, fizemos um passeio pela cidade de Fortaleza. Como sugestão de um dos jovens do “Conexões”, fomos primeiro visitar o Museu Firmeza, que ficava perto do CUCA Mondubim, e também perto do local onde o jovem morava. Chegando lá, julguei o local muito lindo, com muitas árvores e
63 grafites coloridos. Anotei no meu diário de campo uma passagem que me chamou atenção:
Estava perto do jovem que havia sugerido o museu como ponto de parada do passeio e comentei: ‘aqui é bonito né?’. Ele então sorriu com muita felicidade, olhou pra mim e disse: ‘é, é minhas área’. Achei tão lindo a forma como ele falou desse lugar, que é o bairro onde mora, e se orgulha de ser dali. Vi ele comentando com outros jovens exatamente a mesma coisa, extremamente animado de estar ali. (DIÁRIO DE CAMPO, Setembro de 2018)
Então, fomos para o Passeio Público, no centro da cidade. A viagem foi muito longa e demorada, devido à distância e ao congestionamento, e chegamos lá quase no horário de voltar ao CUCA. O professor, então, pediu para eles escolherem um local de filmagem e falarem para a câmera o que, para eles, era o “Conexões Periféricas”. Relatei no diário de campo que “As respostas foram as mais variadas ‘auto-descobrimento’ ‘é a cultura da juventude na periferia’ ‘é poesia, é periferia’, e eu tentava, na dinâmica e na correria da gravação, escutar e anotar tudo que os jovens falavam.” (DIÁRIO DE CAMPO, setembro de 2018).
Na quinta-feira da mesma semana iria acontecer uma reunião mais reflexiva do “Conexões”, na sala da Radioescola. A sala era dividida em três espaços. No primeiro, onde geralmente aconteciam as reuniões, só existiam na sala dois computadores, algumas cadeiras e jornais e materiais de consulta. No segundo ambiente, estava todo o equipamento para o funcionamento da rádio do CUCA, que tocava sua programação nos corredores da instituição. Já o terceiro ambiente consistia em um estúdio, onde geralmente aconteciam as gravações de locuções para os programas audiovisuais do CUCA.
A sala da Radioescola, então, não era exclusiva para o “Conexões”, com outras atividades e projetos acontecendo simultaneamente. Não era raro a reunião ser interrompida por alguém que chegava para pedir música na rádio, ou vermos jovens que estavam editando roteiros do Repórter CUCA ou outras ações do CUCA. Inclusive, essa interação entre os projetos me proporcionou uma visão muito mais ampla sobre tudo o que acontecia no centro, e acredito que pros outros jovens participantes a experiência foi bem parecida.
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Figuras 8 e 9 - Sala da Radioescola do CUCA
No segundo encontro, o grupo se reuniu no primeiro ambiente da sala para conversar sobre as diretrizes que o programa deveria tomar. Pensamos sobre referências de outros materiais audiovisuais e estruturas de construção de roteiros que poderiam ser usados no direcionamento das atividades. Além disso fizemos, algumas vezes, a construção e análise de roteiros experimentais, refletindo sobre a forma como o programa poderia ser conduzido.
Figura 10 – Reunião do “Conexões” na sala da Radioescola
Fonte: Foto do autor
Esse segundo encontro teve um caráter muito mais formativo, com atividades que tentaram promover uma reflexão sobre o papel das mídias e, mais especificamente, da notícia na sociedade atual. Uma primeira atividade foi passada para os jovens, para que eles buscassem em casa a resposta para a pergunta “O que é notícia?”, debatendo questões mais conceituais sobre o fazer jornalístico. Percebi que os jovens que sinalizaram cursar alguma
65 faculdade de Jornalismo pareciam muito mais seguros nesse debate, enquanto os que não estudavam ficaram mais calados, escutando e anotando várias informações.
Os jovens apontaram vários conceitos do que é notícia, um deles disse que a notícia é feita pra “compartilhar, seduzir e convencer”, outro apontou que a notícia tem que unir o formal e o popular, pra alcançar as pessoas, e sobre a importância de se entender a construção da notícia. Eu falei pra eles um pouco sobre a notícia como construção de narrativa, que não existe notícia imparcial, porque quem fala, fala de algum lugar, e que eles tinham que entender o lugar deles pra poderem comunicar para quem eles querem comunicar, entender quem eles gostariam de dar voz e destaque nas narrativas que eles iam construir. (DIÁRIO DE CAMPO, setembro de 2018)
Durante esses primeiros encontros, além de um dos professores do projeto, esteve presente também um dos gestores, de modo a explicar, entre outras questões, como se daria a veiculação do programa e estabelecer um cronograma de produção. Logo nessa primeira reunião, o professor presente informou que o primeiro programa dessa temporada já seria exibido dia 13 de outubro, ou seja, 16 dias depois da aula. No diário de campo, anotei que
Senti os jovens bem apreensivos em relação a isso, principalmente por essa ser a primeira aula mais teórica deles. Senti também que, por ter um prazo muito pequeno, isso pudesse prejudicar o andamento das formações, já que nas próximas reuniões eles já deveriam começar a gravar e produzir o programa. (DIÁRIO DE CAMPO, setembro de 2018)
Em outra atividade, ainda na mesma aula, ele pediu para que os jovens falassem seus temas de interesse e relacionassem com suas vivências, pensando como a articulação entre comunicação e cada tema poderia ser feita. Esses temas seriam trabalhados nas próximas reuniões e ajudaria nas construções dos roteiros dos programas. Durante essa segunda atividade, pude perceber um interesse maior deles para discorrer sobre os temas, considerando que estavam tratando de assuntos importantes e que se articulavam com o seu cotidiano. Enquanto eles falavam, o professor tentava agrupar as temáticas sugeridas em grupos maiores, para serem melhor pensados.
Os temas escolhidos pelos jovens foram:
Economia coletiva e juventude; Sexualidade/gênero e feminismo; arte e cultura/produção cultura do CUCA; democratização da informação e das mídias; a temática do rock na periferia; política na periferia; cidade e apropriação jovem; esporte e juventude; Fake News; Comunidade LGBT/drags/preconceito/pink money; Liberdade de expressão e discurso de ódio; curiosidades locais sobre o CUCA; Maconha e legalização das drogas; Acessibilidade. (DIÁRIO DE CAMPO, setembro de 2018)
A escolha temática dos jovens mostra muito do enfoque que eles gostariam que essa nova temporada do Conexões tivesse. Analisando o perfil do grupo, boa parte deles era muito ligada à militância e, mesmo que não fossem militantes, eram simpáticos a algumas causas,
66 como o direito dos LGBTs, questões raciais e ligadas ao feminismo, e a discussão sobre essas questões frequentemente surgia nas reuniões.
Talvez a própria política adotada pelo CUCA os deixe mais à vontade para levantar essas bandeiras no programa. Nos corredores dos centros, existem muitos grafittis ligados às questões feministas, LGBT e raciais. Na própria sala da rádio escola existe uma parede repleta de cartazes temáticos sobre essas questões, que foram produzidos para semanas de conscientização e acabaram ficando fixados por mais tempo.
Figura 11 – Um dos cartazes colados na parede da sala da Radioescola
Fonte: Foto do autor
Os jovens, em determinado momento, questionaram até que ponto eles poderiam definir realmente os temas e teriam liberdade na produção, e “o professor respondeu que eles teriam liberdade na produção desses programas, mas que liberdade total não existe, e os jovens teriam que se adequar às exigências e os limites do CUCA e da TV Ceará.” (DIÁRIO DE CAMPO, setembro de 2018).
Achei essa fala muito forte, principalmente se tratando de um momento tão inicial, mostrando que existiam limites na produção e que eles, eventualmente, iriam ter que se adequar a determinado padrão. Percebi que essa limitação da liberdade foi surgindo enquanto o projeto avançava, com a atuação cada vez mais presente da equipe gestora do CUCA no projeto, e a real necessidade de adequação às normas e exigências tanto do CUCA quanto da TV Ceará. Essas questões serão melhor aprofundadas nos capítulos seguintes.
67 No próximo ponto, irei tratar mais detalhadamente sobre o perfil desses 15 jovens selecionados para o “Conexões”, suas motivações para participarem dos programas e como se deu o início do meu entrosamento com o grupo.