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CAPÍTULO 3 A EVOLUÇÃO E A ATUALIDADE DOS VALORES-NOTÍCIA E DA

3.1 Primeiros estudos e teorias clássicas da noticiabilidade

Os critérios que definem o que é notícia sofreram transformações frente às mudanças na comunicação que vêm ocorrendo desde o final do século XIX, descritas até aqui. As alterações no comportamento do público, potencializadas pelas plataformas de mídias sociais; a distribuição dos conteúdos jornalísticos no ambiente on-line; o papel dos algoritmos como mediadores (ANDERSON, 2011); o contexto que dá origem aos conceitos de Jornalismo em rede (Heinrich, 2011) e Jornalismo pós-industrial (ANDERSON; BELL; SHIRKY, 2013) — tudo isso contribui para que os processos produtivos das redações sejam reinventados. Para melhor compreender essa transição que culmina na conjuntura atual, é necessário resgatar as teorias clássicas de noticiabilidade, ainda que brevemente.

O que torna um assunto ou acontecimento passível de ser transformado em notícia é uma questão que tenta ser respondida desde aquela que foi considerada a primeira pesquisa em jornalismo, a tese De relationibus novellis apresentada por Tobias Peucer em 1690 na Universidade de Leipzig, na Alemanha. Já no século XX, diversos pesquisadores dedicaram- se ao tema, entre eles Walter Lippmann (1922), Galtung e Ruge (1965), Fishman (1978, 1980), Gans (1979), Hartley (1982), Ericson, Baranaek e Chan (1987).

Diante da infinidade de acontecimentos do cotidiano, é preciso ter parâmetros para definir quais deles devem ocupar o tempo e o espaço dos noticiários nas mais diversas plataformas. Tal padronização é importante também em razão da limitação de recursos de quem produz as notícias, sejam empresas de comunicação, agências de conteúdo ou repórteres freelancers. Peucer já identificava essa necessidade quando propôs algumas categorias de eventos que, em sua visão, mereciam ser lembrados:

Pois bem, como estes fatos são quase infinitos, cabe estabelecer uma seleção de modo que seja dado preferência aos axiomnemóneuta, ou seja, àqueles que merecem ser recordados ou reconhecidos. São desta natureza, em primeiro lugar, os prodígios, as monstruosidades, as obras ou os feitos maravilhosos e insólitos da natureza ou da arte, as inundações ou as tempestades horrendas, os terremotos, os fenômenos descobertos ou detectados ultimamente, fatos que têm sido mais abundantes que nunca neste século. Depois, as diferentes formas dos impérios, as mudanças, os movimentos, os afazeres da guerra e da paz, as causas das guerras, os planos, as batalhas, as derrotas, as estratégias, as novas leis, os julgamentos, os cargos políticos, os dignatários, os nascimentos e mortes dos príncipes, as sucessões em um reino, as inaugurações e cerimônias públicas [...] Finalmente os temas eclesiásticos e literários: como a origem desta ou daquela religião, seus autores, seus progressos, as novas seitas, os preceitos doutrinais, os ritos, os cismas, a perseguição que sofrem, os sínodos celebrados por motivos religiosos, os decretos, os escritos mais notáveis dos sábios e doutos, as disputas literárias, as obras novas dos homens eruditos, as instituições, as desgraças, as mortes e centenas de coisas mais que façam referência à história natural, à história da sociedade, da igreja ou da literatura (PEUCER, 2004, p. 21).

Desde a pesquisa de Peucer, vários teóricos estudaram os conceitos de noticiabilidade e valores-notícia, com a intenção de compreender e contribuir para a exequibilidade do trabalho jornalístico de selecionar, tratar e hierarquizar diariamente acontecimentos dignos de serem noticiados. Considerados uma das principais referências clássicas na área, Galtung e Ruge (1965) foram pioneiros na sistematização dos valores- notícia no jornalismo, descrita no estudo The structure of foreign news: the presentation of the Congo, Cuba and Cyprus crises in four Norwegian newspapers (A estrutura das notícias estrangeiras: a apresentação das crises do Congo, Cuba e Chipre em quatro jornais noruegueses, em tradução livre). Ao longo da pesquisa, eles investigaram como os jornais da Noruega cobriam conflitos e crises internacionais.

Para tentar explicar quais informações haviam sido selecionadas ou rejeitadas pelos quatro veículos noruegueses, e respondendo à pergunta sobre como os acontecimentos se convertiam em reportagens, eles listaram 12 valores-notícia: frequência; amplitude; clareza ou falta de ambiguidade; significância; consonância; imprevisibilidade; continuidade; composição ou equilíbrio; referência a pessoas e nações de elite; personificação; negatividade. “Galtung e Ruge escrevem que um acontecimento será tanto mais noticiável quanto maior número de valores possuir, embora não seja uma regra absoluta”, aponta Traquina. (2005, p. 73). Além disso, o autor português afirma que cada evento poderia conter mais elementos de um valor do que de outro, compensando assim os atributos de noticiabilidade.

Outra teoria clássica que busca explicar como e por que fatos e acontecimentos se tornam notícia é o gatekeeping. Com formação em Física, o teórico Kurt Lewin (1947) estudava o comportamento humano no âmbito da psicologia, quando analisou as etapas percorridas pelos alimentos até chegarem à mesa das pessoas para serem consumidos. Sua verdadeira intenção era compreender de que maneira os psicólogos poderiam realizar mudanças sociais amplas. Shoemaker e Vos explicam que Lewin acreditava que seu modelo poderia ser aplicado de forma geral, não apenas para canais de alimento, mas também para “a passagem de itens de notícia por certos canais de comunicação em um dado grupo, para a passagem de mercadorias, e a locomoção social de indivíduos em muitas organizações” (LEWIN, 1951, p. 187 apud SHOEMAKER, VOS, 2011, p. 28).

Inspirado por Lewin (1947), David White foi o primeiro pesquisador a traduzir os estudos do gatekeeping para a área da comunicação. Ele se debruçou sobre os trabalhos de Lewin quando atuou como seu assistente de pesquisa na Universidade de Iowa, nos Estados Unidos, e publicou o artigo The “Gate Keeper”: A Case Study in the Selection of News (O

“guardião da porta”: um estudo de caso na seleção de notícias, em tradução livre). Interessado em compreender os fatores que influenciavam quais informações seriam incluídas e excluídas no processo da notícia, White pediu que um editor de conteúdos de agência de um jornal regional guardasse todos os textos que chegassem à redação durante uma semana em 1949. Mister Gates — como White se referia ao editor — ainda anotou as explicações sobre os motivos pelas quais cada um dos itens rejeitados não havia sido publicado.

Dessa forma, White comparou as histórias realmente utilizadas pelo editor com o conjunto de itens enviados pelas agências semanalmente (SHOEMAKER; VOS, 2011). Com base nas escolhas de Mr. Gates e as razões que as explicavam, o pesquisador concluiu que o processo de gatekeeping era extremamente subjetivo, atrelado diretamente aos preconceitos, opiniões e posicionamentos do editor. Conforme Shoemaker e Vos (2011), em cerca de um terço das vezes, decidiu rejeitar os itens baseado em sua avaliação pessoal sobre os méritos do conteúdo, principalmente se acreditava que este era verdadeiro. Já os outros dois terços das histórias eram recusadas por não haver espaço suficiente para elas ou porque eram semelhantes a conteúdos que já estavam sendo publicados.

"Não gosto da economia de Truman, do horário de verão e da cerveja quente", explicou Gates sobre seus preconceitos, e incluiu entre eles uma aversão distinta por "uma publicidade em busca de uma minoria com sede em Roma" e uma preferência por "histórias de interesse humano", "Histórias bem encerradas" e "adaptadas para atender às nossas necessidades (ou aquelas que se inclinam para se adequar às nossas políticas editoriais") (White, 1950, 390), o que levou White a concluir que seus estudos mostraram "quão altamente subjetivo, com base no 'conjunto de experiências, atitudes e expectativas do guardião do portão, é realmente a comunicação das 'notícias' ”(390) (BRO; WALLBERG, 2014, p. 447).

Ambas as teorias, dos valores-notícia e do gatekeeping, influenciaram diversos pesquisadores. Entre os teóricos que investigam os critérios para que os eventos se tornem reportagens jornalísticas estão Rositi (1975), Altheide (1976), Tuchman (1977), Golding e Elliott (1979), Magistratti (1981), Epstein (1981), Hartley (1982), Garbarino (1982), Daniel Hallin (1986), Ericson, Baranaek e Chan (1987), Mauro Wolf (2001), Gislene Silva (2005) e Nelson Traquina (2005). Para Wolf, a noticiabilidade é o “conjunto de elementos através dos quais o órgão informativo controla e gere a quantidade e o tipo de acontecimentos, de entre os quais há que selecionar as notícias” (2001, p. 195).

Nesse sentido, o autor italiano defende que os valores-notícia são componentes da noticiabilidade e “constituem a resposta à pergunta seguinte: quais os acontecimentos que são considerados suficientemente interessantes, significativos e relevantes para serem

transformados em notícias?”. O teórico acredita que os valores-notícia funcionam de maneira complementar, combinando-se e relacionando-se no momento da seleção dos fatos. Ele também afirma que devem ser práticos e de fácil entendimento, a ponto de permitir a rotinização do trabalho jornalístico, pois seria impossível aos profissionais ter que decidir a cada momento como os eventos devem ser selecionados para se tornarem notícias. A definição de determinados padrões ainda minimiza a ação subjetiva, permitindo a repetição dos procedimentos e a rápida tomada de decisões.

Os estudos de Traquina vão ao encontro das ideias de Wolf em relação ao significado de noticiabilidade. Para ambos, ela envolve diversos fatores que tornam um acontecimento noticiável: “Podemos definir o conceito de noticiabilidade como o conjunto de critérios e operações que fornecem a aptidão de merecer um tratamento jornalístico, isto é, possuir valor como notícia” (TRAQUINA, 2005, p. 63). O teórico português define os critérios de noticiabilidade como o conjunto dos valores-notícia que “determinam se um acontecimento, ou assunto, é susceptível de se tornar notícia, isto é, de ser julgado como merecedor de ser transformado em matéria noticiável e, por isso, possuindo “valor-notícia” (newsworthiness)” (TRAQUINA, 2005, p. 63). Nenhum dos dois autores diferencia claramente os significados de “valores-notícia” e de “critérios de noticiabilidade”, utilizando-os, por vezes, como sinônimos.

Para a teórica brasileira Gislene Silva, o conceito de noticiabilidade é mais amplo e abarca em sua definição “todo e qualquer fator potencialmente capaz de agir no processo da produção da notícia” (SILVA, 2005, p. 96), sejam relacionados ao controle e administração das empresas jornalísticas ou às características intrínsecas aos acontecimentos. A pesquisadora considera que os critérios de noticiabilidade são divididos em três instâncias, que atuam de maneira concomitante na prática da produção noticiosa:

(a) na origem dos fatos (seleção primária dos fatos / valores-notícia), considerando atributos próprios ou características típicas, que são reconhecidos por diferentes profissionais e veículos da imprensa; (b) no tratamento dos fatos, centrando-se na seleção hierárquica dos fatos e levando-se em conta, para além dos valores-notícia dos fatos escolhidos, fatores inseridos dentro da organização, como formato do produto, qualidade do material jornalístico apurado (texto e imagem), prazo de fechamento, infra-estrutura, tecnologia etc, como também fatores extra- organizacionais direta e intrinsecamente vinculados ao exercício da atividade jornalística, como relações do repórter com fontes e públicos; (c) na visão dos fatos, a partir de fundamentos éticos, filosóficos e epistemológicos do jornalismo, compreendendo conceitos de verdade, objetividade, interesse público, imparcialidade que orientam inclusive as ações e intenções das instâncias ou eixos anteriores (SILVA, 2005, p. 96).

Silva dialoga com Wolf quando este defende que os valores-notícia agem em todo o processo de produção da informação jornalística (WOLF, 2001, p. 196), mas ressalta que a seleção engloba tanto a etapa primária quanto a fase de tratamento do fato, definida por ela como a segunda instância dos critérios de noticiabilidade. Para a autora, os valores-notícia são fruto de uma construção social e cultural, definidos como um grupo de critérios que “cerca a noticiabilidade do acontecimento considerando origem do fato, fato em si, acontecimento isolado, características intrínsecas, características essenciais, atributos inerentes ou aspectos substantivos do acontecimento” (SILVA, 2005, p. 98).

Além disso, Silva e Traquina, baseados em outros teóricos, lembram que os valores- notícia são “um mapa cultural do mundo social”, conforme afirmou o pesquisador britânico Stuart Hall, e “formam um código que vê o mundo de uma forma muito particular (peculiar até). Os valores-notícia são, de fato, um código ideológico”, segundo Hartley (1982, p. 80). Assim, pressupõe-se que haja um consenso na sociedade, um conjunto de valores partilhados por todos. O jornalista, evidentemente, precisa estar inserido nessa sociedade, para que suas escolhas sobre o que é notícia ou não façam sentido para as pessoas de maneira geral.

Outro ponto importante sobre os valores-notícia é que muitos deles perduram ao longo dos anos, como demonstrou o estudo feito por Traquina sobre os critérios de noticiabilidade em três períodos históricos distintos, os anos 70 do século XX, os anos 30 e 40 do século XIX e as primeiras décadas do século XVII. O pesquisador constatou que houve pouca variação entre os três momentos da história, reforçando a importância das “qualidades duradouras” das notícias, elencadas por Mitchell Stephens (1988): o insólito, o extraordinário, o catastrófico, a guerra, a violência, a morte, a celebridade (apud TRAQUINA, 2005, p. 9).

É surpreendente que a essência das notícias pareça ter mudado tão pouco? A que outros assuntos se poderiam as notícias ter dedicado? Podemos imaginar um sistema de notícias que desdenhasse o insólito em favor do típico, que ignorasse o proeminente, que dedicasse tanta atenção ao datado como ao atual, ao legal como ao ilegal, à paz como à guerra, ao bem-estar como à calamidade e à morte?” (STEPHENS, 1988, p. 34 apud TRAQUINA, 2005, p. 69).

Ao revisitar a teoria do gatekeeping, Shoemaker e Vos (2011) também afirmam que situações em que leis e normas são cumpridas raramente se convertem em notícias. Segundo eles, o fato de um evento, determinadas pessoas ou discussões constituírem desvios, ou seja, operarem fora das fronteiras do mundo civilizado, faz com que tenham maior probabilidade de se tornarem reportagens jornalísticas. “Os valores de notícia padrão são utilizados para

determinar o que passará pelo portão. Eles operam como regras para orientar a escolha de quais detalhes de uma mensagem serão enfatizados ou omitidos” (SHOEMAKER; VOS, 2011). Assim, os eventos que representam condições consideradas normais não atendem aos valores-notícia, não passam pelo portão do gatekeeper.

No entanto, embora a essência de muitos valores-notícia permaneça a mesma com o passar do tempo — como as características de desvio social apontadas por Traquina (2005) e Shoemaker (2011), por exemplo —, Wolf enfatiza o caráter dinâmico desses atributos noticiosos. Para o autor, apesar de indicarem uma forte homogeneidade no interior da cultura profissional, os valores-notícia não permanecem sempre os mesmos (WOLF, 2001). Traquina compartilha a mesma reflexão:

Mas os valores-notícia não são imutáveis, com mudanças de uma época histórica para outra, com destaques diversos de uma empresa jornalística para outra, tendo em conta as políticas editoriais. As definições do que é notícia estão inseridas historicamente e a definição da noticiabilidade de um acontecimento ou de um assunto implica um esboço da compreensão contemporânea do significado dos acontecimentos como regras do comportamento humano e institucional (TRAQUINA, 2005, p. 95).

Assim, ao mesmo tempo em que os valores-notícia mudam em contextos de grande transformação social — como com a massificação da internet e a alteração no comportamento do público conectado — alguns pilares se mantêm ao longo dos anos. É o caso dos conceitos de “importância” e “interesse”, que cobrem todo o campo de valores-notícia, segundo Gomis (2002, p. 226). Para o pesquisador catalão, o “importante” seria a informação que todos precisam saber e o “interessante”, uma informação que o público gostaria de saber.

O debate sobre esses pilares é pertinente por, entre outros aspectos, evidenciar que a busca pela atração do leitor é algo inerente ao processo de construção da notícia. Mais além da preocupação com a monetização, atrelada muitas vezes a métricas de audiência na atualidade, a busca por fisgar a atenção do público sempre existiu, uma vez que nenhum jornalista produz uma notícia para que não seja lida. Wolf afirma que o interesse pode ser contraditório ao critério da importância, mas destaca, nas palavras de Golding e Elliott, que a capacidade de atrair o público é componente fundamental da produção noticiosa.

Normalmente, o problema resolve-se com a cooptação de um ideal por parte do outro, no sentido em que, para se informar um público, é necessário ter atraído a sua atenção e não há muita utilidade em fazer um tipo de jornalismo aprofundado e cuidadoso, se a audiência manifesta o seu aborrecimento mudando de canal. Desta forma, a capacidade de entreter situa-se numa posição elevada na lista dos

valores/notícia, quer como fim em si própria, quer como instrumento para concretizar outros ideais jornalísticos” (GOLDING; ELLIOTT, 1979, p. 117 apud WOLF, 2001, P. 205)

3.2 OS PILARES DA IMPORTÂNCIA OU INTERESSE PÚBLICO E DO INTERESSE DO