7.2 COBERTURA DA COP15
7.2.1 Primeiros relatos da COP15
No dia 08 de agosto de 2008, no Indymedia UK foi postado um dos primeiros textos referentes à COP15. Este tratava de convocação para (como diz seu título) “[...] encontro de
preparação das mobilizações internacionais para a COP 15 [...]”
(http://www.indymedia.org.uk/en/2008/08/405925.html). O encontro seria realizado em Copenhagen, nos dias 13 e 14 de setembro de 2008, e foi convocado pelo Climate Network
09, “[...] uma rede mundial de cerca de 500 Organizações Não-Governamentais (ONGs) que
60 Já expomos a mesma passagem do texto em outro capítulo.
61 Tradução de: “Corporate leaders, of course, were not officially part of the UN discussions at Copenhagen, but the COP15 was nonetheless clearly also a corporate event.”
62
Tradução de: “Some of these groups support the efforts of the nation-states on the first tier and/or the corporations on the second, while others attempt to counter them.”
trabalham para promover ação governamental e individual para limitar as alterações climáticas induzidas pelo homem a níveis ecologicamente sustentável.”63
O objetivo era preparar manifestações em Copenhagen, como em todo o mundo, durante a conferência das Nações Unidas. Também o texto trazia posicionamento frente às questões do clima. Segundo este, os governos dão prioridade ao crescimento econômico e aos interesses das corporações, ignorando a ameaça das mudanças climáticas, que afetam a vida de bilhões de pessoas. Também é dito que a COP 15 “[...] será a mais importante reunião de cúpula sobre a alteração climática já realizada, e determinará como os países do mundo reagirão às ameaças climáticas.”64 No entanto mostra desconfiança por considerar que não serão tomadas decisões eficazes.
Em 16 de setembro de 2008, matéria é publicada no Indymedia DK, assinada pelos ativistas que se reuniram no encontro antes citado. Parecida com o texto anterior, expõe algumas ideias complementares: as mudanças climáticas já afetam indígenas, pequenos fazendeiros, comunidades marginalizadas; e, mais importante, traz considerações que fazem parte do vocabulário de Negri e Hardt: “Todos devem ter igual acesso aos bens comuns globais através de controle social e da soberania sobre a energia, florestas, terra e água.”65. Porém o comum para os autores não se refere apenas à natureza, mas diz respeito à vida como um todo.
Quando eu digo que o comum está em jogo no processo de globalização, refiro-me, por um lado, à terra, às florestas, o mar, à atmosfera, em suma, algo como o que era tradicionalmente chamado de comum. Por outro lado, o comum também concerne a uma série de resultados da produção e da criatividade humana, tais como idéias, imagens, códigos, saberes, informações e afetos. A questão da mudança climática se situa principalmente no primeiro deles, mas a relação entre essas duas noções do comum foi também um fator importante em Copenhague.66 (HARDT, 2009)
63 Tradução de: “The Climate Action Network (CAN) is a worldwide network of roughly 500 Non- Governmental Organizations (NGOs) working to promote government and individual action to limit human-induced climate change to ecologically sustainable levels.” (http://www.climatenetwork.org/about/about-can). 64 Tradução de: “This will be the most important summit on climate change ever to have taken place, and it will
determine how the countries of the world are going to respond to the climate threat.” (http://www.indymedia.org.uk/en/2008/08/405925.html).
65
Tradução de: “All should have equal access to the global commons through community control and sovereignty over energy, forests, land and water.” (https://publish.indymedia.dk/articles/384).
66
Tradução de: “When I say that the common is centrally in play in the processes of globalization I refer on the one hand to the land, the forests, the sea, the atmosphere—in short, something like what was traditionally called the commons. On the other hand, the common also names a range of results of human production and creativity, such as ideas, images, code, knowledges, information, and affects. The question of climate change refers primarily to the first of these but the relation between these two notions of the common was also an important factor in Copenhagen.”
Cocco (2009, p. 25) cita Michel Serres, o qual diz que o mais importante nas reuniões sobre aquecimento global é “[...] a tomada de consciência generalizada da ‘aparição de nosso barco comum [...]’.”
Em 5 do 12 de 2008, é publicado o mesmo texto no indymedia UK, no entanto com informações adicionais, anuncia mais ações e outras reuniões:
Outra reunião de planejamento internacional terá lugar em Março de 2009, onde os conceitos e estratégias de ação serão discutidos. Um Climate Camp acontecerá entre os dias 11 e 19 de julho. Além disso, uma ação em massa vai tentar fechar uma usina de energia da Dinamarca nos meses que antecederem a conferência.67
Quanto ao Climate Camp, referido na citação anterior, ele é ação que ocorre com frequência no Reino Unido, e também em outras partes da Europa. Encontramos no
indymedia textos que tratam do Climate Camp, como vimos, rapidamente, na parte sobre o
funcionamento do coletivo do Reino Unido. Uma das manifestações mais significativas, acontecidas em Londres contra a COP15 foi acampamento no centro da cidade.
Como o próprio nome do grupo diz, ele faz acampamentos, e tem como foco a insurgência contra as políticas capitalistas do Império, que afetam o bem comum da multidão, a vida no planeta. “Os Climate Camps são organizados coletivamente, são não-hierárquicos, e qualquer um é apto a participar no processo de tomada de decisão.”68 “Cada acampamento
trabalha com quatro temas fundamentais: educação, ação direta, vida sustentável e a construção de um movimento para combater eficazmente as alterações climáticas.”69 As pessoas que participam são voluntárias; gente como professores, enfermeiras, doutores, jovens trabalhadores, artistas, estudantes, carpinteiros, encanadores.
O movimento é aberto, descentrado em inúmeros grupos. Como outras resistências atuais não têm líder, não se refere a partidos ou a tipos de organizações tradicionais. Os acampamentos reúnem milhares de pessoas e, mesmo que estejam localizados no Reino Unido, tratam de questões globais, isso é visto em sua aliança com o Climate Justice Action.
67 Tradução de: “Another international planning meeting will take place in March 2009 where the concepts and strategy for action will be discussed. A Climate Camp will take place on the 11-19th of July. Additionally a mass action will attempt to shut down a Danish power plant in the months before the Summit takes place” (http://www.indymedia.org.uk/en/2008/12/414376.html).
68 Tradução de: “Climate Camps are collectively organised, non-hierarchical, and everyone is able to participate in the decision-making process.” (http://www.indymedia.org.uk/en/2010/08/457296.html).
69 Tradução de “Every Camp for Climate Action event weaves four key themes: education, direct action, sustainable living, and building a movement to effectively tackle climate change […].” (http://www.climatecamp.org.uk/about).
Falamos também um pouco no início do capítulo sobre o Climate Justice Action, pois este foi uma das singularidades presentes na COP15 que ajudaram na cobertura no indymedia
DK. O CJA é rede que reúne inúmeros grupos com demandas, políticas, táticas,
posicionamentos diferenciados. Mas esses grupos atuam em comum e lutam por causas comuns:
[...] nós compartilhamos uma preocupação comum sobre as falsas soluções para a crise climática, uma ênfase na justiça climática (... os menos favorecidos em todo o mundo são os mais ameaçados pelos perigos econômicos, sociais e ecológicos das alterações climáticas!), e uma vontade para agir.70
A rede é aberta a quem tenha afinidade com seus princípios. Há três grupos brasileiros que fazem parte: FASE, Rede Brasileira Pela Integração dos Povos, Terra de Direitos.
A característica de composição de rede aberta, sem núcleo duro, nós estamos percebendo em inúmeros outros movimentos a partir da análise dos coletivos do indymedia. E como veremos, as lutas contra as políticas do Império sobre o clima, diz respeito à rede aberta global, na qual o indymedia é singularidade que forma outra rede, também global. Como já foi dito, em outro momento na dissertação, as resistências contemporâneas funcionam mediante coalizões71 globais (CASTELLS, 2003) como forma de reunir a multidão contra o Império. E importante para o trabalho, também é a constatação de que para isso elas usam a internet (idem, ibidem). Negri e Hardt dizem que não há mais razão em lutar pela soberania nacional, pois o Estado-nação depende dos outros elementos do mapa do Império. Assim, se há o desejo de democracia, essa democracia tem que ser global.