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7. OS PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS DO PROCESSO

7.8 O princípio da brevidade processual

A Emenda Constitucional nº. 45/2004, conhecida como Emenda da Reforma do Poder Judiciário, incluiu ao artigo 5º, o inciso LXXVIII, que expressamente afirma: ―a todos, no âmbito judicial e administrativo, são assegurados a razoável duração do processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação‖.

Destarte, esse princípio já se encontrava consolidado no ordenamento jurídico brasileiro, em face do artigo 8º, §1º, da Convenção Americana de Direito Humanos de 1969 (Pacto San José da Costa Rica), ratificado pelo Brasil em 1992.392

392 Artigo 8º. §1º. Toda pessoa terá o direito de ser ouvida, com as devidas garantias e dentro de um prazo razoável, por um juiz ou Tribunal competente, independente e imparcial, estabelecido

anteriormente por lei, na apuração de qualquer acusação penal formulada contra ela, ou na determinação de seus direitos e obrigações de caráter civil, trabalhista, fiscal ou de qualquer outra natureza. (g.n.).

Há de se notar no ordenamento jurídico constitucional a preocupação com a razoável duração do processo durante a prestação jurisdicional, já que o processo detém uma função social de eliminar conflitos e fazer justiça.

A razoável duração do processo passou a ser considerada em duas vertentes: como direito fundamental, e, doravante, intangível e insuscetível de modificação, constituindo-se evidentemente em cláusula pétrea, protegida, por conseguinte, pelo manto do artigo 60, § 4º, inciso IV, da Constituição da República de 1988; e como diretriz estrutural do processo.

No primeiro aspecto, como direito e garantia individual e fundamental, todos os litigantes, no âmbito judicial ou administrativo, passam a ter assegurados a razoável duração do processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação.

Para André Ramos Tavares, ocorreu o surgimento de novos e formais direitos fundamentais: a razoável duração do processo judicial; a razoável duração do processo administrativo; os meios que garantam a celeridade da tramitação do processo judicial; e os meios que garantam a celeridade da tramitação do processo administrativo.393

Ora, uma vez que crescente número de indivíduos, grupos de interesses, antes não representados, agora têm acesso aos tribunais e a mecanismos semelhantes, através das reformas que apresentamos ao longo do trabalho, a pressão sobre o sistema judiciário, no sentido de reduzir a sua carga e encontrar procedimentos ainda mais baratos, cresce dramaticamente.394

A vertente estrutural do processo está ligada à lentidão, à morosidade excessiva, como denegação de justiça. Mauro Cappelletti ressalta bem a importância de uma prestação célere. Para este, a duração excessiva do processo é fonte de injustiça social, pois o grau de resistência do pobre é menor do que a do rico. A justiça que não cumpre suas funções dentro de prazo razoável finda por se tornar uma justiça inacessível.395

Para Luiz Marinoni ―uma justiça lenta é fonte de desestimulo para o cidadão recorrer à justiça‖.396

Este doutrinador defende que a lentidão do processo pode transformar o princípio da igualdade processual em coisa irrisória, e arremata:

393 Cf. TAVARES, André Ramos. Curso de direito constitucional. Op. Cit. p. 629. 394 Cf. CAPPELLETTI, Mauro; GARTH, Bryant. Acesso à Justiça. Op. Cit. p. 162. 395

Cf. CAPPELLETTI, Mauro; GARTH, Bryant. Acesso à Justiça. Op. Cit. p. 20. 396 Cf. MARINONI, Luiz Guilherme. A antecipação de tutela. Op. Cit. 108.

A questão da morosidade do processo está ligada, fundamentalmente, à estrutura do Poder Judiciário e ao sistema de tutela dos direitos. O bom funcionamento do Poder Judiciário depende de uma série de fatores, exigindo, entre outras coisas, relação adequada entre o número de juízes e o número de processos. 397

O acesso à justiça deve ser visto não somente com a atividade de garantia constitucional exercida pelo Poder Judiciário, mas também com a duração de um tempo considerado razoável para sua realização.

O princípio em comento busca assegurar a construção de um sistema processual em que não haja dilações indevidas. Que o processo não dure mais do que o estritamente necessário para que se possa alcançar os resultados justos. Ainda, legitima a punição de todas as condutas que tenham o objetivo de protelar o resultado final do processo. 398

Decorre deste princípio a possibilidade de antecipação da tutela jurisdicional satisfativa (art. 273, II, Código de Processo Civil - CPC); as sanções contra a litigância de má-fé (art. 17 Código de Processo Civil - CPC); e a responsabilidade civil do juiz que injustificadamente retarda a prática de ato que deveria praticar (art. 133, II, Código de Processo Civil - CPC).

Como garantias processuais que vislumbram viabilizar a celeridade, mencionam-se: a busca da redução no número de processos pela redução do número de recursos extraordinários a serem conhecidos (art. 102, § 3º, da Constituição Federal de 1988, pelo qual se estabelece, para este recurso, a necessidade de o recorrente demonstrar a repercussão geral das questões constitucionais discutidas no caso); a súmula vinculante, fazendo com que as decisões sejam mais previsíveis e, assim, mais céleres; a atuação do Conselho Nacional de Justiça; a atividade jurisdicional ininterrupta, com o fim das férias coletivas; a distribuição imediata de processo em todos os graus da jurisdição; a justiça funcionando descentralizadamente; a justiça itinerante; a possibilidade de despachos ordinatórios do processo pelo serventuário da justiça; aumento do número de juízes, proporcionalmente em relação à demanda e população.399

O Tribunal Marítimo, da mesma forma, preza pela celeridade na solução do processo. Na Lei n. 2.180/54 pode-se constatar o intento do legislador em se propiciar a brevidade processual.

397 Cf. MARINONI, Luiz Guilherme. Novas Linhas do Processo Civil. Op. Cit. p. 34. 398

Cf. CÂMARA, Alexandre Freitas. Lições de direito processual civil. Volume I. Op. Cit. p. 61. 399 Cf. TAVARES, André Ramos. Curso de direito constitucional. Op. Cit. p. 631.

Fundamentalmente, como afirmado atua perante o Tribunal Marítimo a Corregedoria, que tem como objetivo pugnar pela qualidade e celeridade no andamento dos processos, bem como no trabalho executado pela Secretaria. Em linhas gerais, garantir que se atue em consonância com os princípios constitucionais pertinentes, exarados no art. 37, caput, da Constituição Federal, quais sejam: legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. 400

Além disso, compete ao juiz orientar os processos de forma a assegurar-lhes andamento rápido sem prejuízo da defesa, dos interessados e da finalidade do Tribunal (art. 24, alínea ―c‖). Da mesma maneira, o fato de dever ser o inquérito encerrado enviado com urgência ao Tribunal Marítimo, como maneira de acelerar o processo de julgamento (art. 39).

E, principalmente, que caso haja o retardamento de processo por parte de juiz, procurador, adjunto de procurador ou advogado de ofício, se determinará a perda de tantos dias de vencimentos quantos os excedidos dos prazos estabelecidos nesta lei, descontados no mês imediato àquele em que se verificar a falta, onde o desconto far-se- á pela repartição pagadora, à vista de certidão, que o Secretário do Tribunal lhe remeterá

ex-offício, sob pena de multa de Cr$ 500,00 (quinhentos cruzeiros), imposta por

autoridade fiscal, sem prejuízo da falta de exação no cumprimento do dever. (art. 154 e parágrafo único).

O Regimento Interno Processual do Tribunal Marítimo - RIPTM adotou como medidas que possibilitem a brevidade processual, as seguintes: o fato de competir ao juiz orientar os processos de forma a assegurar-lhes andamento rápido sem prejuízo da defesa dos interessados e da finalidade do Tribunal (art. 10, aliena ―c‖); os inquéritos recebidos serão imediatamente distribuídos aos Juízes Relator e Revisor, de acordo com sorteio (art. 24); existir prazo certo para despachos, onde apenas por justo motivo o juiz poderá exceder por prazo igual (art. 45); da mesma forma os atos e termos processuais serão executados no prazo de 05 (cinco) dias, pelo servidor que for incumbido da execução, salvo disposição em contrário (art. 47); ainda, que sob pretexto algum poderá o Procurador ou Advogado reter, além do prazo, os autos recebidos com vista, para que seja possível a normal e célere tramitação (art. 53).

De forma conclusiva se percebe que o Tribunal Marítimo, como órgão administrativo, preza pela breve tramitação e resolução dos processos, em busca de uma

solução adequada e tempestiva, em adequação ao princípio processual da brevidade processual.