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Princípio da criança e do adolescente como sujeitos de direitos

A proteção do direito à convivência familiar da criança e do adolescente em diálogo com as perspectivas do Direito de Família

2. O direito à convivência familiar no contexto dos princípios reitores da Doutrina da Proteção Integral

2.1. Princípio da criança e do adolescente como sujeitos de direitos

Crianças e adolescentes, pessoas em peculiar condição de desenvolvimento, têm em diversos aspectos interesses ou necessidades iguais aos dos adultos. Em outros tantos aspectos, têm interesses ou necessidades adicionais ou específicas. Tais interesses e necessidades, tanto em relação aos aspectos idênticos como especialmente em relação aos aspectos adicionais ou específicos, devem ser tutelados juridicamente de forma diferenciada pela concepção com sede na Doutrina da Proteção Integral.

Para que determinada necessidade ou interesse possa ser considerada como algo suscetível de ser nominado como um direito, é indispensável, no mínimo, a definição, pela norma, do conteúdo material da obrigação, do titular responsável pelo cumprimento da obrigação, dos instrumentos para o exercício da obrigação e, finalmente, das consequências decorrentes do descumprimento da

5 A Lei Federal nº 12.010, de 03 de agosto de 2009, adotou a expressão proteção integral como princípio para a aplicação das medidas (vide artigo 100, parágrafo único, inciso II, do Estatuto). Trata-se de formulação reducionista. A uma, pelo sentido literal do conceito, em tudo incompatível com o propósito da apropriação brasileira da Convenção sobre os Direitos da Criança e do Adolescente, o de reduzir os níveis de discricionariedade e de subjetividade das escolhas. A duas, porque, na explicação, o sentido conferido ultrapassa o que está proposto no caput do parágrafo, ou seja, o princípio não diz respeito tão só à aplicação das medidas, mas serve de critério de interpretação e de aplicação de toda e qualquer norma contida no Estatuto.

6Parte da doutrina e parte da jurisprudência brasileira reduzem a expressão proteção integral em mero princípio. Em sentido literal, o que significa proteção integral? A expressão, isoladamente considerada, reinstala a discricionariedade e a subjetividade própria da cultura menorista, pois depende a visão, dos valores e dos interesses do autor da decisão definir o que deva ser protegido integralmente e os limites e métodos do modo de proteção. Ou seja, além de reduzir os fundamentos doutrinários a mero princípio, a aplicação das medidas de proteção dos direitos da criança e do adolescente é devolvida para o âmbito do entendimento subjetivo e discricionário da autoridade competente. Proteção Integral, portanto, é uma doutrina que se orienta por princípios. E não tão-somente mero princípio de orientação ou de interpretação do sistema de proteção.

Diké, Aracaju, ano IV, vol. I , jan/jul/2015, p.112 a 136, julho/2015|www.dikeprodirufs.br

obrigação. Tais questões situam-se no cerne da mudança paradigmática, constituindo-se no principal diferencial entre o tratamento jurídico dispensado ao menor pela Doutrina da Situação Irregular e o tratamento jurídico dispensado à criança e ao adolescente pela Doutrina da Proteção Integral. Pelo paradigma anterior, o da Situação Irregular, o menor era objeto de providências, sujeito passivo e contemplativo das determinações da autoridade competente. Pela Proteção Integral, crianças e adolescentes são sujeitos situados no polo ativo dos interesses ou necessidades suscetíveis de reconhecimento e de proteção.

A singeleza da mudança está no foco central do objeto da tutela: no lugar da proteção da pessoa, a proteção dos direitos da pessoa7. Pela Doutrina da Proteção Integral, crianças e

adolescentes passaram para o patamar de grupo social insuscetível de quaisquer discriminações negativas em razão da sua condição ou, até mesmo, em face das suas condutas. Mas não é só isso. Trata-se de concepção em que crianças e adolescentes, em razão da condição peculiar de pessoas em desenvolvimento, são afirmativamente discriminadas, discriminação que reconfigura e dinamiza o princípio da igualmente, da igualdade formal para a igualdade material.

O citado princípio reconhece a criança e o adolescente como sujeitos destacados no âmbito dos direitos humanos; eleva o respeito à dignidade como fundamento da própria condição humana; exige a satisfação de determinadas necessidades ou interesses como pressuposto de um estado de dignidade; impõe ao Estado, como fundamento ético da sua própria existência, o dever de garantia dos mínimos para um estado de dignidade; e, finalmente, destaca a diferença como da essencialidade da condição humana. Cada uma dessas questões centrais, com gênese nos fundamentos da Carta Universal dos Direitos do Homem, faz de crianças e adolescentes, porque portadores de interesses ou necessidades com tutela diferenciada, sujeitos qualificados no âmbito dos direitos humanos e das relações jurídicas destinadas à proteção dos seus interesses e necessidades.

Em relação ao sentido do princípio, merece atenção destacada o significado da palavra direito, alinhavado que está com a ideia de interesse subjetivamente considerado e protegido pela ordem jurídica8. Assim, o direito de que crianças e adolescentes são sujeitos diz com a proteção legal de

necessidades ou interesses eleitos e explicitados como tal pela ordem jurídica, porque, como dito, necessidades e interesses materialmente identificados, com a definição, além do titular da obrigação, dos

7 Vide, nesse sentido, o artigo 227, caput, da Constituição Federal e artigo 4º, caput, do Estatuto da Criança e do Adolescente. 8 Em outras palavras, direito é “o poder ou a faculdade conferida a cada um no sentido de agir, praticar, ou não, livremente, um

ato lícito, ou exigir que outrem o pratique ou se abstenha de o praticar” (NUNES, Pedro. Dicionário de Tecnologia Jurídica. 8ª

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legitimados para o exercício, dos instrumentos de exigibilidade e das consequências pelo descumprimento9.

A garantia dos direitos subjetivos de crianças e adolescentes é dever do Estado. E tem o Estado em relação ao exercício da garantia dupla função. Primeiro, prover materialmente determinadas necessidades ou interesses, função que se exerce, em geral, pela política pública. Segundo, através de órgãos especialmente designados, exercer os instrumentos de garantia. Atentar para tais questões no âmbito da proteção do direito à convivência familiar remete desde logo para a ampla pauta de assuntos regulamentados pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, com destaque para a definição do conteúdo material e dos titulares da obrigação, dos instrumentos de exigibilidade e das consequências pelo descumprimento.

2.2. Princípio do respeito à condição peculiar de pessoas em