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Princípio da Igualdade e do Melhor Interesse da Criança e Adolescente

3.2 Princípios Informadores Aplicáveis à Reprodução Humana Assistida

3.2.2 Princípio da Igualdade e do Melhor Interesse da Criança e Adolescente

A Constituição Federal em seu art.5.º, caput, no capítulo que abarca sobre os direitos individuais e garantias fundamentais, assegura que todos são iguais perante a lei, sem discriminação, estando garantidos os direitos à vida, liberdade, igualdade, segurança e propriedade (BRASIL, 1988). A igualdade é tão importante no Estado Democrático Brasileiro que está consagrada como um dos objetivos fundamentais da República Federativa em seu art. 3.º, inciso IV, ao estabelecer que todas as pessoas, independentemente da origem, da raça, do sexo, da cor, ou de quaisquer outras formas de discriminação, têm o direito do bem-estar social (BRASIL, 1988).

A Constituição Federal em seu artigo 227, parágrafo 6.º, estabelece que: ―§ 6.º - Os filhos, havidos ou não da relação do casamento, ou por adoção, terão os mesmos direitos e qualificações, proibidas quaisquer designações discriminatórias relativas à filiação‖ (BRASIL, 1988). Dessa forma, a igualdade é um princípio basilar do nosso sistema constitucional, e, de todo o ordenamento jurídico, em que pela leitura do dispositivo supracitado, é vedado o tratamento desigual e discriminatório dos filhos, havidos ou não da relação do casamento, ou por adoção, proibindo quaisquer designações discriminatórias relativas à filiação, pois, possuem os mesmo direitos e qualificações. Ressalta-se que, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) insere a máxima da igualdade da filiação em seu art. 20, e o vigente Código Civil, de igual forma, prevê a igualdade entre os filhos no art. 1596 (BRASIL, 1990; BRASIL, 2002).

Portanto, o ordenamento jurídico brasileiro afastou quaisquer diferenciações que existiam no CC/16, no que tange a antiga classificação de filhos conjugais e extraconjugais, legítimos e ilegítimos, naturais ou adotados, bem como, por que não dizer de filhos antes e após a morte do genitor, haja vista que estabeleceu a

igualdade absoluta da filiação. Delfim (2009), partindo da premissa desse princípio, aduz que, todos os filhos devem ser tratados de forma igualitária, aplicando-se também para aqueles concebidos por técnicas de reprodução assistida, inclusive, nos casos que se dão por inseminação artificial homóloga post mortem.

Rigo (2009, p.210), fundamentando na Declaração de Direitos Humanos, bem como no Pacto de São José da Costa Rica, defende a aplicação do princípio da igualdade entre os filhos nascidos e os não nascidos, independentemente se a fecundação se deu por vida intra ou extra uterina:

Para muitos autores, o princípio da igualdade estende-se a todos os seres humanos, aos já nascidos, ou aos apenas concebidos [...]Uma interpretação literal do art. 1º da Declaração dos Direitos Humanos pode ensejar dúvida quanto aos seres humanos já concebidos, mas ainda não nascidos. Todavia, em uma leitura integral e mais cuidadosa de toda a Declaração, nota-se que não há distinção entre os seres já nascidos e os não nascidos. Mesma interpretação deve ter o parágrafo 2º do art. 1º do Pacto de São José da Costa Rica, não dando espaço a distinção entre a vida intra e extra- uterina.

De acordo com Fischer (2012), ―o embrião faz jus à proteção absoluta e irrestrita contra qualquer desrespeito à sua identidade e integridade, incidindo sobre ele, e sendo oponível erga omnes, o mandamento constitucional da igualdade‖, assim, o filho concebido por técnica de inseminação artificial post mortem, pelo princípio constitucional da igualdade absoluta da filiação, não deve ser tratado de forma desigual com relação aos outros filhos dos genitores, fazendo jus à proteção absoluta e irrestrita dos seus direitos de identidade, integridade, bem como de todos os direitos individuais e fundamentais, que são oponíveis erga omnes.

A Constituição Federal também emana a sua função protetora, ao consagrar em seu art. 227, caput, que:

Art. 227- É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligências, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão (BRASIL, 1988).

Pelo referido dispositivo, pode-se extrair o Princípio do Melhor Interesse da Criança e do Adolescente, haja vista que, garante com absoluta prioridade, diversos direitos para a Criança e para o Adolescente, sendo dever da família, da sociedade, e do Estado, assegurar com absoluta prioridade tais direitos, como, à vida, saúde,

alimentação, dignidade, respeito, colocando-os a salvo de toda forma de negligência, discriminação e afins. Ressalta-se que tais direitos são fundamentais para todas as pessoas humanas, no entanto, o legislador fez questão de ressaltar a prioridade dos mesmos, pela condição de ser criança e adolescente, atribuindo tal responsabilidade para a família, sociedade, e Estado.

O Estatuto da Criança e do Adolescente consagra em seu artigo 4.º a responsabilidade que todos devem ter no trato dos direitos da criança e do adolescente, estabelecendo que:

Art. 4º- É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.

Parágrafo único- A garantia da prioridade compreende:

a) Primazia de receber proteção e socorro em quaisquer circunstâncias; b) Precedência de atendimento nos serviços públicos ou de relevância púbica;

c) Preferência na formulação e na execução das políticas sociais públicas; d) Destinação privilegiada de recursos públicos nas áreas relacionadas com a proteção à infância e à juventude (BRASIL, 1990).

Dessa forma, o ECA só vem a confirmar a importância do princípio do Melhor Interesse da Criança e do Adolescente, por sua condição de fragilidade e de desenvolvimento da sua personalidade, em que todos, devem garantir tais direitos, e zelar pela proteção da criança e do adolescente em todos os sentidos, desde a destinação privilegiada dos recursos públicos e execução das políticas públicas, até a primazia da proteção e socorro em quaisquer circunstâncias, ou seja, o interesse do menor ganhar um status de direito fundamental, pois, de acordo com Rigo (2009), aparece como vetor-guia de todas as ações relativas à criança, inserindo-se no âmbito dos direitos fundamentais da pessoa humana (Art. 5.º, Constituição Federal), concluindo que alguns direitos são assegurados à criança assim o são a todos, como o direito à vida, à dignidade, à liberdade, mas, outros são pertinentes apenas à criança e ao adolescente, como o direito à profissionalização, à convivência familiar e comunitária.

Pontua Gama (2008, p.80) que:

O princípio do melhor interesse da criança e do adolescente representa importante mudança de eixo nas relações paternomaterno-filiais, em que o filho deixa de ser considerado objeto para ser alçado a sujeito de direito, ou seja, a pessoa humana merecedora de tutela do ordenamento jurídico, mas com absoluta prioridade comparativamente aos demais integrantes da

família de que ele participa. Cuida-se, assim, de reparar um grave equivoco na história da civilização humana em que o menor era relegado a plano inferior, ao não titularizar ou exercer qualquer função na família e na sociedade, ao menos para o direito.

Assim, pelo princípio apontado, o filho não pode mais ser visto como um objeto a plano inferior, mas sim, como um sujeito titular de direitos, e merecedor de uma tutela jurídica com absoluta prioridade. De acordo com Fischer (2012 p 20):

Esse princípio ganha relevância na inseminação artificial post mortem e também quando mulheres solteiras buscam bancos de sêmen. Nesses casos, os interesses divergentes são enormes, pois de um lado está o desejo da mulher de, mesmo sozinha, gerar uma criança e por outro o melhor interesse da criança. Contudo, Pacheco (2010) entende que o fato de o melhor interesse da criança ser imperativo não impede que ela possa ser gerada por uma mãe sozinha, desde que esta forneça todas as condições materiais e psicológicas necessárias para o seu desenvolvimento.

Dessa forma, o Melhor Interesse da Criança e do Adolescente deve ser considerado nas inseminações artificiais post mortem, desde que a mãe solteira forneça todas as condições materiais e psicológicas necessárias para o desenvolvimento da criança, esta que deve ter uma tutela jurídica especifica para assegurar os seus direitos, e que não deve ser prejudicada em seus direitos sucessórios diante da lacuna legislativa.