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Princípio da Igualdade e da Capacidade Contributiva e o Mínimo

CAPÍTULO II – O IMPOSTO SOBRE A RENDA E O IMPOSTO SOBRE A

1.6. Os Princípios Gerais Constitucionais Informadores da Hipótese Tributária do

1.6.2. Princípio da Igualdade e da Capacidade Contributiva e o Mínimo

Da leitura do preâmbulo da Constituição Federal já se observa a expressão igualdade, sendo possível afirmar que se trata de um sobreprincípio, com funções inclusive de informar os outros princípios.

A relevância desse sobreprincípio não passou despercebida por MARY ELBE QUEIROZ94, que ensina que sua magnitude é tamanha que, se subtraído fosse do ordenamento jurídico, outros princípios perderiam sua amplitude, como a legalidade, na medida em que a mesma lei poderia ser aplicada de forma diferente para contribuintes que se encontrassem na mesma situação, bem como a capacidade contributiva, por meio da exigência em medidas diferentes de tributo perante contribuintes que se encontrassem em situações idênticas.

Na doutrina, é RUY BARBOSA95, em sua Orações aos Moços, apoiado nos eruditos pensamentos de Aristóteles, que, com eloquência, detalha o campo de atuação e emprego deste princípio, valendo a transcrição de suas palavras:

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“Em matéria tributária, e como corolário dos três princípios acima descritos, encontramos finalmente o

princípio específico da conformidade da tributação com o fato gerador. Segundo este princípio, os tributos somente podem ser arrecadados depois de ocorrido o fato gerador ao qual a lei vincula a obrigação tributária. O nascimento da obrigação tributária está subordinado ao princípio da legalidade, na forma específica de conformidade com o fato gerador.

Assim, por força do princípio da legalidade tributária, exige-se que a lei formal determine todos os elementos constitutivos da obrigação tributária, ou seja, todos os aspectos do fato gerador. Uma lei que autoriza a cobrança de tributos não pode deixar a critério da administração a diferenciação objetiva. Ela própria tem que realizar esta diferenciação.” (Cf. ROTHMANN, Gerd Willi. O princípio da legalidade tributária. São Paulo: Revista Forense Vol. 248, 1974. P. 41).

94 Cf. QUEIROZ, Mary Elbe. Op. cit. (nota 90), P. 18.

95 Cf. BARBOSA, Rui. Oração aos Moços. Ed. Popular anotada. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui

“A regra da igualdade não consiste senão em quinhoar desigualmente os

desiguais, na medida em que se desigualam. Nesta desigualdade social, proporcionada à desigualdade natural, é que se acha a verdadeira lei da igualdade. O mais são desvarios da inveja, do orgulho ou da loucura. Tratar com desigualdade a iguais, ou a a desiguais com igualdade, seria desigualdade flagrante, e não igualdade real.”

Há que se alertar, contudo, que definir o que é igual ou desigual (diferente) é tarefa que só se faz por meio de critérios de classificação, sendo certo que a escolha e a definição desses critérios de discrímen competem exclusivamente ao homem. Daí se dizer que um mesmo objeto pode ser igual ou desigual em relação a outro conforme seja o critério de classificação adotado.

LUÍS CESAR SOUZA DE QUEIROZ cita alguns exemplos de critérios que não podem ser

utilizados para fins classificatórios: origem, raça, cor, religião, convicção filosófica ou política, estado civil, espécie de trabalho e de vínculo trabalhista. E como exemplos que podem ser adotados como critérios de discrímen: a quantidade de patrimônio e o porte de uma empresa. Há, todavia, critérios camaleões, como é o caso da idade ou faixa etária dos indivíduos e a espécie de nacionalidade, que poderão, em algumas situações, ser utilizados como critérios classificatórios e, em outras, não96.

Conforme se verá, especificamente com relação ao IRF, o legislador infraconstitucional trata de forma diferente a renda produzida pelo trabalho e a renda com origem no capital. Resta saber se o critério de discrímen eleito encontra suporte constitucional.

Para os fins da atividade tributária, o que se deve ter em conta é que o princípio constitucional da igualdade, como elemento limitador do conteúdo inserido na hipótese tributária, deve ser entendido de tal forma que seja conferido tratamento igual aos iguais e desigual aos desiguais, desde que os critérios eleitos para determinação dessas igualdades ou desigualdades encontrem amparo na Constituição, notadamente em seus princípios.

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O princípio da igualdade é analisado, também, sob a ótica de vetor de realização do princípio da capacidade contributiva, e este, por sua vez, é vetor de realização do princípio do mínimo existencial e da proibição constitucional de matéria tributária com efeito de confisco. Na verdade, não há uma sequência lógica a ser seguida; como já se disse, por vezes, diante do caso concreto, esses princípios se entrecruzam e se confundem.

PASQUALE RUSSO97 ensina que, para definir capacidade contributiva em termos

propriamente jurídicos, não se pode limitar a referir-se apenas à capacidade econômica, mas somente àquela capacidade suscetível de fornecer ao sujeito gravado (contribuinte e responsável) os meios financeiros necessários para absorção da prestação pecuniária com o pagamento de tributos. Mais especificamente quanto à ideia do mínimo existencial, assim revela o autor:

“B) Os recursos econômicos que não revelam capacidade para contribuir, e

por isso não são destináveis à realização da prestação pecuniária porque indispensáveis ao atendimento a necessidades fundamentais do sujeito passivo, não podem ser submetidos à tributação. É o caso do assim chamado mínimo vital, com cuja expressão se costuma designar aquela faixa de riqueza que não pode ser atingida pela arrecadação sem comprometer a própria sobrevivência do contribuinte e, portanto, sem arranhar a tutela dos direitos invioláveis da pessoa proclamada pelo art. 2º, parágrafo 1º da Constituição.”

O autor completa esclarecendo que aquela “faixa de segurança” pode ser preservada tanto com a indicação de alíquotas mínimas, como também com a concessão de deduções adequadas da base tributável.

Neste sentido, e consoante disposto no artigo 145, da Constituição Federal, o Estado deve buscar, sempre que possível, aferir a real capacidade contributivo-econômica dos contribuintes.

97 Cf. RUSSO, Pasquale. Os Princípios Fundamentais (Título Original: I Principi Fondamentali – Capítulo

do livro “Manuale di Duitto Tributario: parte generale”, Milano: Giuffrè, 2002, p. 39-73). Tradução de Dalton Dallazem. in Princípios e Limites da Tributação. Coord. Roberto Catalano Botelho Ferraz. São Paulo: Quartir Latin, 2005. P. 396/399.

A expressão “sempre que possível”, presente na redação do texto constitucional, parece trazer a própria tônica ínsita aos princípios constitucionais, no sentido de um ideal a ser alcançado, como uma obrigação a ser perseguida arduamente, flexibilizada, porém, por outras questões com maior prioridade para uma situação em específico. Essas outras razões necessariamente deverão revestir-se de natureza e origem constitucional, de forma a justificar sua prioridade em relação a outro princípio constitucional.

Sob outra ótica, aquela expressão deverá ser entendida como uma garantia constitucional do contribuinte, de forma a considerar sua obrigação de pagar imposto em comparação à sua condição sócio-econômica. É neste cenário que a capacidade contributiva exerce papel protagonista. Na medida em que pressupõe a capacidade econômica98, considerando, neste universo, o mínimo existencial, estaria realizado o ideal de justiça fiscal. É dizer que a capacidade contributiva não deve se ater à regra matemática para cobrança de tributos, mas, sim, considerar outros fatores de ordem não tributária.

KLAUS TIPKE ensina que ao Estado Social de Direito deve corresponder o princípio da

capacidade contributiva. Postula que o tributo somente pode ser exigido daquele que pode pagá-lo, e somente na exata proporção dessa possibilidade, é dizer que somente pode ser tributado o que for além do mínimo existencial99.

É imperativo que a capacidade contributiva seja analisada como efetiva capacidade econômica, no sentido de que se deve contribuir para as despesas públicas, através do pagamento de tributos, de acordo com o rendimento ou riqueza ajustados para o pagamento de tributos. Se o Estado não provê aquele mínimo existencial, correspondente às necessidades fundamentais do homem (saúde, segurança, educação, moradia, condições de emprego, dentre outros), transferindo esse ônus aos particulares, sob grave prejuízo à

98 “A capacidade contributiva é o princípio segundo o qual cada cidadão deve contribuir para as despesas

públicas na exata proporção de sua capacidade econômica. Isto significa que os custos públicos devem ser rateados proporcionalmente entre os cidadãos, na medida em que estes tenham usufruído da riqueza garantida pelo Estado. Também aceita como capacidade contributiva a divisão equitativa das despesas na medida da capacidade individual de suportar o encargo fiscal. Este conceito se traduz na necessidade de separar, com justiça, a porção necessária à sobrevivência do cidadão daquela sujeita a ser utilizada no custeio dos custos públicos. Essa separação seria feita sob um critério de distinguir a capacidade econômica da capacidade contributiva.” (Cf. ZILVETI, Fernando Aurélio. Capacidade Contributiva e Mínimo Existencial. in Direito Tributário – Estudos em Homenagem a Brandão Machado. Coordenação: Prof.

Luis Eduardo Schoueri e Prof. Fernando Aurélio Zilveti. São Paulo: Dialética, 1998. P. 36/37).

99 Cf. TIPKE, Klaus, e YAMASHITA, Douglas. Justiça Fiscal e Princípio da Capacidade Contributiva. São

maior parcela da população carente, muitas vezes inviabilizando o acesso a tais recursos, a capacidade econômica para pagamento de tributos deveria corresponder àquela riqueza ou renda líquida, ou seja, à renda deduzida das despesas que o contribuinte tem que arcar com a provisão e subsistência próprias e de sua família, diante da inércia e da omissão do Estado100.