2 A PROTEÇÃO AOS DIREITOS HUMANOS: UMA CONQUISTA DOS
2.3 Princípios constitucionais
2.3.2 Princípio da igualdade
Com o mesmo grau equitativo de importância que o princípio da dignidade da pessoa humana, tem-se o princípio da igualdade que se liga aos direitos humanos “e apresenta-se não apenas como afirmação de uma igualdade perante a lei”
(QUEIROZ, 2014, p. 39), mas sim no reconhecimento das diversidades existentes entre os homens, através da sua identificação igualitária perante as normas.
Em seus ensinamentos Aristóteles (2009) já advertia quanto ao pensamento de que através da igualdade se garantia a justiça, também o é, “[...] mas não para todos, e sim somente entre os iguais. A desigualdade também parece ser, e o é com efeito, mas não para todos; só o é entre aqueles que não são iguais” (p. 94). O que ocorre é uma discriminação positiva, visando reestabelecer um cenário de igualdade concreta através do reconhecimento de circunstâncias distintas (MIRANDA, 2014).
Essencial para a concretização de uma democracia (SILVA, 2014), a igualdade é transposta para o meio jurídico com o intuito de a lei ser igual para todos de forma a proteger e punir na medida necessária, e não no sentido de todos serem iguais perante o ordenamento pátrio. Sua normatização é conferida primeiramente na Constituição da Virgínia de 1776 (MACHADO, 2011) e, posteriormente, na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789, da qual se destaca o art.
6º que rege a igualdade dos cidadãos frente a lei, sendo essa, considerada expressa vontade social de um povo, conforme se destaca:
Art. 6. La Loi est l'expression de la volonté générale. Tous les Citoyens ont droit de concourir personnellement, ou par leurs Représentants, à sa formation. Elle doit être la même pour tous, soit qu'elle protège, soit qu'elle punisse. Tous les Citoyens étant égaux à ses yeux sont également admissibles à toutes dignités, places et emplois publics, selon leur capacité, et sans autre distinction que celle de leurs vertus et de leurs talents (DÉCLARATION DES DROITS DE L'HOMME ET DU CITOYEN, 1789).32
O reconhecimento da igualdade pressupõe a admissibilidade da dignidade e, nesse contexto, assim como o princípio da dignidade da pessoa humana, o princípio da igualdade é visto como fonte estrutural do ordenamento jurídico estando consagrado, tanto na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 como, na Constituição da República Portuguesa de 1976, além de ser “[...] um dos princípios fundamentais de construção da própria sociedade e de convivência democrática na relação entre o Estado e os seus cidadãos e dos cidadãos entre si”
(QUEIROZ, 2014, p. 39).
32 Art. 6º. A lei é a expressão da vontade geral. Todos os cidadãos têm o direito de concorrer, pessoalmente ou através de mandatários, para a sua formação. Ela deve ser a mesma para todos, seja para proteger, seja para punir. Todos os cidadãos são iguais a seus olhos e igualmente admissíveis a todas as dignidades, lugares e empregos públicos, segundo a sua capacidade e sem outra distinção que não seja a das suas virtudes e dos seus talentos.
Nas palavras de Leite (2011), a igualdade é um dos princípios mais essenciais aos direitos humanos, mas também, o mais difícil de empregar. De acordo com o autor,
a concepção jurídica de igualdade surgiu na Revolução Francesa, com a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789, que preconizava um ideal de abolição dos privilégios pessoais e consequente igualdade de fato entre todos os homens. A partir desse documento, a noção de igualdade foi passando por um processo de evolução conceitual e tomando suas formas atuais. Encontra-se presente nas Constituições democráticas como uma vedação à desproporcionalidade e à injustiça, objetivando subtrair os privilégios injustificados. Esse princípio consagra a ideia de que ninguém pode ter direitos sobrepujados ou ser prejudicado em razão de sexo, raça, ideologia política, religião, entre outros (LEITE, 2011, p. 49).
No ordenamento jurídico brasileiro, a igualdade é expressamente retratada no texto constitucional através do preâmbulo33 e do art. 5º,34 caput, da CF/1988, estabelecendo-se a instituição de um Estado Democrático garantidor da igualdade a todos perante a lei. O art. 7º, inciso XXXIV, da CF/1988,35 ainda preconiza que é assegurado ao trabalhador com vínculo empregatício permanente e ao trabalhador avulso, igualdade de direitos.
A Constituição da República Portuguesa, aprovada e decretada em 2 de abril de 1976, por sua vez, garante o princípio da igualdade através do art. 13,36 o qual dispõe que todos têm as mesmas igualdades sociais, sendo iguais perante a lei, não podendo assim, qualquer pessoa ter privilégios ou benefícios por sua cor, condição social ou etnia.
O pressuposto do princípio da igualdade de que todos são iguais perante a lei, requer que o direito imposto na legislação seja aplicado e garantido a sociedade de forma igual, e mais, de que a própria lei seja criada de maneira que o direito
33 Preâmbulo - Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembleia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL:.
34 Art. 5º - Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes.
35 Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social: XXXIV - igualdade de direitos entre o trabalhador com vínculo empregatício permanente e o trabalhador avulso.
36 Art. 13 Princípio da igualdade. 1. Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei. 2. Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação econômica, condição social ou orientação sexual.
possa ser concretizado de maneira igualitária (CANOTILHO, 2014), ou seja, “o princípio da igualdade dirige-se ao próprio legislador, vinculando-o à criação de um direito igual para todos os cidadãos” (CANOTILHO, 2014, p. 426).
Nesse sentido, Mello (2000, p. 9) destaca que a “[...] igualdade, é norma voltada para o aplicador da lei quer para o próprio legislador. Deveras, não só perante a norma posta si nivelam os indivíduos, mas, a própria edição dela assujeita-se ao dever de dispensar tratamento equânime as pessoas”.
A dicotomia de igualdade na aplicação da lei e na criação da lei, faz com que a doutrina aponte para uma dupla concepção de igualdade: formal e material. A primeira é genérica e impõe a todos a garantia dos preceitos legais. A igualdade material, por sua vez, visa que a norma concretizada garanta que todos tenham o mesmo direito, de forma justa e equânime, a lei não poderá fazer distinção entre os homens, fato esse, que a torna de difícil aplicação no mundo real onde os indivíduos não são iguais (LEITE, 2011).
Nos ditos de Bulos (2010, p. 301) “a igualdade formal, presente entre nós desde o Império, é detectada pelo uso da expressão: “perante a lei”, [...] e a igualdade material, portanto, é a concretização da própria isonomia formal, que sai do papel para se realizar na prática”. A constituição brasileira só tem admitido a igualdade formal, ou seja, perante a lei (SILVA, 2014).
Ocorre que, o reconhecimento da igualdade formal não basta para resolver e estancar o problema disposto as realidades sociais. A igualdade formal é imprescindível, mas não suficiente se vista de forma isolada (CANOTILHO, 2014), pois não temos como através do disposto legal, identificar quem seriam os iguais e quem seriam os desiguais (MELLO, 2000).
Conforme Canotilho (2014, p. 428),
[...] exige-se uma igualdade material através da lei, devendo tratar-se por
«igual o que é igual e desigualmente o que é desigual». Diferentemente da estrutura lógica formal de identidade, a igualdade pressupõe diferenciações.
A igualdade designa uma relação entre diversas pessoas e coisas.
Reconduz-se, assim, a uma igualdade relacional.
A igualdade observada do ponto de vista relacional, vai além de uma simples discussão de isonomia formal e material, ela adentra no campo da igualdade justa, social, uma vez que, esse é um princípio de Estado de Direito e de Estado Social (CANOTILHO, 2014), razão pela qual deva-se buscar a correção da realidade,
protegendo os hipossuficientes, como a classe trabalhadora, frente ao contrato de trabalho, e recobrar o equilíbrio social (MACHADO, 2011).
Da mesma forma, entende-se pela concepção de Rawls (2008), que cada cidadão deve ter ampla e igual liberdades básicas na mesma proporção que os outros, enquanto “todos os valores sociais – liberdade e oportunidade, renda e riqueza, e as bases sociais do auto-respeito – devem ser distribuídos de forma igual, a não ser que uma distribuição desigual de um ou de todos esses valores seja vantajosa para todos” (p. 75).
Abarca-se em uma igualdade social a busca do campo da valoração ou o equilíbrio de oportunidades para se concretizar de forma adequada ao meio social, analisando as reais condições de vida da sociedade (CANOTILHO, 2014), “visando não só ao estabelecimento de iguais oportunidades para todos, como também à atuação de medidas que efetivamente corrijam as desigualdades existentes, disciplinando a ordem social pelo reconhecimento de inúmeros direitos” (MACHADO, 2011, p. 29).
Faz-se necessário que “[...] condições sejam criadas ou recriadas através da transformação da vida e das estruturas dentro das quais as pessoas se movem”
(MIRANDA, 2014, p. 268), de modo que, o ser humano reconheça “[...] pressupostos de fato para adquirir bens materiais e imateriais que concretamente possibilitem o gozo da liberdade, pois [...] ela tem a ver com a criação de condições que possibilitem à pessoa se fazer responsável por sua própria existência” (LEDUR, 2009, p. 112).
A liberdade aqui configurada diz respeito àquelas referentes “[...] as oportunidades reais que as pessoas têm, dadas as suas circunstâncias pessoais e sociais” (SEN, 2000, p. 31), sendo que, a privação da liberdade pode ocorrer através de processos ou oportunidades mal estruturadas, incapazes de efetuar o mínimo necessário (SEN, 2000).
Dessa forma, o princípio da igualdade se coloca com vistas em uma liberdade que proporcione o desenvolvimento das pessoas através dos frutos do seu trabalho, alcançando assim, um desenvolvimento individual e social. Uma igualdade que respeite as normas vigentes e garanta essas da forma a não discriminar e tão pouco afrontar a dignidade da pessoa do trabalhador, uma vez que, o labor deve ser valorado como uma das condições para que a pessoa humana se realize.
Requerendo uma maior valoração do ser trabalhador e assim do próprio trabalho,
como se verá através do princípio da valoração do trabalho que se abordará a seguir.