2. PRINCÍPIOS DA SEGURIDADE SOCIAL
2.3. Princípios gerais
2.3.1. Princípio da igualdade
O princípio da igualdade é conceituado pela doutrina204 sob três formas: o conceito nominalista, o conceito idealista e o conceito realista.
Segundo os nominalistas, a desigualdade é dominante no universo, tanto no que se refere aos aspectos naturais (como as diferenças entre brancos e negros) quanto aos aspectos sociais (como, por exemplo, ricos e pobres, governantes e governados). Esse entendimento tem como consequência prática a aceitação de
201
Art. 195. [...]
§ 5º - Nenhum benefício ou serviço da seguridade social poderá ser criado, majorado ou estendido sem a correspondente fonte de custeio total.
202
IBRAHIM, Curso de direito previdenciário, p. 66. 203
NADER, Paulo. Introdução ao estudo do direito. Rio de Janeiro: Forense, 2008, p. 200-201. 204
privilégios, bem como de superioridades biológicas ou sociais.205 Diante disso, a igualdade não passaria de um simples termo (daí o motivo pelo qual tal corrente é denominada nominalista), uma vez que inexistente na realidade.206
Já, para os idealistas, a igualdade deveria ser absoluta entre os homens. Em outras palavras, a sociedade deveria tornar-se uma massa tão indiferenciada quanto possível. Os idealistas dividiram as desigualdades em duas: as estabelecidas pela natureza e as de ordem social, sendo que aquelas poderiam ser aumentadas em razão dessas, sociais, que teriam origem das diversas condições de vida dos indivíduos.207
Por último, a igualdade sob o conceito dos realistas seria a essência da unidade da espécie humana num mundo de diversidades naturais e sociais entre os homens. Aqui, a igualdade não possui conceito absoluto, mas sim proporcional, porque varia de acordo com as exigências principais do ser humano, bem como com as diversidades entre estes.208 Assim, o tratamento igual a pessoas que ocupam situações diversas constituiria autêntica iniquidade.209
Essa concepção realista do conceito de igualdade se assemelha muito ao contexto trabalhado pelos estudiosos do Direito210 acerca do princípio da igualdade disposto na Constituição Federal de 1988.
Previsto no artigo 5º, caput211, da Lei Maior, o princípio da igualdade estabelece que, sem distinção de qualquer natureza, todos são iguais perante a lei.
Essa igualdade estampada no referido artigo é criação do espírito humano, uma vez que na natureza nada é igual, muito menos os homens.212 No entanto, perante a lei, todos são considerados iguais e têm direito a receber o mesmo tratamento, se iguais. Porém, se desiguais, devem ser tratados de forma diferenciada na medida de sua desigualdade.213
205
MORAES, Alexandre de. Direito constitucional. 15. ed. São Paulo: Atlas, 2004, p. 37.
206 SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. 33. ed. – São Paulo: Malheiros, 2010, p. 212.
207
MORAES, op. cit., p. 38-39. 208
Ibidem, p. 43-45. 209
Ibidem, p. 45. 210
Anacleto de Oliveira Faria, Fábio Zambitte Ibrahim, José Afonso da Silva, José Joaquim Gomes Canotilho, Manoel Gonçalves Ferreira Filho e Wladimir Novaes Martinez
211
Vide nota de rodapé n. 156. 212
MARTINEZ, Princípios de direito previdenciário, p. 247. 213
Trata-se, portanto, da chamada isonomia material ou geométrica, na qual o tratamento entre os iguais é o mesmo, mas entre os diferentes é desigual para se alcançar a igualdade. Por isso, existem, por exemplo, alíquotas diferenciadas de contribuição para diferentes espécies de segurados e faixas distintas de remuneração.214
A diferenciação de tratamento na busca da igualdade também está presente nos casos de proteção especial à mulher, de amparo à maternidade e aos idosos, que são tratados com diferença pela legislação, com o fim maior de se alcançar o princípio superior da igualdade.215
Nesse sentido, cumpre ressaltar que o princípio da igualdade não proíbe de modo absoluto as diferenciações de tratamento. Essas são permitidas, desde que não sejam arbitrárias ou destituídas de fundamento racionalmente justificável.216
Assim, o arbítrio da desigualdade é condição necessária e suficiente da violação do princípio da igualdade, uma vez que as diferenciações de tratamento não possuirão fundamento sério, razoável e de sentido legítimo.217
Ademais, o tratamento igual não é dirigido às pessoas integralmente iguais entre si, mas às pessoas que possuem igualdade sob determinado aspecto tomado em consideração pela norma. Assim, se for utilizado como parâmetro outras características, nesses mesmos indivíduos serão encontradas certas desigualdades. Por isso, pode-se dizer que as pessoas são iguais ou desiguais de modo relativo.218
O princípio da igualdade é uma limitação ao legislador e ao intérprete, uma vez que impede que aquele crie tratamentos demasiadamente diferenciados entre indivíduos que se encontrem na mesma situação e, ao mesmo tempo, obriga o intérprete a aplicar a lei de maneira igualitária, sem diferenciações ou privilégios.219
Portanto, o princípio da igualdade, assim como o da solidariedade, é um dos mais importantes princípios norteadores da Seguridade Social, pois é com base nele que serão criados e distribuídos os encargos de contribuição no sistema, ou seja, os
214
IBRAHIM, Curso de direito previdenciário, p. 52. 215
MARTINEZ, Princípios de direito previdenciário, p. 249. 216
FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves. Curso de direito constitucional. 35. ed. São Paulo : Saraiva, 2009, p. 283.
217
CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito constitucional e teoria da constituição. 7. ed., 8 reimp. Portugal: Almedina, p. 428.
218
SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. 33. ed. São Paulo: Malheiros, 2010, p. 216.
219
FARIA, Anacleto de Oliveira. Do princípio da igualdade jurídica. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1973, p. 67.
indivíduos e as pessoas jurídicas que se encontram nas mesmas condições deverão contribuir da mesma forma.
No mesmo contexto, o princípio da igualdade também é observado quando da criação dos benefícios e serviços a serem concedidos, que serão delimitados de acordo com as características e necessidades de cada grupo social.