Esquema 1 Comparando Análise Econômica do Direito, Economia e
2.4 UMA TEORIA DA JUSTIÇA E OS PRINCÍPIOS LEGAIS DA MEDIAÇÃO
2.4.5 Princípio da Independência e autonomia da vontade
Buscando o conceito de independência no dicionário, encontra-se referência a uma ação que visa romper com uma condição negativa, geralmente de subalternidade e inferioridade. A libertação faz parte de um movimento que pode ser sócio-histórico ou individual, visando alcançar independência, capacidade de se autogovernar.96
No primeiro contato com o princípio da independência, o sentimento é que está atrelada à atividade em si, e não ao mediador e às partes. Pode-se, então, dizer que a mediação deve ser regida num ambiente que privilegia a autonomia dos participantes, livre de pressões e sem que haja favorecimento de qualquer das partes. Essa nova metodologia fica bem clara no NCPC quando inclui a conciliação e a mediação como métodos autocompositivos, cuja solução deve ser buscada pelas partes.
Segundo o Código de Ética dos mediadores e conciliadores, anexo III da Resolução 125/2010 do CNJ, independência:
é o dever de atuar com liberdade, sem sofrer qualquer pressão interna ou externa, sendo permitido recusar, suspender ou interromper a sessão se ausentes as condições necessárias para o seu bom desenvolvimento, tampouco havendo o dever de redigir acordo ilegal ou inexequível.97
95
SOUZA, Luciane Moessa de. Meios consensuais de solução de conflitos envolvendo entes públicos. Belo Horizonte: Forum, 2012. p.88.
96 INDEPENDÊNCIA. In: DICIONÁRIO Houaiss. 2.ed. São Paulo: Objetiva, 2004. p.411. 97
CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Código de ética de conciliadores e mediadores judiciais. Anexo 3 – Resolução 125/2010. Disponível em: <http://www.tjrj.jus.br/documents/10136/1077812/cod-etica- mediador-conciliador.pdf>. Acesso em: 19 dez.2016.
O mediador é considerado auxiliar de justiça e, segundo o art. 8º da Lei 13.140/201598, são equiparados a servidores públicos para efeitos da legislação penal, não podendo sofrer pressões externas, sejam das partes, do juiz, do advogado ou de qualquer outro sujeito ou interessado do processo. O mediador é uma figura diversa do juiz e, segundo Spengler99, “deve reconciliar os interesses conflitivos, conduzindo para que as partes concluam com o seu impulso a melhor solução, sem impor qualquer decisão.”
A independência não está relacionada com o mérito do acordo, que deve ser formado pelas partes, mas sim com o andamento da mediação, do início até a sua finalização, na orientação às partes, para que não ocorra um desequilíbrio entre elas, bem como seja respeitada a ordem pública.100 Pode-se dizer que a independência consiste na necessidade de a conduta do mediador estar livre de qualquer tipo de influência ou pressão, seja das partes, de terceiros, do sistema ou da própria situação envolvida na mediação. O mediador deve agir com a consciência de estar realizando as melhores escolhas para a condução da mediação, observando sempre os interesses e as necessidades das partes, mas sem submeter sua atuação a nenhuma delas.101
Segundo o Dicionário Jurídico, o termo “vontade” expressa:
1. Faculdade que tem o ser humano de querer, escolher, livremente praticar ou deixar de praticar certos atos; 2. Força interior que impulsiona o indivíduo a realizar aquilo a que se propôs, atingir seus fins ou desejos – ânimo, determinação e firmeza; 3. Grande disposição em realizar algo por outrem – empenho, interesse, zelo; 4. Capacidade de escolher, decidir entre alternativas possíveis – volição; 5. Sentimento de desejo ou aspiração motivada por um apelo físico, fisiológico, psicológico ou moral – querer; 6. Deliberação, determinação, decisão que alguém expressa no intuito de que seja cumprida ou respeitada.102
Já a autonomia de vontade é um estado que não precisa estar relacionado ao movimento de ruptura com uma ordem anterior de dominação. A autonomia exige consciência, capacidade de escolha, liberdade de pensamento e de ação, enfim, uma atitude
98
BRASIL. Lei n.13.140, de 26 de junho de 2015. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/Lei/L13140.htm>. Acesso em: 19 dez.2016.
99 SPENGLER, Fabiana Marion. Da jurisdição à mediação: por uma outra cultura no tratamento dos conflitos.
Ijuí: Ed.Unijuí, 2010. p.321.
100
SPENGLER, Fabiana Marion. Retalhos de mediação. Santa Cruz do Sul: Essere nel Mondo, 2014. p.55.
101 SANTANNA, Ana Carolina Sqaudri; VERAS, Cristiana Vianna; MARQUES, Giselle Picorelli Yacoub.
Independência e imparcialidade: princípios fundamentais da medfiação. In: ALMEIDA, Diogo Assumpção Rezende de; PANTOJA, Fernanda Medina; PELAJO, Samantha (Coord.). A mediação no Novo Código de
Processo Civil. 2.ed. Rio de Janeiro: Forense. 2016. p.132.
em relação a si e ao mundo, que não é de oposição a uma situação negativa, mas de afirmação de si na relação com o mundo e com os outros.
Autonomia da vontade significa que as partes são livres para escolher o mediador, para estabelecer o número de sessões que vão realizar, para poder desistir a qualquer tempo e para tomar as próprias decisões. (Art. 2º da Lei de Mediação, parágrafo 4º do art. 5º e art. 166 do CPC). O Código do CONIMA dispõe, em seu subitem IV, 9, caber ao mediador “eximir-se de forçar a aceitação de um acordo e/ou tomar decisões pelas partes.”103
Também conhecido como “autoridade dos mediados” ou princípio da autodeterminação, consagra o poder concedido às partes de definir todos os pontos a serem tratados no procedimento, buscando afastar qualquer tentativa arbitrária de o mediador forçar o desenvolvimento do processo e a tomada de decisão das partes em qualquer nível. Inclui desde a escolha ou aceitação do mediador até o caminho seguido em busca de uma possível solução para o conflito.104
Lerer conceitua como:
[…] este princípio reconhece que as partes têm a faculdade, o direito e o poder de definir as questões, necessidades e soluções e de determinar o resultado do processo de mediação. É de incumbência exclusiva das partes decidir mutuamente os termos de qualquer acordo que se alcance.105
Tartuce traz uma brilhante reflexão ligando a autonomia da vontade à dignidade da pessoa humana e à liberdade, pois entende que permite que o indivíduo decida os rumos da controvérsia e protagonize uma saída consensual para o conflito, incluindo o sujeito como importante ator na abordagem da crise, valorizando a sua percepção e considerando o senso de justiça.106
É importante referir que esse princípio traz também o compromisso com a responsabilidade das pessoas pela gestão de seu conflito, ou seja, a autodeterminação leva os mediados ao desenvolvimento de competências e de responsabilidades fundamentais à autocomposição de seus conflitos.107
103
CONSELHO NACIONAL DAS INSTITUIÇÕES DE MEDIAÇÃO E ARBITRAGEM (CONIMA). Código
de Ética para Mediadores. São Paulo, [200_]. Disponível em:
<http://www.conima.org.br/codigo_etica_med>. Acesso em: 19 dez.2016.
104 MIRANDA NETTO, Fernando Gama de; SOARES, Irineu Carvalho de Oliveira. Princípios procedimentais
da mediação no novo código de processo civil. In: ALMEIDA, Diogo Assumpção Rezende de; PANTOJA, Fernanda Medina; PELAJO, Samantha (Coord.). A mediação no Novo Código de Processo Civil. 2.ed. 2016. Rio de Janeiro: Forense, p.116.
105
LERER, Sílvio. Vamos mediar: guia práctica de procedimentos, técnicas, herramientas y habilidades para el manejo de conflitos. Bueno Aires: Abeledo Perrot, 2011. p.135.
106 TARTUCE, Fernanda. Mediação nos conflitos civil. 3.ed. São Paulo: Método, 2016. p.191.
107 MIRANDA NETTO, Fernando Gama de; SOARES, Irineu Carvalho de Oliveira. Princípios procedimentais
da mediação no novo código de processo civil. In: ALMEIDA, Diogo Assumpção Rezende de; PANTOJA, Fernanda Medina; PELAJO, Samantha (Coord.). A mediação no Novo Código de Processo Civil. 2.ed. Rio de Janeiro: Forense, 2016. p.117.
Moraes, com muita propriedade, traz a adequação do princípio da dignidade da pessoa humana, pressuposto mínimo para o exercício da vida e o respeito pelas condições mínimas de liberdades e convivência social.
[…] problema maior do Direito tem sido, justamente, o de estabelecer um compromisso aceitável entre os valores fundamentais comuns, capazes de fornecer os enquadramentos éticos e morais nos quais as leis se inspiram, e espaço de liberdade, os mais amplos possíveis, de modo a permitir a cada um a escolha de seus atos e a condução de sua vida em particular, de sua trajetória individual, de seu projeto de vida.108
O princípio da liberdade individual nada mais é do que a possibilidade de realizar, sem interferência de qualquer natureza, as próprias escolhas; assim, cada um poderá concretizar seu projeto de vida como melhor lhe convier em uma perspectiva de privacidade, intimidade e livre exercício da vida privada. Cabe ao mediador gerar oportunidades para que as pessoas esclareçam pontos relevantes e se abram à comunicação necessária para que possam se beneficiar do procedimento da mediação.
Por fim, cabe ressaltar que, na Lei 13.140/2015, não aparece o princípio da independência, somente o da autonomia de vontade, diferenças que serão abordadas no capítulo específico dos conflitos ambientais locais perante a administração pública.