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2 SINDICALISMO E SUA INSERÇÃO NO ORDENAMENTO

2.2 Princípios do direito coletivo do trabalho

2.2.1 Princípio da liberdade e autonomia sindical

A Liberdade é um dos bens mais preciosos da essência humana, sempre reduzida por quem detém o Poder e os meios de produção. Nem mesmo a sociedade burguesa, com ideal libertário estampado em sua bandeira, conseguiu ruir com o antagonismo entre as classes, sempre presente no tempo.

A liberdade materializa a possibilidade de fazer ou não fazer o que se quer: pensar, ir e vir, agir. No plano dos Direitos Fundamentais, a liberdade expressa os direitos individuais perante o Estado e os demais integrantes da sociedade que devem ser garantidos pela lei:

No Direito Constitucional, as liberdades públicas ou simplesmente liberdades, expressam os direitos liberais que são aqueles direitos fundamentais (também chamados direitos humanos ou direitos individuais) a garantir o indivíduo da imiscuição na sua personalidade pelo Estado ou pelos demais integrantes da sociedade; através das liberdades, pretende- se reservar à pessoa uma área de atuação imune à intervenção do Poder14 O sindicalismo, no curso de sua história, proveniente de diversas lutas sociais, políticas e jurídicas, institucionalizou a liberdade sindical, enquanto princípio, em alguns dispositivos elencados no art. 8º, I, CF, “a lei não poderá exigir autorização do Estado para a fundação de sindicato ressalvado o registro no órgão competente, vedadas ao Poder Público a interferência e a intervenção na organização sindical”, art. 8º, V, “ressalvado o registro no órgão competente, vedadas ao Poder Público a interferência e a intervenção na organização sindical”. Ou seja, não será exigida, por parte do Estado, a necessidade de autorização para criar um sindicato, mas tão somente o registro, numa espécie de órgão notarial estatal.

A liberdade sindical, conferida pela Convenção 87 da OIT, não ratificada pelo Brasil, irradia no sentido de permitir a constituição de trabalhadores e empregadores em organizações, sem necessidade de autorização, bem como o direito de escolher a entidade a que se quer filiar:

Art. 2 — Os trabalhadores e os empregadores, sem distinção de qualquer espécie, terão direito de constituir, sem autorização prévia, organizações de sua escolha, bem como o direito de se filiar a essas organizações, sob a única condição de se conformar com os estatutos das mesmas.

Diferentemente do princípio da autonomia sindical, a liberdade sindical prestigia a liberdade individual demarcada na Constituição, sendo materializado, além do direito de criar sindicatos, o direito do integrante de uma categoria, seja laboral, patronal ou de profissionais liberais, de querer ou não filiar-se e manter-se ou não filiado a uma entidade associativa, regra garantida no art. 20 da Declaração Universal dos Direitos Humanos e do Cidadão, que descreve: “toda a pessoa tem direito à liberdade de reunião e de associação pacíficas; ninguém pode ser obrigado a fazer parte de uma associação”. Em suma, dá-se o posicionamento de respeito por parte do Estado em relação ao sindicalismo.

Fazer parte de uma associação sindical não se limita a figurar com a mera formalidade de associado. Para não ser uma participação relativa ou mitigada,

14 SILVA, De Plácido e. Vocabulário jurídico. Atualizadores: Nagib Slaibi Filho e Priscila Pereira

ao indivíduo deve ser garantida a faculdade de participar das atividades sindicais, bem como de não participar, não podendo ser inviabilizada a permanência, limitações de saídas (quando não mais quiser fazer parte), nem sindicalizações obrigatórias.

Quanto à livre sindicalização, Ruprecht coloca que:

Há uma corrente que defende a sindicalização obrigatória de todos os trabalhadores, por ser a única forma de exercer uma defesa séria dos seus direitos. (...) Afirma ainda que a sindicalização obrigatória possa ser por meio do Estado ou pelos trabalhadores. Pelo Estado pode ser feita através de lei ou através da criação de sindicato mais representativo. Pelos trabalhadores, a filiação obrigatória ocorre pela incursão de cláusulas sindicais que adotam modalidades de ingresso ou desligamento.15

Há desrespeito à liberdade sindical quando algumas entidades, em razão de disputas eleitorais, dificultam filiações de membros da sua própria categoria, bem como obrigam a filiação na admissão contratual em combinação com as empresas sem que ao trabalhador tenha dado o direito de aderir ou não; quando são impostos obstáculos para desfiliação, como o pagamento de alguns taxas; quando é negada aos associados a participação no processo eleitoral etc.

Por outro lado, a autonomia sindical pode ser considerada um desdobramento, ou seja, uma consequência direta da liberdade sindical. A autonomia existe pela garantia da liberdade de agir, organizar, gerir, escolher pautas de reivindicação, regulamentos internos, programas de ação. No contexto, envolve a liberdade de organização, liberdade de associação e a liberdade de administração, consubstanciando a autonomia do ente sindical.

Destaca-se que o sindicato pode organizar-se por profissão, por atividade econômica, pode ser nacional, estadual ou municipal. Amauri Mascaro do Nascimento trata da liberdade de organização em diversos aspectos:

A liberdade de organização compreende uma séria extensa de aspectos: as relações externas do sindicato, o direito conferido pela ordem jurídica, de filiação a associação internacionais; a escolha dos diretores do sindicato mediante eleições democráticas; a aprovação de estatutos da entidade sindical; o direito de criar entidades de nível superior, como uniões, centrais, federações e confederações; e o direito, preenchido os requisitos razoáveis, ao registro do sindicato como condição de sua existência legal.16

15 RUPRECHT, Alfredo J. apud. Trueba Urbina. El nuevo Derecho del Trabajo, México, 1970, p. 7.

Relações Coletivas de Trabalho. Tradução: Edilson Alkmin Cunha São Paulo: LTr, 1995, p. 88

16 NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Compêndio de Direito Sindical. 4 ed. São Paulo: LTR, 2005, p. 146-147.

A liberdade de administração é a independência do ente sindical de administrar a entidade sem interferência do Estado nem de outro particular. O sindicato pode criar o estatuto, contratar seus empregados, fazer as destinações e aplicações dos recursos chancelados por assembleia da categoria, criar procedimentos para escolha de seus dirigentes e fiscalização desses no efetivo exercício de suas atribuições.

A liberdade de associação, também prevista no art. 5º, CF, indica que “é plena a liberdade de associação para fins lícitos, vedada a de caráter paramilitar”, bem como no supracitado art. 8º, CF, o qual se refere à liberdade de filiação a uma entidade, bem como à liberdade de manter-se filiado. O Estado garante o direito de associação independente dos interesses legais envolvidos, atribuindo autonomia para que pessoas se reúnam e possam defender seus interesses comuns. Diante disso, descreve Ruprecht, “o direito de associação significa o reconhecimento de sua liberdade para realizar, juntamente a outras pessoas, projetar-se e transcender”17.

Na lógica da liberdade e autonomia sindical, ao sindicato, é permitida, conforme o art. 8º, III, CF, “a defesa dos direitos e interesses coletivos ou individuais da categoria, inclusive em questões judiciais ou administrativas”, não necessitando justificar os meios utilizados, as regras, os caminhos a serem tomados, apenas com a limitação da legalidade. Pode também, segundo o art. 8º, IV, CF, “fixar a contribuição que, em se tratando de categoria profissional, será descontada em folha, para custeio do sistema confederativo da representação sindical respectiva, independentemente da contribuição prevista em lei”, como forma de garantir a sobrevivência financeira que possibilite exercer efetividade na defesa da classe representada.

A liberdade e a autonomia sindical são limitadas pelo Estado Democrático de Direito. Alguns excessos podem ocorrer nas entidades sindicais que não estão “protegidas” pelo crivo da liberdade e da autonomia sindical. A lei não protege a falta de publicidade e transparência na prestação de contas, gastos e destinação dos recursos efetivados com os numerários que circulam nos cofres da entidade; os princípios não protegem a negativa na participação das decisões da categoria, geralmente em assembleias, que, muitas vezes, são fraudulentas, pois o Estado

não pode proteger dirigentes sindicais que se apropriam da máquina do sindicato como se fosse de sua propriedade, utilizando dos meios mais escusos para manutenção no poder.

A gestão deve se apresentar de forma regular publicizando seus atos. O art. 551, CLT, determina tal obrigatoriedade. O art. 551 colaciona que:

todas as operações de ordem financeira e patrimonial serão evidenciadas pelos registros contábeis das entidades sindicais, executados sob a responsabilidade de contabilista legalmente habilitado, em conformidade com o plano de contas e as instruções baixadas pelo Ministério do Trabalho.

No parágrafo do mesmo artigo, a CLT estabelece que a categoria deve aprovar as contas do sindicato, quais sejam:

as contas dos administradores das entidades sindicais serão aprovadas, em escrutínio secreto, pelas respectivas Assembleias Gerais ou Conselhos de Representantes, com prévio parecer do Conselho Fiscal, cabendo ao Ministro do Trabalho estabelecer prazos e procedimentos para a sua elaboração e destinação.

Ademais, segundo o art. 552, “os atos que importem em malversação ou dilapidação do patrimônio das associações ou entidades sindicais ficam equiparados ao crime de peculato julgado e punido na conformidade da legislação penal”.

Em outras palavras, não há como não coibir posturas que ferem a dignidade da pessoa humana, os princípios democráticos, os princípios da impessoalidade, transparência e moralidade. Assim, justifica-se a limitação do direito à liberdade e à autonomia sindical para sua própria efetivação.