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O direito eleitoral tem como finalidade precípua viabilizar a participação do povo no governo. Essa participação, como já se disse, se dá tanto votando quanto sendo votado. Quando, a par disso, eleitores se lançam na disputa eleitoral, presta-se o direito eleitoral não simplesmente a autorizar as candidaturas, mas também, num ambiente democrático, a permitir que, apesar das diferenças naturais entre os candidatos, disputem eles os votos em condições equânimes, de modo que a decisão popular sufragada nas urnas seja a mais natural possível.

Se assim não for, ressalte-se, deixa-se de realizar não só a democracia, mas também a república, que, por sua natureza, exige eleições periódicas e alternância no poder, o que só é possível num processo eleitoral livre. Com efeito, o princípio da paridade de armas, ou da máxima igualdade na disputa eleitoral, é depreendido do princípio republicado e do próprio princípio da igualdade, ambos encartados na Constituição brasileira de 1988.

Isso significa que deverá o Estado impor balizas e limites de atuação para candidatos, partidos e coligações que autorizem - a despeito das diferenças que

268 “Registro de candidaturas. Percentuais por sexo. 1. Conforme decidido pelo TSE nas eleições de

2010, o § 3º do art. 10 da Lei nº 9.504/97, na redação dada pela Lei nº 12.034/2009, estabelece a observância obrigatória dos percentuais mínimo e máximo de cada sexo, o que é aferido de acordo com o número de candidatos efetivamente registrados. 2. Não cabe a partido ou coligação pretender o preenchimento de vagas destinadas a um sexo por candidatos do outro sexo, a pretexto de ausência de candidatas do sexo feminino na circunscrição eleitoral, pois se tornaria inócua a previsão legal de reforço da participação feminina nas eleições, com reiterado descumprimento da lei. 3. Sendo eventualmente impossível o registro de candidaturas femininas com o percentual mínimo de 30%, a única alternativa que o partido ou a coligação dispõe é a de reduzir o número de candidatos masculinos para adequar os respectivos percentuais, cuja providência, caso não atendida, ensejará o indeferimento do demonstrativo de regularidade dos atos partidários (DRAP).(...)” (Ac. de 6.11.2012 no REspe nº 2939, rel. Min. Arnaldo Versiani),

podem até fazer um disputante mais forte que outro, seja política, seja economicamente – uma corrida eleitoral justa.

É assim que, mesmo sem enunciação legal, o princípio se revela em diversas regras do processo eleitoral, como na propaganda eleitoral, na impossibilidade de uso dos poderes públicos em campanhas, na neutralidade dos meios de comunicação social, no controle da data de início da arrecadação de recursos e realização de despesas eleitorais, na imposição da participação de todos os candidatos registrados nas pesquisas de intenção de votos, entre outras.

De relevante, cumpre notar que, malgrado entrem na disputa com condições diferentes, inclusive quanto à capacidade de investimento, a propaganda eleitoral somente poderá se iniciar a partir de 16 de agosto do ano eleitoral270, o que

invariavelmente tem o condão de reduzir a discrepância econômica e de estrutura entre os candidatos, porque, afinal, não houvesse uma data uniforme, o candidato mais estruturado iniciaria a tentativa de convencimento do eleitor mais cedo.

Mas não é só. Quando a legislação271 estabelece que, para iniciar a

arrecadação de recursos e a realização de despesas, precisa o candidato, antes, reunir o pedido de registro de candidatura, o CNPJ aberto após o requerimento de registro, a conta bancária inaugurada com o novo CNPJ e os recibos eleitorais, está na verdade estabelecendo requisitos objetivos somente passíveis de atendimento por todos os candidatos em momento específico e igual, de modo que ninguém poderá licitamente arrecadar e gastar antes dessas exigências, as quais, por sua vez, só podem ser cumpridas após 15 de agosto.

Trata-se, pois, uma vez mais, de uniformizar o momento inicial de arrecadação e contração de despesas para todos, ainda que, no final das contas, inexista como evitar que um candidato arrecade ou gaste mais do que outro.

Ainda visando à igualdade entre os candidatos na disputa eleitoral, finalmente o legislador estabeleceu os parâmetros objetivos definidores dos limites de gastos para campanhas eleitorais272, com isso coibindo o abuso de poder econômico e,

assim, ressaltando entre os candidatos a necessidade de convencimento puro do eleitor, sem o emprego exacerbado dos recursos econômicos.

270 Lei nº 9.504/97. “Art. 36. A propaganda eleitoral somente é permitida após o dia 15 de agosto do

ano da eleição”.

271 Lei nº 9.504/97. Arts; 22 e ss. 272 Lei 13.165/15. Art. 5º.

Assim sendo, somente pelo que se destacou, tem-se que, se é certo que alguns candidatos terão mais acesso a recursos econômicos e de estrutura geral para a campanha eleitoral, é igualmente indene de dúvidas que todos os pleiteantes ao cargo eletivo começarão a arrecadar esses recursos e a gastá-los, realizando a propaganda eleitoral, somente a partir de momento específico e que, salvo negligência de alguém sobretudo na abertura da conta bancária, será o mesmo para todos, estando todos esses candidatos, outrossim, sujeitos ao mesmo limite de gastos.

Quer-se, enfim, a despeito das diferenças, aproximar as condições dos candidatos, a tal ponto que qualquer deles possa ser eleito, de acordo com a preferência popular livremente exercida.

Todos esses instrumentos, observe-se, revelam uma leitura da ideia de igualdade que pressupõe uma ação estatal concretizadora, pela qual o Estado intervém no processo eleitoral via implantação de mecanismos propiciadores da isonomia entre os candidatos.

A despeito, porém, da imperatividade do princípio da paridade de armas, algumas características individuais de certos candidatos poderão licitamente gerar desequilíbrio na disputa pelo voto, sendo que, contra isso, o direito eleitoral nada poderá fazer senão minorar os efeitos ou, em alguns casos, simplesmente impedir que essas características sejam destacadas no período de campanha eleitoral.

É o caso, por exemplo, de candidato que apresentava, no período pré-eleitoral, programa televisivo. Obviamente que essa atividade implica vantagem perante os demais candidatos, face à larga exposição midiática daquele candidato. Numa situação como essa, claro que o direito eleitoral não poderia razoavelmente obstar a candidatura, mas, visando ao menos diminuir a vantagem do candidato apresentador e, assim, realizar o princípio da paridade de armas, proibirá a partir de 30 de junho do ano eleitoral a transmissão de programa apresentado ou comentado por pré- candidato, sob pena de multa e de cancelamento do registro de candidatura273.

Igualmente é objeto de questionamento quanto ao princípio da paridade de armas na disputa eleitoral o instituto da reeleição, que permite que ocupantes de cargos públicos eletivos sejam reconduzidos ao mesmo cargo para mandatos

273 Lei nº 9.504/97. “Art. 45. § 1o A partir de 30 de junho do ano da eleição, é vedado, ainda, às

emissoras transmitir programa apresentado ou comentado por pré-candidato, sob pena, no caso de sua escolha na convenção partidária, de imposição da multa prevista no § 2o e de cancelamento do

sucessivos. No Brasil, para os cargos parlamentares, são admitidos ilimitados consecutivos, ao passo que para os cargos de chefia do Executivo, permitidos são dois mandatos consecutivos274, limitação que, por sinal, faz exsurgir uma

inelegibilidade, consistente na veação ao terceiro mandato consecutivo, o que só reforça a importância do tema para o presente estudo.

No que aqui interessa, é certo que, graças ao instituto da reeleição, um candidato que já ocupa cargo público eletivo se lançará na disputa pelo voto com candidatos outros que possivelmente não ocupam cargo algum, notadamente aquele que está em jogo. Tal situação implica uma distinção significativa de posições entre os candidatos, a ponto de, nalgumas situações, trazer desequilíbrio ao pleito, havendo investigar se esse fator de discriminação é ou não razoável, afinal a ilegitimidade da diferença está no caráter não razoável do fator de discriminação275.

É que, como se viu acima, em alguns casos as diferenças entre os candidatos não poderão ser sindicadas pelo direito eleitoral, o que poderá ensejar algum desequilíbrio, mas nem por isso estar-se-á diante de uma situação ilegítima. O trabalho que se impõe, portanto, é investigar a harmonia da reeleição com a democracia e, no particular, com o princípio da paridade de armas ora estudado, de modo a se concluir se há aqui um desequilíbrio natural cujos efeitos hão de ser razoavelmente minorados, ou se o caso é de desequilíbrio ilegítimo entre os candidatos, a ponto de se falar, mesmo, em inconstitucionalidade do instituto.

Pois bem. Em se tratando de cargos parlamentares, entende-se que a sua própria natureza torna de menor relevância a questão, afinal os parlamentares tornam decisões coletivas e, assim, não governam diretamente, daí a menor problematização da reeleição nos cargos do Poder Legislativo276. A despeito disso, há quem defenda

uma limitação dos mandatos consecutivos também no Legislativo, a exemplo do que já ocorre para a chefia do Executivo277.

No que se refere à reeleição para o Executivo, por seu turno, o instituto recebe mais críticas, as quais partem da emenda constitucional que a inseriu no ordenamento

274 Constituição. “Art. 14, § 5º O Presidente da República, os Governadores de Estado e do Distrito

Federal, os Prefeitos e quem os houver sucedido, ou substituído no curso dos mandatos poderão ser reeleitos para um único período subsequente”.

275 Dinah Shelton. Prohibición de discriminación en el derecho internacional de los derechos

humanos.p. 22).

276 Francisco de Assis Vieira Sanseverino. O “uso da máquina pública” nas campanhas eleitorais:

condutas vedadas aos agentes públicos. p. 50).

277 Entre os defensores de apenas dois mandatos consecutivos no Legislativo, Roberto Livianu (O valor

brasileiro, a Emenda Constitucional nº 16, de 04 de junho de 1997. Paulo Bonavides, por exemplo, afirma a inconstitucionalidade material da Emenda, a qual geraria verdadeira crise de legitimidade para o Estado brasileiro278.

As críticas erigidas à reeleição no Executivo têm em comum a constatação prática de que a máquina pública brasileira tem sido utilizada (indevidamente, diga- se) para pavimentar pretensões eleitorais daqueles que exercem o poder político, daí se afirmar que a reeleição atentaria contra a isonomia entre os candidatos, trazendo distorções para a disputa eleitoral e, enfim, para a legitimidade racional e democrática dos processos eleitorais279.

Inegável, doutro lado, que a reeleição acaba por premiar o bom administrador, harmonizando-se, outrossim, com um imperativo da República: a transparência e prestação de contas das ações empreendidas à frente das instituições de poder. De fato, um candidato à reeleição, consciente ou inconscientemente, é levado a responder por suas ações e omissões no exercício do mandato eletivo, no que exsurgem estimulados os mecanismos de prestação de contas280.

Não bastasse isso, a possibilidade de reeleição nos cargos do Executivo dá ao ente federado a possibilidade (jamais certeza, afinal não se sabe se o candidato à reeleição terá êxito) de ver continuadas determinadas políticas de governo, tornando- o menos suscetível a mudanças muitas vezes prematuras na chefia do Executivo.

Assim, entende-se que a reeleição enquanto instituto jurídico não atenta contra a democracia ou contra o princípio republicano; antes, os realiza ao impulsionar os mecanismos de accountability e propiciar o ambiente mais favorável à continuidade governamental.

Há, porém, um problema na realização prática do instituto, o que também confere razão aos seus críticos. É que o sistema brasileiro admite que o candidato à reeleição, mesmo estando na titularidade do Executivo e, assim, exercendo diretamente as faculdades do governo, lance-se à disputa eleitoral acumulando a condição de administrador e candidato. Noutras palavras, o candidato à reeleição não precisará se desincompatibilizar de seu cargo para se candidatar à reeleição.

278 No mesmo sentido, Cármen Lúcia Antunes Rocha (O processo eleitoral como instrumento para

a democracia. 1998) destaca que a emenda da reeleição toca o princípio democrático e destoa dos

“paradigmas basilares do sistema, o que configura ilegitimidade constituinte”.

279Paulo Peretti Torelly. A substancial inconstitucionalidade da regra da reeleição. p. 276. 280 Fátima Anastasia. Et al. Governabilidade e representação política na América do Sul. p. 36.

Tal situação é peculiar, na medida em que, caso deseje se candidatar a qualquer outro cargo eletivo que não o seu próprio, o chefe do Executivo deverá renunciar ao seu mandato pelo menos seis meses antes da eleição281.

Diferentemente, lançando-se às eleições para o mesmo cargo, poderá nele permanecer, colocando em xeque a prevenção constitucional à utilização do poder político nas campanhas eleitorais e, aliás, tornando sem sentido a própria desincompatibilização para a candidatura aos demais cargos – afinal, em tese, o poder político que se poderia indevidamente utilizar numa campanha para outro cargo não é maior que aquele de que se valeria o candidato à reeleição.

Há aqui, pois, um verdadeiro contrassenso282 revelador de situação que atenta

contra o princípio da paridade de armas na disputa eleitoral, o que poderia ser resolvido pela imposição da desincompatibilização ao chefe do Executivo também quando desejasse se candidatar à reeleição.

Veja-se, harmônico com o que se disse acima, que sendo o instituto da reeleição de per si compatível com a democracia, e não podendo o candidato à reeleição se despir da condição de anterior ocupante daquele cargo eletivo, a forma de ao menos minorar a vantagem que aquele cargo anterior lhe traria em relação aos demais candidatos seria impedi-lo de exercer o mandato nos seis meses que antecedem ao pleito eleitoral. Dessa maneira, entende-se, a reeleição poderia ser uma realidade sem que o princípio da paridade de armas seja violado.