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Princípio da Proteção Integral e a Escola

No documento MELISSA ZANI GIMENEZ (páginas 114-119)

CAPÍTULO III - MECANISMOS DE EFETIVAÇÃO DOS DIREITOS DA CRIANÇA E

3.1 Princípio da Proteção Integral e a Escola

O princípio da Proteção Integral é o que caracteriza o tratamento jurídico dispensado a criança e ao adolescente brasileiros, cuja raiz encontra-se no próprio Direito Constitucional, em documentos e tratados internacionais e no ECA.

Com a publicação do diploma estatutário, torna-se possível exigir que os direitos das pessoas em desenvolvimento sejam respeitados e garantidos de forma integral e integrada contrariamente ao que fundamentava o Código de Menores, que analisava a criança e o adolescente como objetos e não sujeitos de direitos.

É oportuno suscitar que, antes da criação do ECA, o público infanto-juvenil era reconhecido como objeto de direito e, o termo empregado era “menor em situação irregular”, que dizia respeito ao menor de dezoito anos de idade que se encontrava abandonado materialmente, vítima de maus-tratos, em perigo moral, desassistido juridicamente, com desvio de conduta e o autor de ato infracional.217

As mudanças que o estatuto proporcionou são substanciais quanto a uma transformação no panorama infanto-juvenil. Atualmente, a situação irregular não pertence mais ao adolescente, encontra-se, pois, nas instâncias que devem garantir seus direitos (família, sociedade e Estado). Tem-se o início de um novo período em que as pessoas em formação são prioridade absoluta, seja na formulação, seja na execução de políticas públicas.

Além disso, o Poder Público tem o dever de destinar verbas públicas para o custeio de atividades nas áreas relacionadas com a proteção da infância e da juventude.218

As inovações normativas, instauradas no ordenamento jurídico estatutário, representam um avanço, tanto para a concretização das políticas públicas, como para a atuação dos poderes do Estado na área infanto-juvenil. Sob essa ótica avalia Antonio Carlos Gomes que

217VERONESE, Josiane Rose Petry. Os direitos da criança e do adolescente. São Paulo: LTR, 1999, p. 35.

218CASTRO, Dagmar Silva Pinto de. ECA como princípio ordenador para o enfrentamento da violência nas escolas. In: CASTRO, Dagmar Silva Pinto de; GANDOLFI, Cristiane; OLIVEIRA, Roberto Joaquim de (Orgs.).

Uma nova aquarela: desenhando políticas públicas integradas para o enfrentamento da violência escolar em São Bernardo do Campo. São Paulo: UMESP, 2010, p. 12-20.

O ECA, por si só, é o reconhecimento e a garantia de que os direitos da criança e do adolescente são uma questão de políticas públicas. Não se limitando somente à proteção, o estatuto expande para a promoção e defesa de todos os direitos inerentes dessa população, no sentido de garantir sua sobrevivência, seu desenvolvimento pessoal e social, sua integridade física psicológica e moral, além de colocá-lo a salvo de todas as formas de atuação de risco social e pessoal.219

O Estatuto, reconhecendo a maior vulnerabilidade da pessoa em desenvolvimento, preocupou-se com alterações legislativas modificando e elaborando uma nova proposta que se opõe à ideia de que todo erro é suscetível de punição, busca romper com esse paradigma estabelecendo atividades pedagógicas, buscando estratégias educacionais para a prevenção e respectiva punição sobre o adolescente autor de ato infracional.

As implicações dessas mudanças estruturais foram consagradas no artigo 3º do Estatuto da Criança e Adolescente, em que foi estabelecido o Princípio da Proteção Integral, ao consagrar a criança e o adolescente como sujeitos titulares de direito, sem prejuízo do gozo de todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade.

O artigo 4º do estatuto legal assegura a prioridade na efetivação dos direitos fundamentais quanto à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à dignidade, ao respeito, entre um elenco de atributos normativos que lhe assegurem a condição de cidadão. Atribui à família, à sociedade e ao município, a responsabilidade em criar mecanismos adequados para suprir as exigências infanto-juvenis, reservando ao Estado a complementaridade dessas ações e ao ente federal a necessidade no custeio para a concretização dessas políticas públicas sociais.

Trata-se de uma revolução legislativa, reconhecendo uma parte da população até o momento excluída e esquecida pela sociedade, estabelecendo em uma ordem de prioridades, os direitos da criança e do adolescente em primeiro plano diante das prioridades estatais.

Nesses termos, Paolo Vercelone220 diz que

Desta vez não se trata de uma classe social ou de uma etnia, mas de uma categoria de cidadãos identificada a partir da idade. Mas, trata-se, contudo, de uma revolução, e o que mais impressiona é o fato de que se trata de uma

219COSTA, Antonio Carlos Gomes da. Princípios doutrinários e diretrizes do Estatuto da criança e do adolescente. In: Direito da criança. São Bernardo do Campo: Cedeca/Unicef, 1995, p. 9-10.

220VERCELONE, Paolo. Artigo 3º do Estatuto da Criança e do Adolescente. In: CURY, Munir (Coord.).

Estatuto da criança e do adolescente: comentários jurídicos e sociais. 2.ed. São Paulo: Malheiros, 1992, p. 34-38.

revolução feita por pessoas estranhas àquela categoria, isto é, os adultos em favor dos imaturos.

Juntamente com a lei 8.069/90, surge a necessidade de que todos os Poderes do Estado, Órgãos Públicos e em especial o Poder Judiciário, interpretem todas as normas à luz dos princípios fundamentais, efetivem e implementem as políticas sociais voltadas para a proteção integral da criança e do adolescente.

Por meio da nova sistemática do ECA, outros membros passam a integrar a articulação responsável para garantir os direitos infantis, além da família e da sociedade: os Conselhos de Direito, os Conselhos Tutelares, Ministério Público, Defensoria Pública, profissionais de todas as áreas.

O estatuto provoca mudanças substanciais quanto a uma transformação no paradigma da pessoa em desenvolvimento. Ele impõe uma revisão ética das práticas e políticas dirigidas ao jovem, transforma a situação irregular dos objetos de direito para a proteção integral dos sujeitos de direito, retificam o termo menor para crianças e adolescentes, elevando-os à categoria de cidadãos, protagonistas de sua própria história, capazes de participar na estruturação do percurso de vida, de saúde e de bem-estar.

Para atender às exigências do estatuto, enfatizando a condição de sujeitos de direitos, faz-se necessário o reconhecimento de sua dignidade, enquanto ser humano que vive em sociedade e necessita ter concretizado de fato seus direitos. “Essa possibilidade é identificada mediante a própria consciência de cidadania civil, política e social. Quando a cidadania está em crise não há identificação dos direitos de cada pessoa221”.

A proteção integral surge como necessidade de implementação dos direitos e garantias assegurados no ECA às pessoas em pleno desenvolvimento, principalmente possibilitando condições de implantação da lei 11.525/2007, no sentido de ofertar um desenvolvimento pessoal e social à criança e ao jovem, alterando seu estigma de alienados sociais. “O fator essencial para esse processo é a cidadania, definida como competência humana de fazer-se sujeito, para fazer história própria e coletivamente organizada222.”

Em decorrência da educação, o sujeito é capaz de conhecer-se, ainda que esse processo seja realizado durante o percurso do ensino-aprendizagem, não de forma imediata, e sim gradualmente, pelo exercício da reflexão. Como consequência, faz com que o aprendiz

221COSTA, Antonio Carlos Gomes da; LIMA, Isabel Maria Sampaio Oliveira. Estatuto e LDB: direito à educação. In: KOZEN, Afonso Armando. et al. (Org.). Pela justiça na educação. FUNDESCOLA/MEC:

Brasília, 2000, p. 290-310.

222DEMO, Pedro. Cidadania tutelada e cidadania assistida. Campinas: São Paulo, Autores Associados, 1991, p. 1.

conhecedor de seus direitos e deveres sociais, possa questionar-se, avaliar suas atitudes, conscientizar-se de sua historicidade. Consequentemente, é provável que tenhamos como resultado a redução do índice de ato infracional.

Por meio de um trabalho de pesquisa, Tese de Doutorado pela Universidade Federal de São Carlos, realizado por Alex Eduardo Gallo, com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPQ, no ano de 2006, intitulado como: “A escola como fator de proteção à conduta infracional de adolescentes” caracterizado por uma clientela atendida por medidas socioeducativas de Prestação de Serviços à Comunidade e de Liberdade Assistida, em uma cidade do interior do Estado de São Paulo, com o objetivo de identificar variáveis associadas à determinação da conduta infracional, pode-se concluir que mais da metade (60,2%) dos adolescentes em conflito com a lei não frequentavam a escola. O fato de frequentar a escola foi associado à frequência menor no uso de armas, o que pode evidenciar uma possível atuação da escola como fator de proteção, prevenindo infrações mais graves, isto é, infrações com uso de armas e que entre os adolescentes que frequentavam a escola, 67,3% não eram usuários de drogas ilícitas223.

Percebe-se em tais exposições, uma nítida importância da educação escolar como mecanismo de prevenção da prática de atos infracionais. Constata-se, pois, que a educação é elemento indispensável à plena integração do indivíduo à sociedade, despertando-lhe seu compromisso social e transformações de comportamentos.

Na obra de Cesare Beccaria224, concentra-se a compreensão da importância do processo educacional para que as pessoas em processo de desenvolvimento consigam de fato serem cidadãos

[...] o meio mais seguro, mas ao mesmo tempo mais difícil de tornar os homens menos inclinados à prática do mal, é aperfeiçoar a educação. [...] o homem esclarecido é o dom mais precioso que o soberano pode ofertar à nação e a si mesmo, tornando-o depositário e guardião das santas leis.

A educação, desde os tempos remotos até os dias atuais, resulta de um mecanismo de conscientização e de solução de conflitos sociais. As políticas públicas do Estado, para o sistema educacional, devem ser assumidas e processadas como estabelecido na Carta

223GALLO, Alex Eduardo. A escola como fator de proteção à conduta infracional de adolescentes. Cadernos de Pesquisa, v. 38, n. 133, jan./abr. 2008, p. 41-59. Disponível em:

<http://www.scielo.br/pdf/cp/v38n133/a03v38n133.pdf>. Acesso em: 15 out. 2013.

223VERONESE, op.cit., p. 80.

223GALLO, op.cit., p. 41-59.

224BECCARIA, César. Dos delitos e das penas. Tradução de José Cretella Júnior; Agnes Cretella. 2. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1997, p. 132.

Constitucional e na lei 11.525/2007, ou seja, proclamando a Doutrina da Proteção Integral, elegendo as crianças e os adolescentes como sujeitos de direitos e não mais objetos de políticas, incentivando e proclamando cada vez mais a exclusão social.

No instituto legal estatutário reúnem-se os instrumentos necessários para a formação do sujeito cidadão, independente de classe, de etnia e de gênero. O ECA representa um avanço com relação às crianças e aos adolescentes, ancorando-se em uma dimensão política e ética para a construção de uma cidadania ativa.

Conforme explicita Pedro Demo225

Uma das conquistas mais importantes do fim deste século é o reconhecimento que a cidadania perfaz o componente mais fundamental de desenvolvimento. [...] O maior desafio da cidadania é a eliminação da pobreza política, que está na raiz da ignorância acerca da condição de massa de manobra. Não-cidadão é sobretudo quem, por estar coibido de tomar consciência crítica da marginalização que lhe é imposta, não atinge a oportunidade de conceber uma história alternativa e de organizar-se politicamente para tanto. Entende injustiça como destino. Faz a riqueza do outro, sem dela participar.

Nessas condições, a criança e o adolescente, têm o direito de serem cidadãos, superando a alienação, a perda de foco, que leva crianças e adolescentes à prática do ato infracional. Constata-se a necessidade de buscarem dados da realidade social, tomando ciência e consciência dos direitos e deveres para organizar-se coletivamente, ir ao encontro do bem estar social.

Finalmente, o Princípio da Proteção Integral, pode vir a se configurar plenamente real por intermédio de uma parceria entre o Poder Público e a sociedade, mediante a transposição do Direito positivado em implementação dos direitos e deveres na realidade social. O Poder Público tem a obrigação de legislar em busca da paz coletiva dos cidadãos, e o dever de proteger a sociedade efetivando seus direitos.

Sendo assim, o Estado, por intermédio de um colegiado de órgãos, transfere a responsabilidade na defesa e realização dos direitos sociais. Esses órgãos representam os braços estatais, “são novas institucionalidades democráticas da capacidade organizativa e participativa da sociedade226,” entre eles: Conselhos de Direitos das crianças e dos adolescentes municipais (CMDCA), estaduais (CONDECA) e federais (CONANDA),

225DEMO, Pedro. Cidadania tutelada e cidadania assistida. Campinas: São Paulo, Autores Associados, 1991, p. 2

226COSTA, Antonio Carlos Gomes da; Isabel Maria Sampaio Oliveira. Estatuto e LDB: direito à educação. In:

KOZEN, Afonso Armando. et al. (Org.). Pela justiça na educação. FUNDESCOLA/MEC: Brasília, 2000, p.

290-310.

Conselho Tutelar, entre outros. Em decorrência da importância concedida a cada um desses órgãos para que proteção da criança e do jovem seja ofertada de forma integral, eles serão analisados em tópicos próprios.

No documento MELISSA ZANI GIMENEZ (páginas 114-119)