3 PRINCÍPIO DA VULNERABILIDADE DO CONSUMIDOR E O DIRIGISMO
3.1 Princípio da vulnerabilidade do consumidor
Vejamos o entendimento jurisprudencial do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, sobre o princípio da vulnerabilidade do consumidor, observando as decisões infracolacionadas e suas relevâncias quanto ao já elencado princípio:
Embargos Infringentes Nº 70049595499, Quinto Grupo de Câmaras Cíveis, Tribunal de Justiça do RS. Relator: Leonel Pires Ohlweiler. Julgado em 23/11/2012, conforme a ementa abaixo colacionada:
EMENTA: EMBARGOS INFRINGENTES. RESPONSABILIDADE CIVIL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. CARUNCHOS NO INTERIOR DE EMBALAGEM DE MACARRÃO. VÍCIO DO PRODUTO. ART. 18 DO CDC. PRINCÍPIO DA
RESPONSABILIDADE SANITÁRIA. RESPONSABILIDADE DO
FABRICANTE. COMPROVAÇÃO DOS PRESSUPOSTOS DA
RESPONSABILIDADE CIVIL. VIOLAÇÃO DA BOA-FÉ OBJETIVA.
DANOS EXTRAPATRIMONIAIS CONFIGURADOS. -
Responsabilidade Civil Objetiva pelo Vício do Produto - O fornecedor de produtos e serviços responde independentemente da existência de culpa, pela reparação dos danos causados por defeitos relativos aos produtos e prestação de serviços que disponibiliza no mercado de consumo. Caso em que configurado o acidente de consumo, em decorrência de vício do produto, em razão do que se assenta a
responsabilidade objetiva do seu fabricante. Presença de "carunchos" no interior de embalagem de macarrão. - Vício do Produto Decorrente da Violação do Dever de Inocuidade - A
produção de macarrão, cuja embalagem possui no seu
interior corpo estranho à composição, caracteriza violação do
princípio da segurança sanitária. Aplicação da normatização de controle das condições sanitárias na fabricação de alimentos e bebidas. Incidência da RDC 175/2003. Substancias estranhas contaminantes encontradas em alimentos e bebidas industrializados devem ser consideradas prejudiciais à saúde humana. Necessidade de as indústrias de alimentos e bebidas observarem os procedimentos estabelecidos pelo Ministério da Saúde e pela ANVISA, destacando-se os POPs e as BPFs, RDC 175/2003, RDC 216/2004. Precedentes do TJRS. - Configuração do Dever de Indenizar - Violação da Boa-Fé Objetiva - A presença
de corpo estranho (insetos, popularmente conhecidos como
"carunchos") no interior de embalagem de macarrão fabricado pela demandada evidencia que o produto não ostentava condições de comercialização e muito menos para o consumo, sob pena de risco à saúde e integridade físicas dos consumidores. Tal situação implica em violação à boa-fé objetiva, consistente na não realização de conduta que razoavelmente poderia esperar-se do fornecedor do produto, provocando danos extrapatrimoniais decorrentes da frustração da expectativa legítima do consumidor por ocasião da aquisição de um bem no mercado de consumo. Outro aspecto a destacar é que casos como o presente são corriqueiros nos julgamentos deste Tribunal de Justiça, quedando-se despicienda a comprovação dos danos extrapatrimoniais, porquanto decorrentes de inequívoca quebra de confiança e a exposição à situação de vulnerabilidade do consumidor, conforme precedentes do TJRS citados. EMBARGOS INFRINGENTES DESACOLHIDOS, POR MAIORIA. (RIO GRANDE DO SUL, 2012).
Extrai-se dos votos que os alimentos impróprios para o consumo são de responsabilidade do fornecedor, pois o consumidor está em situação de vulnerabilidade. O Desembargador Leonel Pires Ohlweiler (2012), assegurou que para que seja evidenciado o dever do fornecedor de indenizar o consumidor, não importará o fato do consumidor ingerir ou não o produto, vez que o fornecedor segundo o art. 12 do CDC, possui total responsabilidade por ter posto no mercado um alimento que apresenta risco à saúde.
O Desembargador, Leonel Pires Ohlweiler (2012), ainda assegurou que:
Outro aspecto a destacar é que casos como o presente são corriqueiros nos julgamentos deste Tribunal de Justiça, quedando-se despicienda a comprovação dos danos extrapatrimoniais, porquanto decorrentes de inequívoca quebra de confiança e a exposição à situação de vulnerabilidade do consumidor, conforme precedentes do TJRS citados.
A mencionada decisão também tevê como fulcro o art. 18 do CDC, no qual restou configurado o vício do produto. Leonel Pires Ohlweiler, (2012), por tratar-se de um vício de qualidade, este tipo de vício faz com que o produto seja impróprio para o consumo.
Observa-se que conforme mencionado e evidenciado na jurisprudência acima o consumidor é compreendido como parte vulnerável da relação contratual, pois não tem como este pressentir se o produto (alimento) irá apresentar o vício ou não, o consumidor sempre partirá do pressuposto de que se a mercadoria está sendo comercializada no mercado é porque é de qualidade.
Por fim, observe-se a ementa do Recurso Cível Nº 71003751245, Terceira Turma Recursal Cível, Turmas Recursais, Tribunal de Justiça do RS. Relator: Marta Borges Ortiz. Julgado em 28/09/2012:
EMENTA: RESPONSABILIDADE CIVIL. FATO DO PRODUTO. ACIDENTE DE CONSUMO. PRODUTO EM DESACORDO COM A
LEGISLAÇÃO VIGENTE. CORPO ESTRANHODENTRO DE
PACOTE DE BATATA FRITA ONDULADA DO TIPO "RUFFLES".
RESTOS DE MATÉRIA-PRIMA AGLOMERADA. MATERIAL
RANÇOSO E CONSIDERADOTECNICAMENTE UMA IMPUREZA. RESPONSABILIDADE OBJETIVA DO FABRICANTE. DEVER DE INOCUIDADE DOS ALIMENTOS. VÍCIO DE QUALIDADE POR INSEGURANÇA DO PRODUTO. QUEBRA DE CONFIANÇA E
EXPOSIÇÃO DO CONSUMIDOR À SITUAÇÃO
DE VULNERABILIDADE. APLICAÇÃO DO ART. 12 DO CDC. DANOS MORAIS CONFIGURADOS. QUANTUM FIXADO DE ACORDO COM AS PARTICULARIDADES DO CASO CONCRETO. SENTENÇA REFORMADA PARA JULGAR PROCEDENTE O PEDIDO INICIAL. RECURSO PROVIDO.(BRASIL, 2012).
É entendimento jurisprudencial pacífico do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul a caracterização do princípio da vulnerabilidade, pois o consumidor ao comprar um produto age de boa-fé crendo que o fornecedor possui a mesma boa-fé que ele. Portanto no que tange ao assunto gênero alimentício, após buscas jurisprudenciais evidenciou-se que:
Não é necessária a ingestão do alimento para que seja configurado o defeito do produto, quem deverá suprir o defeito é o fornecedor, o qual deve responder
juridicamente devido a repulsa que o produto contaminado causa no consumidor, pois este adquiriu o produto confiando naquele, gerando assim no consumidor uma expectativa frustrada.
No tocante ao Princípio da Vulnerabilidade do consumidor não somente em casos do gênero alimentício, mas também no caso de telefonias e cláusulas abusivas contratuais o Tribunal de Justiça é pacifico em diversas decisões que primam sempre pela proteção do consumidor.
Vejamos a ementa abaixo extraída do Recurso Especial nº 1.365.609-SP, do Superior Tribunal de Justiça, tendo como relator: Ministro Luis Felipe Salomão. Julgado em 28/4/2015:
EMENTA: DIREITO DO CONSUMIDOR. RECURSO ESPECIAL. VÍCIO DO PRODUTO. AUTOMÓVEIS SEMINOVOS. PUBLICIDADE
QUE GARANTIA A QUALIDADE DO PRODUTO.
RESPONSABILIDADE OBJETIVA. USO DA MARCA. LEGÍTIMA
EXPECTATIVA DO CONSUMIDOR. MATÉRIA FÁTICO-
PROBATÓRIA. SÚM. 7/STJ.
1. O Código do Consumidor é norteado principalmente pelo
reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor e pela
necessidade de que o Estado atue no mercado para minimizar essa hipossuficiência, garantindo, assim, a igualdade material entre as partes. Sendo assim, no tocante à oferta, estabelece serem direitos básicos do consumidor o de ter a informação adequada e clara sobre os diferentes produtos e serviços (CDC, art. 6°, III) e o de receber proteção contra a publicidade enganosa ou abusiva (CDC, art. 6°,IV). 2. É bem verdade que, paralelamente ao dever de informação, se tem a faculdade do fornecedor de anunciar seu produto ou serviço, sendo certo que, se o fizer, a publicidade deve refletir fielmente a realidade anunciada, em observância à principiologia do CDC. Realmente, o princípio da vinculação da oferta reflete a imposição da transparência e da boa-fé nos métodos comerciais, na publicidade e nos contratos, de forma que esta exsurge como princípio máximo orientador, nos termos do art. 30. 3. Na hipótese, inequívoco o caráter vinculativo da oferta, integrando o contrato, de modo que o fornecedor de produtos ou serviços se responsabiliza também pelas expectativas que a publicidade venha a despertar no consumidor, mormente quando veicula informação de produto ou serviço com a chancela de determinada marca, sendo a materialização do princípio da boa-fé objetiva, exigindo do anunciante os deveres anexos de lealdade, confiança, cooperação, proteção e informação, sob pena de responsabilidade. 4. A responsabilidade civil da fabricante decorre, no caso concreto, de pelo menos duas circunstâncias: a) da premissa fática incontornável adotada pelo acórdão de que os mencionados produtos e serviços ofertados eram avalizados pela montadora através da mensagem publicitária veiculada; b) e
também, de um modo geral, da percepção de benefícios econômicos com as práticas comerciais da concessionária, sobretudo ao permitir a utilização consentida de sua marca na oferta de veículos usados e revisados com a excelência da GM. 5. Recurso especial não provido. (BRASIL, 2015).
No que se refere à propaganda, a oferta veiculada e o que se refere à responsabilidade objetiva das empresas é importante extrair-se dos votos da jurisprudência supracitada os trechos abaixo colacionados, Salomão (2015):
No tocanteà oferta, estabelece serem direitos básicos do consumidor o de ter a informação adequada e clara sobre os diferentes produtos e serviços (CDC, art. 6°, III) e o de receber proteção contra a publicidade enganosa ou abusiva (CDC, art. 6°, IV). Conforme abalizada doutrina, a informação "é mais do que um simples elemento formal, afeta a essência do negócio, pois a informação repassada ou requerida integra o conteúdo do contrato (arts. 30, 33, 35, 46 e 54), ou, se falha, representa a falha (vício) na qualidade do produto ou serviço oferecido (arts. 18, 20 e 35)" (BENJAMIN, Antônio Herman V., MARQUES, Claudia Lima e BESSA, Leonardo Roscoe. Manual de direito do consumidor. São Paulo: RT, 2009, p. 59).
Sem dúvida alguma, a responsabilidade dos arts. 30 e 35 é objetiva, pois seu texto em nada alude à culpa do anunciante, razão pela qual não pode o intérprete agregá-la, muito menos num contexto em que, seja pela vulnerabilidade da parte protegida (o consumidor), seja pelas características do fenômeno regrado (a publicidade), o Direito, antes mesmo da interferência do legislador, já se encaminhava na direção da objetivação da responsabilidade civil. Em outras palavras,'a publicidade será exigível ainda que sua inexatidão não se deva à culpa ou dolo do anunciante'(BENJAMIN, Herman de Vasconcellos et al . Op. cit. , p. 310).
Destaca-se por fim que no Superior Tribunal de Justiça, também é pacifico o entendimento de que o consumidor é parte vulnerável na relação de consumo, por isso, necessita estar amparado pelo poder do Estado, para que assim tenha seus direitos protecionistas resguardados.
Por fim, ao fazer uma detalhada busca jurisprudencial evidenciou-se que o princípio da vulnerabilidade do consumidor é majoritariamente reconhecido pelos Tribunais, assim passa-se a uma análise das transformações no direito contratual, a luz do princípio de boa-fé objetiva.
3.2 Transformações no direito contratual: uma releitura a partir da função