Mill é um filósofo de alicerces liberais e muitos teóricos consideram o ensaio Sobre a Liberdade o seu maior legado. O objetivo de Mill com essa obra parece muito claro, realizar uma defesa da liberdade fundamentada em princípios. Junto a esse objetivo o filósofo declara quais são suas preocupações fundamentais, a saber, os limites da autoridade do estado ou da coletividade sobre a liberdade do indivíduo e a garantia do direito de liberdade como condição para o progresso humano. Em toda sua obra, Mill expressa seu temor em relação a força da opinião pública sobre a liberdade individual, expressões como “sociedade inculta”, “tirania da maioria”, “intolerância religiosa” são comuns ao vocabulário de Mill ao referir-se do contexto da Inglaterra vitoriana.
Com sua particular objetividade Mill assevera que a liberdade pode ser garantida a partir da aceitação de um “princípio muito simples” que guiaria a conduta humana.
Esse princípio é o de que a única finalidade para a qual a humanidade está autorizada, individual ou coletivamente, a interferir na liberdade de ação de qualquer de seus membros é a autoproteção. Que o único propósito para o qual o poder pode ser exercido com justiça sobre qualquer membro da comunidade civilizada, contra sua vontade, é o de evitar dano a outros. A finalidade de seu próprio bem, físico ou moral, não é suficiente para conferir essa autorização. (MILL, 2017, p.82).
Esse princípio também ficou conhecido como o “princípio do dano” que estabelece o limite da liberdade. Segundo o princípio, aos atos que dizem respeito apenas ao próprio indivíduo a liberdade é absoluta. Ele é senhor sobre seu próprio corpo e sobre sua própria mente. Mill defende que o indivíduo não pode sofrer coerção nem mesmo quando sua ação traz como consequência um dano a si mesmo. Já aos atos do indivíduo ou coletivo que dizem respeito a outros indivíduos o direito de agir somente é justificado como forma de evitar dano a outros5. Aceita-se assim o exercício da autoridade para garantir a segurança, não a do próprio agente,
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“Mill assume que conhecemos o suficiente sobre os interesses de outras pessoas a ponto de justificar algumas ações legais destinadas a evitar que as pessoas causem danos aos outros. Isso sugere que dispomos [ou que deveríamos dispor] de conhecimento de alguns interesses que as pessoas têm, mesmo que sejamos ignorantes quanto aos outros. Uma possibilidade que deve ser considerada consiste em que as pessoas são semelhantes em alguns aspectos importantes, mas diferentes em outros.” (LYONS, 1990, 169)
mas de terceiros que podem ser afetados por ele. O “princípio do dano”, segundo Mill, é o único meio legítimo de interferência na liberdade do indivíduo, e o limite necessário ao bom andamento da justiça e proteção contra o despotismo político6.
É importante lembrar que Mill não recorre a uma ideia de direitos naturais para justificar a ideia de liberdade, segundo o filósofo há uma relação de dependência entre o princípio de liberdade e sua ética utilitarista. Como todo utilitarista, Mill acredita que as regras sociais são o produto das experiências do viver, o princípio da liberdade assim como a sua teoria utilitarista é racionalmente fundamentado a partir de uma visão empirista. A liberdade individual, que não causa dano a outros, é desejável porque ela promove a utilidade que por fim conduz ao desenvolvimento humano. Observa Mill:
Convém declarar aqui que me abstenho de qualquer vantagem que eu pudesse obter para meu argumento que seja proveniente da ideia de um direito abstrato, como algo que independe de sua utilidade. Considero a utilidade a invocação definitiva em todas as questões éticas; mas deve ser a utilidade em seu sentido mais amplo, fundamentada nos interesses permanentes do homem como um ser em progresso. Esses interesses, eu sustento, autorizam a sujeição da espontaneidade individual a um controle externo somente no que diz respeito às ações de cada um que tenham a ver com os interesses de outras pessoas. (MILL, 2017, p. 83).
Portanto, se a utilidade é o fim da ação moral, a liberdade seria o meio. O princípio da liberdade protege o indivíduo contra as arbitrariedades externas, ao mesmo tempo, que autoriza a violação da liberdade, quando esta prejudica os direitos dos outros. Mill é extremamente otimista quanto aos efeitos da liberdade de pensamento e de expressão, contrariando a corrente dos filósofos que defendiam a ideia de uma verdade fixa ou inata, ele argumenta que somente com a liberdade de pensamento podemos descobrir novas verdades, aprimorar as ideias estabelecidas e promover a diversidade de opiniões para assim fazer progredir as ciências e a humanidade.
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Mill faz questão de alertar, numa passagem que talvez seja a mais arbitrária de toda sua obra, que não é qualquer indivíduo ou grupo que pode apelar por si mesmo ao Princípio de Liberdade. “Talvez nem seja necessário dizer que se tem essa doutrina como aplicável somente a seres humanos plenamente maduros em suas faculdades. Não estamos falando de crianças ou jovens [...] Aqueles que ainda estão num estágio de desenvolvimento em que se requer que sejam cuidados por outros devem ser protegidos contra suas próprias ações [...] O despotismo é um modo legítimo de governar quando se tem de tratar com bárbaros, desde que visando a seu aprimoramento, e que os meios se justifiquem por efetivamente levarem a esse fim. A liberdade, como princípio, não se aplica a nenhum estado de coisas anterior ao tempo em que a humanidade se tornou capaz de ser aprimorada através de um debate livre e igualitário.” (MILL, 2017, p. 82-83).