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4 PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS LIMITADORES DO PODER DE TRIBUTAR

4.4 Princípio da isonomia

Como ocorre com os princípios da legalidade e da irretroatividade, o princípio constitucional da isonomia tributária22 é particularização do princípio fundamental da

22Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito

Federal e aos Municípios: (...)

igualdade.23 O art.150, II da Constituição da República o consagrou, impedindo a diferença de tratamento entre contribuintes em situação equivalente, vedando qualquer distinção em razão do trabalho, cargo ou função exercidos.

A inclusão do art. 150, II da Constituição da República teve o objetivo específico de fazer com que os militares, magistrados e parlamentares passassem a pagar imposto de renda sobre a totalidade da respectiva remuneração. É exatamente essa a sua finalidade: evitar perseguições e favoritismos.

A definição detalhista, até mesmo pleonástica, que a Carta Magna reservou ao princípio da igualdade não eliminou a dificuldade de sua concreção prática. Isso porque, para se colocar em prática a clássica lição de Aristóteles de que ela consiste em tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, é necessário definir um critério para identificá-los, o qual, por sua vez, é sujeito a variações histórico-culturais.

Apesar de o enfoque mais corrente do princípio da igualdade ser a proibição de distinguir, sua aplicação no âmbito do Direito Tributário demanda exatamente o oposto. “Interessa, pois, muitas vezes, saber em que casos o princípio da igualdade prescreve uma atuação positiva do legislador, sendo-lhe vedado deixar de considerar as disparidades advindas dos fatos (a que se ligam necessariamente as pessoas) para conferir-lhes diferenciação de tratamento.”24

II - instituir tratamento desigual entre contribuintes que se encontrem em situação equivalente, proibida qualquer distinção em razão de ocupação profissional ou função por eles exercida, independentemente da denominação jurídica dos rendimentos, títulos ou direitos;

(...)

23 Art. 5º. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos

estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

I - homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição; (..)

Art. 19. É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:

(..)

III - criar distinções entre brasileiros ou preferências entre si.

Em matéria fiscal, portanto, não é só necessário distinguir, é essencial. Deve o legislador considerar as diferenças advindas dos fatos sob o risco de o princípio da isonomia tributária não lhe ter significado especial.

O princípio da igualdade não deve ser entendido como um dever endereçado somente ao legislador de conceder o mesmo tratamento àqueles que se encontrem na mesma situação, mas também dirigido ao aplicador da lei, significando que este não pode diferenciar as pessoas para efeito de ora submetê-las, ora não, ao mandamento legal.

Nessa árdua tarefa de fazer prevalecer direito de tamanha importância do contribuinte, já que elementos léxicos de cunho subjetivo abrem portas para exageros fiscais e sonegações, é imprescindível citar o princípio da capacidade contributiva25 como o critério para facilitar sua aplicação. É da sua juridicidade que resulta o lado positivo do princípio da igualdade.

A capacidade econômica do contribuinte é entendida como princípio que deve orientar o exercício da tributação independente de expressa disposição na Constituição ou na legislação tributária. Significa que o Estado deve exigir que as pessoas contribuam para o custeio das despesas públicas na medida de sua capacidade para contribuir. Como decorrência lógica, nada deve ser exigido de quem só possui o indispensável para sua sobrevivência e nem pode a tributação implicar em confisco da propriedade particular.

Ao lado da capacidade contributiva, também razões extrafiscais e administrativas autorizam a diferenciação tributária, desde que efetivamente presentes e amparadas constitucionalmente. Nestas situações, o legislador está autorizado a tratar desigualmente os iguais, sem ofensa ao princípio, porque ou é instrumento de políticas econômicas, sociais e culturais ou limita direito, interesse ou liberdade em benefício do bem comum.

25Art. 145. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios poderão instituir os seguintes tributos:

(...)

§ 1º Sempre que possível, os impostos terão caráter pessoal e serão graduados segundo a capacidade econômica do contribuinte, facultado à administração tributária, especialmente para conferir efetividade a esses objetivos, identificar, respeitados os direitos individuais e nos termos da lei, o patrimônio, os rendimentos e as atividades econômicas do contribuinte.

Como bem resume Amaro (2004, p.135):

A questão da isonomia, em síntese, não se resolve apenas com a afirmação de que, posta a norma legal, como comando abstrato e hipotético, todas as situações concretas correspondentes à hipótese legal devem ser submetidas à lei, e as situações excepcionadas pela lei devem ser excluídas. Há de examinar-se se o legislador discriminou onde isso lhe era vedado, ou se diferenciou apenas dentro da margem em que podia legitimamente diferenciar, ou, finalmente, se deixou de dessemelhar onde lhe era obrigatório fazê-lo. Em qualquer das hipóteses, a isonomia terá sido ferida, além de, possivelmente, ter-se agredido a capacidade contributiva.

Apesar do princípio do tratamento isonômico ser abrangente, alcançando todos os tributos, é expresso na Constituição a aplicação do princípio da capacidade contributiva estritamente aos impostos. Contudo, segundo Conti (1996, apud PAULSEN, 2003, p.75),

(...) o princípio da capacidade contributiva é aplicável a todas as espécies tributárias. No tocante aos impostos,o princípio é aplicável em toda a sua extensão e efetividade. Já no caso dos tributos vinculados, é aplicável restritamente, devendo ser respeitados apenas os limites que lhe dão os contornos inferior e superior, vedando a tributação no mínimo vital e imposição tributária que tenha efeitos confiscatórios.

Trata-se, portanto, de uma igualdade jurídica. O tributo é um dever cujo peso deve importar em igual sacrifício para todos os cidadãos. O justo é distribuir de forma proporcional o ônus de prover as necessidades da coletividade, cabendo ao poder jurisdicional zelar que as imunidades, isenções, reduções e exonerações em geral cumpram o seu papel na sociedade.

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