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3.2 VALORES CONSTITUCIONAIS EM FACE DAS INTERVENÇÕES GENÉTICAS

3.2.1 Princípio da liberdade

Quando tratar-se sobre o princípio da liberdade é necessário ter em mente duas referências, a liberdade positiva e a liberdade negativa. Esta última, em simples explicação, cabe ao indivíduo a liberdade de auto escolha sem que haja interferência alheia a sua vontade. Enquanto a liberdade positiva também dá ao indivíduo uma margem de escolha, porém há presença de condições para alcançar seus objetivos.

Esse direito fundamental é consagrado em nossa Constituição Federal no inciso II do artigo 5º.

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

[...]

II - ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei26;

25 MORAES, Maria Celina Bodin. Danos à pessoa humana: uma leitura civil-constitucional dos danos morais. Rio de Janeiro: Renovar, 2003. p.84.

26 BRASIL. Constituição Federal (1988). Artigo 5º.

Em se tratando da engenharia genética, a liberdade e a autonomia se fazem presente na discussão da legitimação e dos limites de aplicação. Em sua tese de doutorado, Brunello Stancioli entende que esses princípios, assim como o da dignidade, mostram a direção correta a ser seguida pela ciência.

A intervenção no corpo pode ser feita, desde que se respeite, como parâmetro, as outras dimensões estruturais da pessoa: sua autonomia, sua abertura à alteridade e o auto-reconhecimento da sua dignidade. [...] Em outras palavras, qualquer intervenção no corpo humano não lhe pode retirar, em definitivo, a própria condição de se auto-realizar como pessoa, seja por meio de terapia genética, seja pela medicina intra-uterina ou qualquer outro meio. A manipulação não pode elidir a capacidade de autorreferência, em especial quando se trata de seu nível mais elementar: o orgânico27.

A legitimidade de tais práticas deve assegurar o respeito à autonomia, a liberdade e à dignidade de pessoa por nascer. Contudo, as pesquisas científicas não acarretam apenas benefícios, implicam também riscos para a pessoa humana. Nesse sentido, há um largo campo para práticas de abusos gênicas, tanto por parte dos cientistas quanto por parte dos usuários das biotecnologias. Com isso há de se disciplinar os limites à liberdade de pesquisa como expõe Stela Marcos de Almeida Neves Barbas:

Há, pois, que se disciplinar os avanços da ciência no domínio da genética, acolhendo, claro, como bênçãos os seus resultados positivos, mas não tolerando que se ponham em causa os grandes princípios e valores que definem a nossa civilização28.

Desprende-se dessa citação, que a liberdade da ciência para investigação é garantida constitucionalmente, porém, isso não significa que esta não possa ser submetida a limites lógicos derivados da exigência de se tutelarem outros valores constitucionais. Valores expressos na constituição que podem ser objeto de balanço, em caso de confronto aparente das garantias.

Dentro disso, deslumbra-se o conjunto de valores na Declaração Universal do Genoma Humano e dos Direitos Humanos de 1997, em plena harmonia com a liberdade de pesquisa científica. Pois ressalte em seu artigo 12, b, a liberdade de

27 STANCIOLI, Brunello Souza. Renúncia ao exercício de direitos da personalidade ou como alguém se torna o que quiser. 156 f. (Tese de doutorado) – Direito, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2007. p. 139-140.

28 BARBAS, Stela Marcos de Almeida Neves. Direito ao património genético. Coimbra: Almedina, 1998. p. 206.)

pesquisa, “que é necessária para o progresso do conhecimento, e faz parte da liberdade de pensamento”29, a mesma declaração adverte, em seu artigo 10, que:

“nenhuma pesquisa ou aplicação de pesquisa relativa ao genoma humano, em especial nos campos da biologia, genética e medicina, deve prevalecer sobre o respeito aos direitos humanos, as liberdades fundamentais e a dignidade humana dos indivíduos ou, quando for o caso, de grupo de pessoas”30.

Ignorar essa valoração trata-se de reduzir a pessoa humana à condição de coisa, retirando-lhe a sua dignidade. Principalmente em uma era com sofisticadas técnicas de engenharia genética. Expondo não só o perigo da integridade física, mas também moral do homem.

Portanto, há que se falar da tutela do embrião diante das possibilidades da manipulação ou implantação de embriões para fins não terapêuticos. Contudo, com a escassez de regulamentação no Brasil surge a necessidade da edição de normas que indiquem quais casos seriam legítimos de terapia gênica, bem como regras efetivas de caráter obrigatório que estipulem limites à liberdade de pesquisa na utilização da engenharia genética.

O Princípio da Liberdade sempre terá o Princípio da Paternidade Responsável como um fator limitador. Mencionado no §7º do artigo 226 da Constituição Federal, a Paternidade Responsável começa na concepção e se estende até quando seja necessário e justificável o amparo dos pais para os filhos. Esse princípio adentra ao direito de reprodução e a liberdade sexual, entretanto, se trata de uma responsabilidade inescusável do titular. Conforme Villela, “a liberdade não exclui a responsabilidade. Ao contrário: é esta que não tem como exercitar-se onde falta aquela”31. Dessa forma, a Constituição prevê o livre planejamento familiar e ao mesmo tempo impõe restrições, como a responsabilidade parental.

Art. 226. A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado.

[...]

§ 7º Fundado nos princípios da dignidade da pessoa humana e da paternidade responsável, o planejamento familiar é livre decisão do casal,

29 UNESCO, Declaração Universal do Genoma Humano e dos Direitos Humanos (1997). Artigo 12, letra b.

30 Ibid. Artigo 10.

31 VILLELA, João Baptista. Liberdade e família. Revista da faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, v.3, n.2, 1980, p.19.

competindo ao Estado propiciar recursos educacionais e científicos para o exercício desse direito, vedada qualquer forma coercitiva por parte de instituições oficiais ou privadas32.

Vale destacar quanto às críticas trazidas pela expressão “paternidade responsável”, segundo Guilherme Gama, esse significado induz que a responsabilidade estaria apenas estrita ao pai, enquanto a mãe poderia ser irresponsável. O autor sugere a substituição por “parentalidade responsável”, representando assim o compromisso assumido por ambos os genitores33.

Contudo, a ideia prevalecida na paternidade responsável é o exercício da autonomia reprodutiva acarreta o dever por ambos, seja a mãe ou o pai, irrenunciável que se perdura no tempo. Quanto a essa responsabilidade, destaca Gama:

A consciência a respeito da paternidade e da maternidade abrange não apenas os efeitos posteriores ao nascimento do filho, para o fim de gerar a permanência da responsabilidade parental principalmente nas fases mais importantes de formação e desenvolvimento da personalidade da pessoa humana: a infância e a adolescência, sem prejuízo logicamente das consequências posteriores relativamente aos filhos na fase adulta - como, por exemplo, os alimentos entre parentes. Tal deve ser a consideração a respeito do sentido da parentalidade responsável, o que de certo modo se associa aos princípios da dignidade da pessoa humana e do melhor interesse da criança e do adolescente, dentro de uma perspectiva mais efetiva e social do que puramente biológica.34

Diante do exposto, a decisão do casal por ter um filho, além da imensa responsabilidade pela formação de um indivíduo atinge também o próprio projeto de vida. Com isso essa liberdade deve sempre ser acompanhado de uma profunda reflexão para que haja plena consciência do compromisso assumido.

Esse princípio deve ser aplicado em quaisquer meios de reprodução humana, seja natural ou artificial, sempre com o bom uso da ciência, evitando assim a manipulação injustificada do embrião como se a liberdade à procriação fosse absoluta.

A utilização abusiva das técnicas germinativas pode iniciar uma nova era de discriminação genética, em que os pais passarão a desejar um bebê desenhado.

Diante disso, destaca-se da importância da paternidade responsável quanto a responsabilidade das novas técnicas de reprodução assistida.

32 BRASIL. Constituição Federal (1988). Artigo 226, §7º.

33 GAMA, 2003, p. 452-453.

34 Ibid, p.455.

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