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PRINCÍPIO TRÊS: DA IDENTIFICAÇÃO DA PARCELA ESPACIAL

AS PARCELAS ESPACIAIS SÃO CONTÍNUAS EM TRÊS DIMENSÕES, MAS NÃO SÃO CONTÍGUAS ENTRE SI EM TODAS

5.3 PRINCÍPIO TRÊS: DA IDENTIFICAÇÃO DA PARCELA ESPACIAL

Sobre a identificação das parcelas espaciais preservam-se os princípios de unicidade e estabilidade adotados no Cadastro territorial. Segundo estes princípios os códigos identificadores de uma parcela são únicos e não se repetem. A ideia geral é a de que cada vez que haja uma alteração na definição geométrica da parcela, um novo código lhe seja atribuído. Este novo código tem de ser único e exclusivo; o que significa que não pode já ter sido utilizado por qualquer outra parcela ao longo da historicidade dos registros. Desta forma, as parcelas antigas mantêm os seus códigos e, tendo sido modificadas geometricamente, são

desativadas, mas mantidas nos bancos de dados com indicação de quais operações lhe foram imputadas e a quais novas parcelas estão ligadas, garantido que a sucessão das modificações possa ser compreendida e recuperada a qualquer instante.

Numa tentativa de equacionar a questão do registro de parcelas espaciais, alguns países estudaram ou adotaram soluções híbridas nas quais a identificação da parcela acima ou abaixo da superfície faz menção à identificação da parcela espacial (Israel, Grécia, Turquia, entre outros). Dentre estes, pode-se citar como emblemático o modelo proposto para Israel apresentado em Forrai e Kirschner (2003), no qual considera-se cada parcela espacial acima ou abaixo da superfície com uma sub-parcela da parcela territorial e “pertencente” a esta. A identificação das tais sub-parcelas segue uma lógica de códigos positivos (+) e negativos (-) para indicar se elas estão acima ou abaixo da superfície, respectivamente, e se elas estão em contato com a parcela territorial. Muito embora, a solução do modelo pareça atrativa, ela provavelmente ocasionaria uma situação de maior complexidade ao ter de subdividir parcelas espaciais em unidades cada vez mais fragmentárias. A Figura 100 mostra um exemplo de caracterização de sub-parcelas espaciais através das parcelas territoriais apresentado pelos próprios autores referente à construção de um túnel (Carmel Tunnel) na cidade de Haifa, norte de Israel.

Figura 100 - Representação gráfica da carta cadastral em projeção ortogonal e caracterização das sub-parcelas espaciais no modelo proposto em Israel. Fonte:

Adaptado de Forrai e Kirschner (2003).

A solução proposta para a identificação das parcelas espaciais desta forma não se mostra muito estável ao longo do tempo e parece prever que as parcelas espaciais não sofrerão alterações na sua forma geométrica, o que acarretaria a necessidade de utilização de novos identificadores únicos.

Pimentel et al. (2010) apresenta um resumo analítico sobre diferentes estratégias para identificação de parcelas no Cadastro territorial e aponta para o cenário brasileiro os três principais modelos com sendo: i) o modelo de identificação hierárquico territorial (divisão do território em unidades administrativas cada vez menores até que se chegue ao nível da parcela); ii) o modelo de identificação por centroides (criação de uma sequência combinada com coordenadas X e Y do centroide da parcela); e, iii) o modelo de identificação numérica sequencial. Destes, os dois primeiros nos parecem não ter aplicação prática no Cadastro 3D para identificação de parcelas espaciais, seja pela dependência territorial do modelo hierárquico que é superada pela adição da terceira dimensão, seja pela excessiva complexidade do modelo de centroides que precisaria de três coordenadas para a geração de um único código (além de outras severas limitações como a possibilidade de que o centroide se localize fora da parcela). A terceira alternativa parece ser a mais simples, tanto em relação à questão cadastral, quanto em relação à implementação computacional.

Independentemente da forma com que se dará a identificação das parcelas, preservam-se inalteradas as regras e pode-se expressar o seguinte princípio:

O IDENTIFICADOR DA PARCELA ESPACIAL DEVE SER ÚNICO E ESTÁVEL.

5.4 PRINCÍPIO QUATRO: DA HIERARQUIA DIMENSIONAL DO CADASTRO

A situação apresentada acima a respeito da identificação das parcelas espaciais demonstra que, em linhas gerais, os modelos de Cadastro 3D são derivados dos modelos de Cadastro 2D e que tem-se tentado em muitos casos manter uma relação do tipo um-para-um entre a parcela territorial e a parcela espacial. Esta abordagem cadastral tende a sedimentar o Cadastro 3D de forma dependente do Cadastro 2D, como se aquele fosse um subconjunto de dados deste, situação que corresponde ao modelo de dados cadastral híbrido de extensão 3D de direitos apresentado por Oosterom et al. (2004) e Oosterom et al. (2006). Outros autores como Dimopoulou, Gavanas e Zentelis (2006), Aien e Kalantari, et al. (2011) e Aien e Rajabifard, et al. (2011) propõem uma visão inversa, na qual a dimensionalidade estabelece também uma hierarquia em termos de modelo de dados, correspondente ao modelo de dados de Cadastro completo. Nesta perspectiva, o Cadastro 2D é que

seria um subconjunto de dados dos demais Cadastros – denominados “supra 2D”, como o 3D, 4D, 5D, etc. – e a parcela territorial corresponderia à projeção ortogonal da parcela espacial que intercepta a superfície topográfica. Nos casos em que a parcela espacial não está submetida a esta interseção, seja por estar totalmente delimitada acima ou abaixo da superfície, não há que se tentar estabelecer uma relação entre esta e a parcela territorial. Em concordância com esta visão, expressou-se como premissa nesta pesquisa a abordagem hierárquica multidimensional presente em um Cadastro 3D completo resumida no seguinte princípio:

A PARCELA TERRITORIAL É UM SUBCONJUNTO DE DADOS DA PARCELA ESPACIAL QUE INTERCEPTA A SUPERFÍCIE TOPOGRÁFICA.

5.5 PRINCÍPIO CINCO: DA REPRESENTAÇÃO DA PARCELA ESPACIAL

Diferentemente das parcelas territoriais, sobre as quais é possível aplicar as diversas formas de levantamento topográfico para identificar a real situação da ocupação territorial ou para se definir onde começa e onde termina a extensão registrada da parcela, em relação às parcelas espaciais estes mesmos processos não podem ser aplicados na totalidade dos casos. A demarcação com marcos topográficos implantados nos limites das parcelas territoriais segue padrões e normativas que permitem que sempre que haja qualquer dúvida sobre os mesmos um novo levantamento possa ser efetuado e as devidas comparações e atualizações realizadas. No caso das parcelas espaciais, trata-se em termos não de demarcação – haja vista a impossibilidade de se implantar um marco “flutuante” ou “aterrado” de divisa entre parcelas – mas de delimitação. A discussão em termos internacionais segue um caráter sobre como delimitar tais parcelas espaciais e, ainda mais, como registrar esses limites.

Para o Brasil, uma solução possível seria que as parcelas espaciais se limitassem acima e abaixo da superfície por parâmetros urbanísticos de uso comum nas municipalidades como o coeficiente de aproveitamento do lote urbano ou o gabarito, o que fosse alcançado primeiro considerando o cálculo total da parcela espacial. As leis de uso e ocupação do solo são elaboradas em nível municipal considerando as características e padrões construtivos locais, bem como os interesses sociais, mas, em geral, são omissas em relação a quanto se pode

construir abaixo da superfície permitindo inclusive que a taxa de ocupação possa ser de 100%, o que caracteriza um tratamento bem diferente entre o que está acima da superfície (e, portanto, pode ser visto) e o que está abaixo desta (e, portanto, não pode ser visto).

Figura 101 - Aspecto típico de uma carta cadastral.

Como produto do levantamento sistemático e demarcação das parcelas territoriais tem-se a carta cadastral, que é o documento que contém a descrição do território por meio de uma representação gráfica (Figura 101). Na definição da carta cadastral estão presentes alguns elementos, tais como: o sistema de coordenadas, o sistema de projeção cartográfica, o sistema de referência, as escalas gráfica e numérica, os atributos da representação gráfica das parcelas e o código unívoco identificador da parcela. Todo este processo tem como objetivo proporcionar ao sistema de administração territorial uma ferramenta adequada de representação da realidade parcelar, normalmente com a utilização de algum tipo de projeção ortogonal que permita uma vista de topo do território.

O processo de delimitação sistemático das parcelas espaciais, entretanto, não tem como finalidade a alimentação de uma carta cadastral haja vista que a inserção da terceira dimensão altera completamente a natureza da representação e carece de novas ferramentas que permitam ao sistema de administração territorial gerar produtos que simulem a realidade contínua tridimensional na qual as parcelas espaciais estão inseridas. Por isso, os autores internacionais tem se dedicado a desenvolver modelos cadastrais 3D, flexíveis o suficiente para gerar visualizações das parcelas delimitadas espacialmente em qualquer ângulo, conforme a necessidade do usuário (Figura 102). Neste

cenário, e considerando a parcela territorial como um subconjunto da parcela espacial, pode-se afirmar que:

A CARTA CADASTRAL DO CADASTRO TERRITORIAL CORRESPONDE A UM EXTRATO DO MODELO DE DADOS DO